Dora Kramer O Estado de São Paulo
Mal refeito do susto de um quase revés eleitoral que a certa altura
chegou a dar como certo, o governo já enfrenta turbulências na área
política às quais o PT não estava acostumado nas três vezes em que
ganhou as eleições presidenciais.
No geral as previsões eram no sentido de que depois do vendaval da
campanha acirrada viria a calmaria do dia a dia. A oposição algo
fortalecida, mas ainda minoritária, a população cuidando da vida e a
base parlamentar dita aliada voltaria para seus afazeres em busca do
melhor lugar na troca das cadeiras na Esplanada dos Ministérios e
adjacências.
As coisas, no entanto, não saíram como previsto. A oposição não falou
fino, a situação - com destaque para o PMDB - não assinou o cheque em
branco e o PT depois de reclamações iniciais começou a defender
publicamente a necessidade de mudar para poder continuar.
O discurso dos críticos contra o qual reagiam passou a ser vocalizado
pelos petistas: o partido rendeu-se ao fisiologismo, trocou a
interlocução com a sociedade pela atuação via máquina do governo e
concentrou todo o seu foco em disputas eleitorais.
Resultado, a população percebeu, reduziu significativamente seu apoio ao
partido, respaldou a oposição como nunca havia feito antes e esses
fatores tiveram reflexo imediato no Congresso. A reação foi instantânea.
Sem direito a carência nem o aguardo da posse dos deputados e um terço
dos novos senadores eleitos.
A insatisfação vai de A a Z, incluindo uma bancada do PT que se percebe
isolada. É com esse cenário que a presidente Dilma Rousseff se depara
nesta semana de movimentação partidária intensa em Brasília, na
desconfortável situação de se ver obrigada a trocar os pneus com o carro
em movimento.
Da reunião da Executiva Nacional do PT marcada para ontem a fim de fazer
um balanço das eleições, discutir o que fazer no segundo mandato e
examinar o rumo a tomar na disputa pelas presidências da Câmara e do
Senado, se o tom não fosse de autoengano não se poderia esperar um
quadro otimista. Embora sejam muitas, as dificuldades não são
intransponíveis. O problema é que dependem de duas premissas:
autocrítica e correção de rumos.
Hoje e amanhã é a vez de o PMDB se reunir. Primeiro para discutir qual a
proposta do partido para a reforma política. Difícil acreditar que no
clima conflagrado em que o partido se encontra e tendo em vista a
amplitude dessa pauta, os pemedebistas se mantenham presos ao assunto
durante o jantar no Palácio do Jaburu.
O tema que interessa mesmo ao partido é o da agenda do dia seguinte na
reunião do Conselho Político: a conduta da bancada no Congresso nos
próximos quatro anos. Em particular, nos dois primeiros em que os
deputados apoiam a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara
contra (e por isso mesmo) a vontade do Planalto.
O que está em jogo - e esta é uma mudança que faz diferença - não é mais
a quantidade de cargos que o governo possa oferecer. No mandato que
agora termina o partido percebeu que seu poder real está no Congresso.
No Executivo, o nomeado não tem autonomia. Segundo Eduardo Cunha há uma
chance de o partido chegar a um acordo com o PT: "Se eles apoiarem o
PMDB para a presidência está fechado". Logo...
O argumento para convencer os deputados a não cederem é o mesmo que será
utilizado para conquistar os votos do PSDB e demais partidos de
oposição: "Não entregar o comando do Congresso ao PT para preservar o
equilíbrio dos Poderes."
Pode ser que seja um dos assuntos do encontro marcado pelos tucanos para
a mesma quarta-feira, a fim de marcar a reentrada em cena do senador
Aécio Neves. Na ocasião, o PSDB dará o tom - de certo modo já antecipado
- da contundência com que pretende fazer oposição.
Atento ao quadro, o governo dá sinais de que o contraditório entrou no seu rol de preocupações.
fonte rota2014





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