Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

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sábado, 8 de agosto de 2026

Um Brasil que funciona só existe na cabeça de Lula

    Francisco Carneiro Junior


O socialismo nunca defendeu o povo — defendeu o Estado contra o povo, e destruiu, no caminho, a menor minoria que existe sobre a Terra: o indivíduo”. Ayn Rand

             Enquanto Brasília sonha com outubro, o Brasil sangra em silêncio.

O projeto que hoje ocupa Brasília não é um projeto de governo. É um projeto eleitoral disfarçado de governo. Não existe plano de nação ali dentro — existe cronograma de campanha. E a diferença entre as duas coisas é medida em vidas, em contas de luz, em presídios que viraram sede social do crime, em fronteiras que ninguém fecha. O horizonte deles é outubro de 2026. O horizonte do povo é o Brasil que sobra depois. Sacrifica-se o presente do brasileiro para financiar o futuro do partido — e a fatura, gigantesca, cairá sobre a mesa de cada família em 2027, quando o circo já tiver ido embora e restar só a lona rasgada.Olhe ao redor. Segurança pública, defesa nacional, infraestrutura, o interior esquecido, o cotidiano exaurido — em cada uma dessas frentes a sensação é uma só, monocórdica, obsessiva: abandono. Não é impressão. É método.

Comecemos pelo bolso, que é onde a ideologia perde a poesia e vira aritmética. Você paga luz, combustível, internet, plano de saúde, transporte, água — e nunca votou em quem decide, de fato, quanto você vai pagar por cada um desses itens. O Brasil mantém onze agências reguladoras federais com poder de editar norma, autorizar, fiscalizar, multar, interferir. Um poder imenso, quase invisível, que não passa pela urna e raramente passa pela imprensa. O problema não é a regulação em si — regular é função legítima do Estado moderno. O problema é quando a regulação deixa de prestar contas a alguém e passa a prestar favor a algum setor. Isso tem nome técnico: captura regulatória. E captura regulatória, meus caros, é apenas uma forma elegante de dizer que o Estado trocou de dono sem avisar o eleitor.

Agora olhe a fronteira, porque é lá que a ficção do “Brasil que funciona” se desfaz com mais violência. O país deixou de ser rota do narcotráfico internacional para se tornar base dele. O Tren de Aragua fornece armamento. O Comando Vermelho articula redes que atravessam continentes. O PCC se expande como uma corporação transnacional — porque é exatamente isso que ele é: uma corporação transnacional do crime, com filial, com logística, com departamento financeiro. E enquanto isso acontece, a cúpula da Polícia Federal chama de “equívoco técnico” a decisão de potências estrangeiras de tratar essas facções como organizações terroristas. Chamam de equívoco o que deveria ser chamado de diagnóstico tardio. O governo, em vez de agradecer a cooperação, veste a beca da soberania ferida — como se soberania fosse o direito de deixar o crime crescer sem interferência alheia, e não o dever de protegê-la com as próprias mãos, antes que outros precisem fazê-lo por nós.

A solução, aliás, nunca foi complicada — só foi, sistematicamente, evitada. Fronteira protegida. Dinheiro bloqueado. Bens confiscados. Lideranças isoladas em regime que impeça o comando de dentro da cela. Facções tratadas como o que são: ameaça à soberania nacional, não como problema de assistência social mal resolvido. Ou o Brasil enfrenta o narcoestado que se instala célula por célula, ou aceita ser playground do crime organizado — e nações não escolhem entre essas duas coisas por acaso; escolhem por covardia ou por coragem, e a covardia, infelizmente, também é política pública.

E é dentro do próprio sistema prisional que se vê o retrato mais cru do abandono. Quando o Estado perde o controle dos presídios, ele não perde um detalhe administrativo — perde a soberania sobre o próprio território, célula por célula, ala por ala. É nesse vácuo, morno e silencioso, que as facções recrutam, se organizam, se profissionalizam. Cada preso não ressocializado é um funcionário em potencial da maior multinacional do crime que o Brasil já produziu.

E é nesse cenário que ouvimos uma vereadora — Karen Santos, do PSOL — descrever traficantes como “trabalhadores megaexplorados” e defender a legalização das drogas como política de combate ao próprio tráfico. Segundo ela, a droga seria “uma mercadoria como qualquer outra”. Vejam a inversão: quem morre soterrado pela guerra das facções vira estatística; quem comanda o tráfico vira proletário oprimido. É a compaixão apontada para o lado errado da arma. E o pior: dita com a solenidade de quem acredita estar do lado certo da história — o que nos leva a um fenômeno mais profundo do que qualquer discurso isolado de plenário.

Porque existe uma engrenagem, quase invisível, que rege a política digital contemporânea, e que explica por que discursos como esse não desaparecem — eles se multiplicam. A internet não premia necessariamente quem está certo. Premia quem consegue fazer o adversário reagir. Há uma lei informal da internet que descreve exatamente isso: a forma mais eficiente de dominar uma conversa não é fazer a pergunta mais inteligente — é lançar a provocação mais irritante, aquela que ninguém consegue deixar sem resposta. O erro vira isca. A indignação vira combustível. E jornalistas, adversários, influenciadores, militantes de boa-fé começam, sem perceber, a trabalhar de graça espalhando exatamente aquilo que gostariam de destruir. Some a isso outro princípio, batizado em homenagem a um escritor italiano: a quantidade de energia necessária para desmentir uma mentira é ordens de grandeza maior do que a energia necessária para produzi-la. E some ainda a advertência de um linguista americano: negar publicamente um enquadramento é, paradoxalmente, reforçá-lo na mente de quem ouve — porque a palavra repetida grava a moldura, mesmo quando pretende apagá-la. Três mecanismos, uma só conclusão: nem toda provocação merece palco, porque na guerra de narrativas quem “corrige” costuma sair convencido de que venceu o debate — enquanto quem provocou, na verdade, venceu a pauta.

E a hipocrisia, aqui, atinge sua forma mais pura. Em palanque na universidade, antes de discurso do próprio presidente da República, ouvimos a acusação de que as igrejas seriam “máfias”. Mas, chegada a eleição, os mesmos lábios que insultaram os templos pedirão, mansamente, o voto dos que neles rezam. Quando alguém chama a igreja de máfia, não está atacando um prédio de tijolo e telha — está atacando milhões de pessoas de fé que sustentam famílias, recuperam vidas destruídas pelo vício, alimentam quem o Estado esqueceu. Quem conhece o trabalho das igrejas nas periferias sabe que ali não há crime organizado: há oração, acolhimento, prato de comida quente, esperança reconstruída tijolo por tijolo. A fé do povo não pode ser transformada em inimigo ideológico por quem, depois, precisará dela nas urnas. Respeitar as igrejas não é favor — é reconhecer a liberdade religiosa e a dignidade elementar de quem crê.

Mas para entender por que tudo isso se encaixa como peças de um só quebra-cabeça, é preciso voltar a 1985, quando um ex-agente da KGB desertou para o Ocidente e revelou o método. Yuri Bezmenov não foi treinado para plantar bombas — foi treinado para plantar percepções. O trabalho dele não era espionagem no sentido clássico. Era reformular, lentamente, a maneira como uma população inteira enxerga a realidade, até que essa população perca a capacidade de distinguir o certo do errado. Ele batizou o processo de subversão ideológica. Eu batizo de Brasil contemporâneo.

A subversão não chega de tanque. Chega pela escola que ensina a obedecer em vez de pensar. Chega pela mídia que decide, por você, o que merece sua indignação hoje. Chega pela cultura que glorifica o Estado provedor e culpa o empresário pela pobreza que o próprio Estado, com sua carga tributária asfixiante, ajudou a produzir. Bezmenov descreveu quatro etapas, e cada uma delas tem endereço no Brasil de 2026. Desmoralização: corroer os valores que sustentam uma sociedade produtiva — família, mérito, propriedade. Ele considerava essa etapa concluída no Ocidente já em 1985; no Brasil, ela amadureceu tardiamente, mas amadureceu. Desestabilização: atacar a economia real, as relações exteriores, a capacidade de defesa — leis que encarecem produzir, impostos que sufocam quem gera emprego. Crise: o colapso que chega, com pontualidade quase matemática, quando a base produtiva de um país é sistematicamente destruída. Normalização: o momento em que o povo deixa de se indignar e passa a administrar o caos como se fosse clima — carga tributária alta? “é assim mesmo”. Empresa fechando? “culpa do empresário ganancioso”. E aqui mora a peça mais trágica do tabuleiro: os idiotas úteis. Não são vilões conscientes — são, em sua maioria, pessoas de boa-fé que propagam a narrativa da própria ruína por ingenuidade, por vaidade, por ganância de aplauso, sem perceber que ajudam a afundar o mesmo barco em que navegam.

E é preciso dizer, com honestidade que a militância raramente pratica: a esquerda moderna não é uma conspiração de cinismo. É pior — é um sistema de poder que se autolegitima através da própria linguagem moral. A maioria de seus operadores acredita genuinamente no que prega. E é exatamente por isso que o sistema é tão resistente: um regime que depende de conspiradores conscientes é frágil, porque conspiradores podem ser expostos, comprados, desmascarados. Um regime que convence seus próprios operadores de que estão praticando o bem é quase inexpugnável, porque não há traidor a delatar — há apenas fiéis convictos. Roger Scruton deu nome a esse impulso: oikofobia — o desprezo sistemático pelo que é seu, familiar, herdado, local. É um movimento psicológico que precede o político. Primeiro se aprende a sentir vergonha da própria origem; depois se aprende a reparar essa vergonha através da militância; a militância então se torna identidade; e a identidade se torna o bem supremo, blindado contra qualquer crítica. O resultado é uma classe que se sente moralmente superior precisamente por ter rompido com tudo que a precedeu — a família, a tradição, a fé, a nação. Quanto mais se rejeita o passado, mais virtuoso se é. Quanto mais se pertence a ele, mais culpado se torna. É um sistema fechado, meus caros: não há como vencer esse debate por dentro, porque o debate, ali, nunca foi sobre argumentos — é sobre pertencimento moral, e pertencimento moral não se discute, se professa.

Se o brasileiro real, no seu dia a dia, em seus valores, em sua fé, é majoritariamente conservador — e se os partidos que dizem falar em nome do povo são sistematicamente progressistas — a pergunta que ninguém quer responder se impõe sozinha: quem, afinal, representa quem? A resposta é desconfortável, mas é precisa: a esquerda brasileira nunca representou o povo. Representou a classe intelectual que se autoproclamou porta-voz dele. E essa distinção não é detalhe acadêmico — é o núcleo exato do problema. Quando Antonio Gramsci formulou o conceito de hegemonia cultural, ele não estava ensinando como convencer a maioria a mudar de opinião. Estava ensinando como tornar a opinião da maioria irrelevante, controlando as instituições que decidem o que conta como realidade. Escola. Universidade. Imprensa. Entretenimento. Quem domina essas quatro estruturas não precisa vencer eleição nenhuma para governar — governa antes mesmo de a urna ser aberta.

E o que é o aparelhamento senão a hegemonia cultural com CNPJ, com organograma, com folha de pagamento? Não é teoria. É prática administrativa. Educação, saúde, previdência, o Bolsa Família — tudo instrumento; nada é fim em si. Um pedaço das Forças Armadas, capturado pela lógica da acomodação. Um pedaço da Polícia Federal, capturado pela lógica do “equívoco técnico”. As autarquias, a ANEEL, a ANATEL, o alfabeto inteiro das siglas que ninguém elegeu — tudo isso não administra o Brasil: administra o desvio, a cooptação, a promoção contínua de um projeto único, que é a utopia centralizadora de Brasília. E a essa utopia é preciso, finalmente, dizer basta. Precisamos rever, reexaminar, reconquistar aquilo que é nosso — porque a verdade incômoda é esta: nós não defendemos coisa alguma que seja nossa.

Enquanto isso, observe o mundo lá fora: as outras nações defendem, com unhas e dentes, até aquilo que não lhes pertence. Recebem o que não é delas, e ficam com o que recebem. O Brasil, ao contrário, entrega o que é seu — e agradece pela oportunidade. Por que a exceção somos sempre nós? O sistema, note bem, já nasceu arranjado para isso: os fundos estão definidos, as autarquias estão desenhadas, os recursos escoam para onde a lei manda escoar, obrigatoriamente, independentemente de mérito, de resultado, de qualquer critério que não seja o critério político que criou a norma. Não é desvio informal — é rolo institucionalizado, com força de lei, blindado contra qualquer revisão.

E aqui está o erro estratégico mais grave de décadas de resistência conservadora: nós só sabemos nos levantar contra indivíduos. Contra o ministro, contra o petista da vez, contra o rosto que a televisão nos mostra. Mas nunca contra a instituição — a autarquia, o fundo, a estrutura burocrática permanente — que segue ali, entronizada, cooptada, orientada contra o próprio país, muito depois de o indivíduo ter caído em desgraça e sido substituído por outro igual. Combater o sintoma e poupar a doença é a receita exata da derrota eterna. É a instituição, e não apenas o nome que a ocupa hoje, que precisa ser revista, disputada, reconquistada — porque enquanto lutarmos apenas contra pessoas, o aparelho continuará de pé, esperando, paciente, o próximo ocupante.

A esquerda não chegou ao poder no Brasil por vitória eleitoral esmagadora nem por sedução ideológica da maioria silenciosa. Chegou por infiltração institucional — lenta, paciente, metódica, executada ao longo de gerações por intelectuais e militantes que compreenderam exatamente aquilo que os conservadores brasileiros insistiram, soberbamente, em ignorar: que o poder duradouro não está em quem vence a eleição de outubro, mas em quem forma os juízes, os professores, os jornalistas, os funcionários públicos de carreira que permanecem no cargo enquanto os governos passam. Os conservadores brasileiros falharam de maneira monumental em construir as alternativas institucionais que poderiam ter alterado esse equilíbrio décadas atrás. E aqui vai a advertência mais dura deste texto, porque advertência sem dureza é apenas lamento vestido de análise: criticar a hegemonia cultural da esquerda sem ter erguido nada comparável não é diagnóstico — é queixa. É o general que denuncia o exército inimigo sem jamais ter treinado o próprio batalhão.

E, no entanto — e é aqui que este texto se recusa a terminar em resignação, porque resignação é exatamente o produto final que a subversão ideológica pretende entregar — reverter esse quadro é questão de construção, não de lamentação. Escola por escola. Instituição por instituição. Uma geração disposta a ocupar o espaço que a anterior cedeu por comodismo.

O Brasil não está condenado ao regime de exceção regulatória, ao narcoestado tolerado, à normalização do caos como clima. Está, isso sim, diante da última hora em que a construção ainda é possível sem que o colapso a torne inevitável. Um Brasil que funciona não é utopia de gabinete nem imaginação de discurso de posse — é projeto que se constrói com as mãos, com instituição, com coragem de nomear o crime pelo nome certo e a fé pelo respeito que ela merece. Existe, ainda, um caminho de volta. A pergunta que resta — e que cada brasileiro terá que responder, sozinho, diante da própria consciência, antes de outubro de 2026 — é se ainda restará gente disposta a percorrê-lo antes que a conta, gigantesca e avassaladora, vença de vez.

Francisco Carneiro Júnior















publicadaemhttps://www.puggina.org/outros-autores-artigo/um-brasil-que-funciona-so-existe-na-cabeca-de-lula__18710

Wagner Moura no Bial: Desmontando Cada Argumento

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Wagner Moura no Bial: Desmontando Cada Argumento

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NA CAMPANHA DA CHINA PELA POSSE DO MUNDO, LULA É A BOLA DA VEZ

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NA CAMPANHA DA CHINA PELA POSSE DO MUNDO, LULA É A BOLA DA VEZ



Rebati Coluna de Míriam Leitão Com Críticas a Mendonça!

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O imposto do crime: quando o Estado perde o monopólio da proteção

  Isaías Fonseca


Em muitas comunidades brasileiras, comerciantes, moradores e prestadores de serviços convivem com uma realidade que desafia a própria ideia de Estado de Direito: além dos tributos legalmente instituídos, são obrigados a pagar cobranças impostas por traficantes e milicianos para continuar trabalhando, circulando ou simplesmente vivendo em segurança. Essas exações ilegais, frequentemente chamadas de “impostos do crime”, representam mais do que uma fonte de financiamento das organizações criminosas. Elas revelam a perda do monopólio legítimo da força pelo Estado e a substituição parcial da autoridade pública por estruturas de poder baseadas na violência.

Sob uma perspectiva liberal, esse fenômeno não resulta simplesmente da ausência do Estado. Em muitos desses territórios, o Estado está presente, mas de maneira fragmentada, ineficiente ou marcada pela captura por interesses ilícitos. Há escolas, postos de saúde e programas sociais; muitas vezes também há policiamento. O problema é que essa presença não consegue assegurar aquilo que constitui a função primordial de qualquer governo legítimo: garantir segurança, proteger a propriedade, assegurar o cumprimento da lei e preservar os direitos individuais. Quando essas funções deixam de ser exercidas de forma efetiva, organizações criminosas encontram espaço para disputar o controle territorial e impor sua própria ordem.

Essa distinção é importante. O problema não é simplesmente um Estado ausente, mas um Estado incapaz de exercer autoridade legítima e contínua. Em alguns locais, a corrupção, a violência policial, a baixa capacidade investigativa e a fragilidade institucional convivem com serviços públicos precários, produzindo um ambiente em que a população permanece formalmente sob a autoridade estatal, mas materialmente submetida ao poder de facções criminosas.

Essa realidade não transforma organizações criminosas em uma espécie de “Estado alternativo”. A comparação é útil apenas até certo ponto. Tanto o Estado quanto esses grupos arrecadam recursos, impõem regras e aplicam sanções, mas existe uma diferença fundamental entre ambos. O Estado democrático possui legitimidade jurídica, está submetido à Constituição e está submetido, ao menos em princípio, a mecanismos de controle institucional. Já traficantes e milicianos exercem poder exclusivamente por meio da intimidação, da violência e da ausência de qualquer responsabilidade perante a sociedade. O problema não é a existência do Estado, mas justamente a perda de seu monopólio legítimo da força, permitindo que agentes privados utilizem a coerção como instrumento permanente de dominação.

Sob esse aspecto, a tradição liberal oferece instrumentos analíticos importantes. John Locke afirmava que os indivíduos instituem governos para proteger a vida, a liberdade e a propriedade. Friedrich Hayek, por sua vez, enfatizava que uma sociedade livre depende do Estado de Direito, entendido como aplicação impessoal e previsível das leis. Quando essas funções deixam de ser desempenhadas, a liberdade deixa de ser garantida pela ordem jurídica e passa a depender da capacidade individual de negociar com quem controla a força em determinado território. É justamente isso que ocorre quando comerciantes são obrigados a pagar para manter seus estabelecimentos abertos, empresas distribuidoras precisam negociar o acesso a determinadas regiões ou moradores precisam adquirir produtos e serviços exclusivamente de fornecedores autorizados por organizações criminosas.

A metáfora do “imposto do crime” torna-se especialmente útil quando analisada sob a ótica econômica. Essas cobranças funcionam como uma tributação compulsória que não financia bens públicos nem produz qualquer benefício coletivo. Ao contrário, aumenta artificialmente os custos de produção e distribuição, eleva preços ao consumidor, reduz investimentos, desestimula novos empreendimentos e limita a concorrência. Além disso, comerciantes frequentemente são obrigados a contratar fornecedores controlados por milícias, utilizar determinados serviços de transporte ou aceitar condições comerciais impostas pela organização dominante. A liberdade contratual desaparece, substituída pela coerção. Pequenos empresários encerram atividades, investimentos deixam de ocorrer e trabalhadores perdem oportunidades de emprego não apenas pela violência direta, mas pela deterioração do ambiente econômico.

O resultado é uma economia local profundamente distorcida. A informalidade deixa de representar apenas uma estratégia de sobrevivência e passa, muitas vezes, a ser imposta pela própria insegurança. O custo da violência incorpora-se aos preços, reduz a produtividade e compromete o desenvolvimento das comunidades muito além das perdas patrimoniais imediatas.

Essa dinâmica evidencia que o crime organizado não se fortalece apenas pelo lucro extraordinário proporcionado por mercados ilícitos, como tráfico de drogas, armas e contrabando. Ele prospera também porque consegue transformar controle territorial em poder econômico permanente. Quanto mais frágil a capacidade estatal de garantir segurança e fazer cumprir contratos, maior o espaço para que organizações criminosas substituam mecanismos legais por relações baseadas no medo. Enfrentar esse problema exige compreender que segurança pública não se resume ao aumento do efetivo policial ou ao endurecimento das penas. A reconstrução da autoridade legítima do Estado depende de uma estratégia institucional muito mais ampla.

Em primeiro lugar, é indispensável ampliar a inteligência policial e a investigação patrimonial, concentrando esforços na descapitalização das organizações criminosas e no combate sistemático à lavagem de dinheiro. Enquanto suas estruturas financeiras permanecerem intactas, prisões isoladas terão impacto limitado. Também é fundamental recuperar o controle efetivo do sistema prisional, impedindo que presídios continuem funcionando como centros de comando e recrutamento das facções. A desarticulação dessas estruturas exige integração entre a inteligência penitenciária, as polícias e o sistema de justiça.

No plano territorial, a presença estatal precisa ser permanente e legítima. Não basta realizar operações esporádicas. É necessário garantir segurança contínua, proteger comerciantes contra extorsões, assegurar a prestação regular de serviços públicos e impedir que organizações criminosas assumam funções de mediação econômica ou social.

Sob a perspectiva econômica, reduzir barreiras à formalização, simplificar o ambiente de negócios e ampliar a segurança jurídica fortalece a atividade produtiva legítima e dificulta a captura econômica das comunidades por grupos armados. Essas medidas não significam ampliar indiscriminadamente o tamanho do Estado. Significam fortalecer justamente as funções que justificam sua existência: proteger direitos, garantir segurança, assegurar a aplicação imparcial da lei e preservar a liberdade dos cidadãos. O liberalismo clássico nunca defendeu um Estado ausente nessas funções. Ao contrário, sempre sustentou que somente uma autoridade legítima, limitada pela lei e responsável pela proteção dos direitos individuais, pode criar as condições necessárias para que a sociedade floresça por meio da cooperação voluntária e da livre iniciativa.

O chamado “imposto do crime” revela o que acontece quando essa missão fracassa. O cidadão continua pagando tributos ao Estado, mas precisa pagar novamente para obter aquilo que seus impostos deveriam garantir: segurança para trabalhar, empreender e viver em paz. No fim, essa talvez seja a imagem mais contundente da crise institucional brasileira. Onde o Estado deixa de proteger, a liberdade transforma-se em privilégio, e onde organizações criminosas conseguem tributar comunidades inteiras, homens e mulheres deixam de trabalhar para prosperar e passam a trabalhar apenas para sobreviver sob coerção.









publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/o-imposto-do-crime-quando-o-estado-perde-o-monopolio-da-protecao/

O pacto dos desconhecidos

  Alex Pipkin 


Passei boa parte da vida acreditando que a riqueza de uma sociedade podia ser reconhecida pelas suas fábricas, pela tecnologia que desenvolvia, pelo capital que acumulava ou pelas empresas que criava. Hoje percebo que sempre estive olhando para a consequência, nunca para a causa. Tudo isso continua sendo importante. Apenas deixei de acreditar que seja o ponto de partida.

Hoje penso que existe uma riqueza muito maior, quase sempre invisível, da qual todas as outras dependem. Percebi isso numa manhã absolutamente comum. Antes do primeiro café, entreguei parte da minha vida a centenas de pessoas que jamais conhecerei. Confiei que a água sairia da torneira, que a energia chegaria às tomadas, que o pão teria sido entregue durante a madrugada, que o aplicativo exibiria corretamente o saldo da minha conta, que o elevador funcionaria e que o motorista que cruzasse o meu caminho permaneceria na sua faixa. Fiz tudo isso sem conhecer um único rosto.

Enquanto vivia essa rotina banal, ocorreu-me uma ideia que nunca antes me havia visitado. Passo muito mais tempo dependendo de desconhecidos do que das pessoas que conheço. Quanto mais pensava nisso, mais extraordinário o fenômeno me parecia.

Nenhum agricultor plantou pensando em mim. Nenhum caminhoneiro atravessou a noite por minha causa. Nenhum padeiro madrugou para que eu encontrasse pão fresco pela manhã. Nenhum engenheiro projetou um elevador imaginando que um dia eu o utilizaria. Ainda assim, todos participaram da minha rotina. Não por idealismo. Não por altruísmo. Não porque obedecessem a uma autoridade central. Nem porque soubessem da existência uns dos outros. Cada um perseguia os seus próprios interesses e, justamente por isso, acabava contribuindo para a vida de milhares de desconhecidos.

Foi então que compreendi que a pergunta mais importante talvez nunca tenha sido como uma sociedade produz riqueza, mas como consegue fazer com que milhões de pessoas, completamente estranhas entre si, cooperem diariamente sem que alguém precise coordenar cada um dos seus movimentos. A resposta não está nas fábricas. As fábricas já pertencem ao capítulo seguinte.

Ela está numa expectativa silenciosa, tão presente que quase se torna invisível; a expectativa de que amanhã continuará valendo a pena cumprir a palavra, produzir antes de receber, investir antes de conhecer o resultado, inovar antes de saber quem será beneficiado e confiar o suficiente para que outros façam o mesmo.

É esse pacto invisível que transforma interesses particulares em benefícios compartilhados, decisões independentes em coordenação espontânea e desconhecidos em colaboradores voluntários.

Quando esse pacto enfraquece, não desaparecem apenas investimentos, empresas ou empregos. Desaparece algo muito mais precioso. Aos poucos, as pessoas deixam de acreditar que vale a pena construir antes de colher, arriscar antes de ter garantias e confiar antes de conhecer.

A cooperação cede lugar à desconfiança, a iniciativa recua diante da burocracia e a esperança passa a depender daquilo que antes nascia espontaneamente entre pessoas livres. Talvez seja por isso que algumas sociedades consigam transformar escassez em prosperidade enquanto outras permanecem aprisionadas ao mesmo ponto de partida. A diferença raramente começa nas riquezas que podemos contar. Começa naquela que quase ninguém consegue enxergar.

O patrimônio mais valioso de uma sociedade não é aquilo que ela produz, mas aquilo que torna toda produção possível. É o pacto silencioso que leva milhões de pessoas a descobrir, todos os dias, que a melhor maneira de realizar os próprios interesses é contribuir, ainda que jamais se encontrem, para a realização dos interesses de milhões de outros desconhecidos. Essa é  uma das riquezas mais extraordinárias que uma sociedade pode construir. Não a capacidade de produzir bens, mas a capacidade de transformar estranhos em parceiros de um futuro comum.






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Nine afirma confiança na reeleição: "Não há motivo para não votar em mim" | CAFÉ COM A GAZETA

  CAFÉ COM A GAZETA


Nine afirma confiança na reeleição: "Não há motivo para não votar em mim"

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SE TODOS TIVESSEM CORAGEM DE FALAR A VERDADE

 BRUNOZAMBELLI/FACEBOOK


SE TODOS TIVESSEM CORAGEM DE FALAR A VERDADE



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A oficialização do juiz-massa

    Judiciário em Foco


A massificação dos serviços judiciários está longe de ser um fenômeno recente entre nós. Na terra onde as partes tendem a substituir a arte do diálogo pela terceirização de seus conflitos a juízes estatais, a confecção de petições e decisões padronizadas se torna a tônica dominante de uma justiça que tarda e falha na resolução satisfatória dos litígios a ela submetidos. Ao assumir seu atual viés autoritário, o poder não-eleito vem deixando de tratar os jurisdicionados como indivíduos em busca de prestações jurisdicionais específicas, para enxergá-los como membros de supostos coletivos “dignos” de empatia ou antipatia. Apenas a título ilustrativo, tenhamos em mente a situação dos envolvidos no 08.01, vistos não mais como humanos e sim como “golpistas”, de muitos empregadores que, em canetadas da justiça do trabalho, são rotulados como pseudo-opressores de vulneráveis, ou até mesmo dos homens em relação aos quais certos magistrados têm instituído uma “presunção de violência” contra mulheres.

De uns anos para cá, a hipertrofia do judiciário passou a afetar não apenas as partes, mas também os próprios magistrados de instâncias inferiores, mantidos sob a rédea curta da cúpula. Em resoluções e portarias de índole indevidamente legislativa, o CNJ tem imposto a juízes parâmetros alheios aos ditames da legalidade estrita, determinando, por exemplo, que julgamentos venham a ser necessariamente proferidos sob perspectivas de gênero e raça, seja lá o que isso signifique. Nessa toada, acaba de ser publicada a portaria 142/26, mediante a qual o conselho, em vez de se restringir ao seu dever constitucional de fiscalizar a magistratura, criou uma rede nacional de magistrados supostamente destinada a apoiar o combate à criminalidade organizada. Teria sido esta uma iniciativa minimamente útil?

Não creio. Afinal, o país é repleto de varas criminais e de execuções penais, de forças policiais estaduais e federais, de promotores e procuradores, e, sempre que exigido pela complexidade do esquema delitivo sob investigação, esses quadros se reúnem em grupos de trabalho ou forças-tarefa capazes de render bons frutos, como se viu durante a Operação Lava-Jato. Na contramão dessas atuações espontâneas por parte dos profissionais envolvidos diária e diretamente na apreciação dos fatos e das provas relevantes, a portaria centraliza poderes nas mãos de magistrados nomeados pelas presidências dos tribunais locais, pelo próprio CNJ e pela corregedoria de justiça – não se sabe mediante quais critérios -, e lhes confere atribuições descritas em termos vagos e não previstas em nossa legislação. É incompreensível, por exemplo, que burocratas indicados por figurões brasilienses venham a elaborar planos de trabalho, promovendo reuniões e visitas técnicas (art. 5), quando o dever de um juiz se restringe ao “prosaico” exercício da jurisdição, cabendo-lhe apenas dizer o direito dentro de um certo arcabouço normativo.

Tampouco se pode conceber a estipulação de um rol de atribuições à tal rede, dentre as quais as de mapear juízos criminais, consolidar protocolos sobre cautelares, sigilo de dados e cadeia de custódia de provas, e, pasme você, até de propor indicadores e painéis de monitoramento (art. 6). Em meio ao floreio de seus alegados bons propósitos, a portaria sugere uma nítida violação à autonomia de magistrados, expondo-os ao risco de mapeamentos apriorísticos e aleatórios. Também causa espécie que os dignitários de confiança do CNJ possam vir a rascunhar e a impor a juízes a adoção de protocolos sobre figuras jurídicas (como, por exemplo, as cautelares em matéria penal) contempladas em nosso ordenamento e cujo tratamento teria de seguir tão somente as estritas previsões legais, sem possibilidade de inovações por togados desprovidos de voto popular.

Contudo, a magistratura nacional silencia diante desse novo despropósito do CNJ e tolera a possibilidade de transformação de boa parte de seus quadros em simples carimbadores de determinações de cúpula. Pela vontade de alguns, profissionais que deveriam honrar as responsabilidades inerentes à toga aceitam ser convertidos em “massa” ou, na clássica definição de Ortega y Gasset, “(n)aquele que não se dá valor – bom ou mau – por motivos especiais, que se sente “como todo mundo” e, no entanto, não se angustia, e gosta de se sentir idêntico aos demais[1]. Note, caro leitor, que o sentir-se “como todo mundo” não reside, aqui, na consciência da igualdade formal entre todos nós, brasileiros, mas na perda da percepção de ser um indivíduo. E, em regimes de exceção como o nosso, qualquer magistrado que ousar questionar as determinações do conselho e retomar assim a individualidade perdida, poderá ser banido do próprio estamento sob as alegações mais estapafúrdias. Afinal, “quem não for como todo o mundo, quem não pensar como todo o mundo, corre o risco de ser eliminado[2].

A atuação medíocre e irracional de juízes-massa tem sido fator determinante na asfixia da tentativa de implantação de uma democracia liberal, por nós ensaiada aos trancos e barrancos desde o final da ditadura militar. Os caprichos da massa de toga em ascensão – ou seria em rebelião? – são incompatíveis com os pilares da civilização e do liberalismo, pois, como acentuado por Gasset, o homem-massa repudia a generosidade liberal de admitir “deixar espaço no Estado em que impera para que possam viver os que não pensam nem sentem como ele.[3]” A exemplo do tipo descrito pelo pensador espanhol, togados-massa não vislumbram a possibilidade de convívio com indivíduos por eles tidos como inimigos, muito menos à luz de parâmetros de legalidade, justiça ou razoabilidade. Ora, “conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Já não começa a ser incompreensível semelhante ternura?[4] são exclamações que bem se ajustariam aos lábios cerrados de figuras midiáticas da massa de toga.

Em meio ao vácuo de normas às quais recorrer com alguma perspectiva de êxito e de princípios de legalidade aos quais apelar, não sobra cultura ou civilização, mas tão somente barbárie. E, por óbvio, a egolatria destrutiva de juízes-massa sem qualquer freio institucional.

[1]A Rebelião das Massas”, Vide Editorial, 2016, pg. 81

[2] Idem, pg. 85

[3] Idem, pg. 149

[4] Idem, pg. 149







publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/justica/a-oficializacao-do-juiz-massa/

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