Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

sábado, 29 de agosto de 2026

O SOCIALISMO NÃO FRACASSOU

 Por Roberto Rachewsky


Existe uma frase repetida há décadas: “O socialismo fracassou. ”Eu discordo. Dizer que comunismo e fascismo são ideologias erradas ainda lhes concede uma inocência que não merecem. Elas não são simplesmente erradas. São desumanas, malévolas e irracionais.

 

Comunismo e fascismo são COLETIVISTAS e, nesse sentido fundamental, são MODELOS DE SOCIALISMO. Mudam os símbolos, os inimigos escolhidos e a abstração em nome da qual o indivíduo deve ser sacrificado. No comunismo, a classe. No fascismo, a nação e o Estado.

 

Karl Marx forneceu ao comunismo a racionalização intelectual da luta de classes. Giovanni Gentile, principal filósofo do fascismo italiano, forneceu ao fascismo a racionalização filosófica da absorção do indivíduo pelo Estado. Mas há um equívoco ainda mais profundo quando se diz que essas ideologias estão simplesmente “erradas”. Erradas em relação a quê? Se o critério for a liberdade individual, são monstruosas.Se o critério for a prosperidade de indivíduos livres, são destrutivas.

Se o critério for o respeito à propriedade, são incompatíveis com ele. Mas estamos partindo da premissa de que liberdade, prosperidade, propriedade e autonomia individual eram os objetivos desses sistemas. E é justamente essa premissa que precisa ser questionada. Porque aquilo que normalmente é apresentado como o fracasso dessas ideologias pode ser precisamente aquilo que permite que elas funcionem.

 

COMUNISMO E FASCISMO encontram combustível em algumas das manifestações mais destrutivas da psicologia humana: a inveja, o ressentimento e a impotência cognitiva. A inveja não deseja simplesmente possuir aquilo que o outro possui. Em sua forma mais destrutiva, deseja que o outro deixe de possuir. O ressentimento transforma a realização alheia em acusação. O sucesso do outro deixa de ser inspiração e passa a ser afronta. E a impotência cognitiva leva aquele que não consegue ou não quer compreender as causas da produção, da riqueza e do sucesso a substituí-las por uma explicação emocionalmente conveniente: se alguém possui mais, deve ter tirado de alguém. É nesse terreno que o coletivismo prospera. O produtor deixa de ser aquele que criou alguma coisa e passa a ser apresentado como alguém que deve explicações. O sucesso torna-se suspeito. A riqueza torna-se evidência de culpa. A desigualdade de resultados transforma-se em injustiça. A propriedade passa a ser tratada como concessão social. E aquele que nada criou recebe uma reivindicação moral sobre aquilo que foi criado pelos outros. A partir daí surge a figura indispensável a qualquer sistema parasitário: o intermediário político. Alguém precisa decidir quem tem demais. Alguém precisa decidir quem tem de menos. Alguém precisa determinar quanto será retirado de um e entregue a outro. Alguém precisa administrar a distribuição. Alguém precisa estabelecer prioridades. Alguém precisa decidir quem merece.

E, sobretudo, alguém precisa controlar tudo isso.

 

É nesse momento que a inveja e o ressentimento deixam de ser apenas sentimentos privados e se transformam em instrumentos políticos. O ressentido oferece legitimidade. O governante oferece coerção. Um fornece a justificativa moral. O outro fornece a força. E ambos precisam do produtor para financiar essa relação. Por isso é enganoso dizer que o socialismo fracassa quando destrói riqueza. A destruição da riqueza independente reduz a independência do indivíduo. É enganoso dizer que fracassa quando destrói a propriedade. Sem propriedade, o indivíduo se torna mais dependente daqueles que controlam os recursos. É enganoso dizer que fracassa quando destrói a autonomia. Sem autonomia, aumenta o poder de quem governa. É enganoso dizer que fracassa quando empobrece a sociedade. Uma população dependente é politicamente muito mais fácil de controlar do que uma população economicamente independente.

 

Portanto, aquilo que costuma ser apresentado como consequência indesejada pode funcionar como instrumento de preservação do próprio sistema. O objetivo não precisa aparecer escrito num manifesto. Nenhum parasita precisa declarar que pretende enfraquecer o hospedeiro. Basta observar a lógica da relação. Quanto menos o indivíduo consegue viver sem o Estado, maior é o poder daqueles que controlam o Estado. Quanto menos propriedade possui, mais precisa pedir. Quanto menos pode produzir livremente, mais precisa de autorização. Quanto menos pode escolher, mais precisa obedecer.

 

 Quanto mais depende de benefícios, subsídios, licenças, reservas de mercado, privilégios, empregos públicos ou favores políticos, maior é o preço de desafiar aqueles que controlam sua sobrevivência. A dependência deixa então de ser uma deficiência do sistema. Ela é o sistema. E existe uma razão ainda mais profunda para isso. O indivíduo independente representa uma ameaça permanente a qualquer estrutura parasitária.

O indivíduo independente não precisa do planejador. O indivíduo proprietário não precisa do distribuidor. O indivíduo produtivo não precisa daquele que promete distribuir a produção alheia. O indivíduo que pensa por conta própria não precisa do ideólogo. O indivíduo que produz e troca voluntariamente não precisa de um burocrata decidindo com quem pode negociar, quanto pode cobrar, quanto pode ganhar ou quanto deve entregar. E o indivíduo que não precisa deles é precisamente aquilo que uma estrutura parasitária de poder não tem interesse em multiplicar.

 

Por isso, quando essas ideologias confiscam propriedade, sufocam a iniciativa privada, destroem poupança, controlam preços, criam dependências, censuram dissidentes e concentram poder, não estamos necessariamente diante de acidentes inexplicáveis ocorridos durante uma tentativa frustrada de construir uma sociedade livre e próspera. Uma sociedade de indivíduos livres e independentes seria a negação do próprio sistema. Seria seu verdadeiro fracasso.

 

 

Imagine um regime coletivista que produzisse indivíduos cada vez mais ricos, independentes, proprietários, autônomos e capazes de viver sem pedir autorização ou recursos ao governo. Para que precisariam dos planejadores? Para que precisariam dos distribuidores? Para que precisariam dos salvadores? Para que precisariam daqueles que reivindicam o direito de organizar suas vidas? O sucesso do indivíduo independente destruiria a justificativa moral e prática da elite que vive de administrá-lo. É por isso que a escassez possui uma utilidade política extraordinária. Onde existe abundância produzida livremente, o poder político perde importância. Onde existe escassez administrada, aquele que controla a distribuição se torna poderoso. Quem controla a comida numa sociedade faminta controla pessoas. Quem controla empregos numa sociedade sem iniciativa privada controla pessoas. Quem controla crédito controla pessoas. Quem controla moradia controla pessoas. Quem controla saúde controla pessoas. Quem controla educação controla pessoas. Quem controla aquilo de que os indivíduos foram impedidos de prover por conta própria controla suas vidas. O sistema cria a dependência e depois apresenta aquele que administra a dependência como benfeitor. Primeiro reduz a autonomia. Depois oferece assistência.

Primeiro restringe. Depois concede. Primeiro retira. Depois distribui. E aquilo que anteriormente era propriedade passa a ser chamado de benefício quando uma pequena parcela retorna às mãos de quem depende do sistema. O parasitismo ganha então sua inversão moral completa. Quem produz passa a dever. Quem toma passa a conceder. Quem depende passa a reivindicar direitos sobre quem produz. E quem administra aquilo que foi retirado dos outros aparece como agente da solidariedade.

É uma extraordinária operação de inversão moral. E existe uma imagem que revela essa inversão com uma clareza extraordinária. Quando defensores do comunismo ou do fascismo chegam ao poder e passam a usufruir da riqueza que amealharam por meio do parasitismo, costuma-se acusá-los de hipocrisia. Eles se hospedam em hotéis de luxo. Usam relógios caríssimos. Circulam em automóveis inacessíveis à população. Vestem roupas que seus súditos jamais poderiam comprar.Usam os melhores aparelhos eletrônicos. Comem nos melhores restaurantes. Viajam com conforto. Desfrutam de uma abundância que o próprio sistema tornou impossível para milhões de pessoas. E então alguém diz: “Vejam a hipocrisia. Pregam igualdade e vivem como milionários.” Mas talvez não haja hipocrisia alguma. Talvez estejamos novamente acreditando no discurso e ignorando a natureza do sistema. Essas pessoas nunca precisaram desprezar a riqueza. Precisavam desprezar o princípio segundo o qual a riqueza deve ser produzida por quem deseja possuí-la. Podem desejar intensamente conforto, luxo, poder, prestígio e abundância. O que rejeitam é a exigência moral de criá-los, produzi-los ou obtê-los oferecendo valores em troca. Essa é a ganância verdadeiramente imoral. Ganância não é querer possuir muito. Querer prosperar não é imoral. Querer uma casa melhor, um automóvel melhor, viajar, desfrutar de conforto ou acumular patrimônio não constitui parasitismo. Se alguém produz valores e os troca voluntariamente pelos valores produzidos pelos outros, ninguém foi sacrificado. O empresário que cria um produto. O profissional que oferece seu trabalho. O inventor que desenvolve uma tecnologia. O comerciante que aproxima comprador e vendedor. O trabalhador que oferece sua capacidade produtiva. Todos oferecem alguma coisa para receber alguma coisa. Produzem para consumir. O parasita quer romper essa relação. Quer receber sem oferecer. Quer consumir sem produzir. Quer distribuir sem criar. Quer comandar sem construir. Quer desfrutar da riqueza sem reconhecer o direito daqueles que a produziram. E quando conquista o poder político encontra finalmente o instrumento capaz de transformar esse desejo em sistema: a coerção.

 

Por isso, o luxo da elite coletivista não precisa ser interpretado como uma traição ao sistema. Pode ser sua expressão mais reveladora. O discurso fala em igualdade.

A estrutura produz uma hierarquia brutal entre aqueles que obedecem e aqueles que controlam. O discurso condena privilégios. O sistema entrega o maior de todos os privilégios: viver daquilo que os outros são obrigados a produzir. O discurso condena a ganância, mas instala no poder uma forma muito mais perversa de ganância:

a ambição de possuir sem produzir, consumir sem trocar e prosperar pela coerção exercida sobre alguém. Não é apenas hipocrisia. É parasitismo convertido em filosofia política. É a inveja transformada em virtude. É o ressentimento transformado em justiça. É a impotência cognitiva transformada em doutrina. É a coerção transformada em método. E é a apropriação da riqueza alheia transformada em sistema de governo. Por isso, quando vemos os dirigentes desses regimes cercados pela riqueza que negaram aos demais, talvez a pergunta não deva ser: "Como podem ser tão hipócritas?” A pergunta mais reveladora é: “E se foi exatamente para chegar ali que construíram tudo isso?” Nesse caso, o luxo do governante diante da pobreza dos governados não seria uma aberração acidental do sistema. Seria sua fotografia mais perfeita. E isso nos leva de volta à frase inicial:“ O socialismo fracassou.” Fracassou segundo qual padrão? Se esperávamos que produzisse uma sociedade de indivíduos livres, proprietários, autônomos e prósperos, certamente não produz isso. Mas por que deveríamos imaginar que um sistema fundamentado na subordinação do indivíduo ao coletivo teria como finalidade produzir indivíduos independentes do coletivo? É uma contradição. A pergunta correta é outra: o sistema produziu submissão? Criou dependência? Concentrou poder? Destruiu centros independentes de riqueza? Transformou cidadãos em dependentes econômicos? Concedeu a uma elite política, burocrática e ideológica o poder de decidir sobre aquilo que os outros produziram? Permitiu que essa elite prosperasse materialmente, politicamente e socialmente administrando recursos que ela própria não criou? Se produziu tudo isso, talvez estejamos chamando de fracasso aquilo que, para aqueles que vivem do sistema, é sucesso. E aqui está o ponto essencial: o sofrimento do hospedeiro não demonstra o fracasso do parasita. Pode demonstrar exatamente o contrário. Um parasita não existe para tornar seu hospedeiro mais forte, mais livre ou mais independente. Ele precisa apenas preservar o hospedeiro o suficiente para continuar extraindo dele aquilo de que necessita. Essa é a lógica de todo sistema parasitário. Ele não pode eliminar completamente quem produz, porque morreria junto, mas também não deseja que o produtor seja plenamente independente, porque perderia o controle sobre ele. Precisa mantê-lo produzindo. E precisa manter o poder de tomar parte daquilo que ele produz. Por isso o socialismo não precisa abolir completamente a propriedade privada para manifestar sua lógica. Não precisa estatizar todas as empresas. Não precisa colocar todos os indivíduos numa repartição pública. Basta estabelecer o princípio de que aquilo que alguém produz não pertence integralmente a quem produziu.

Basta aceitar que o Estado tenha precedência sobre a propriedade. Basta estabelecer que necessidades alheias constituem reivindicações sobre a produção de terceiros.

 A partir desse princípio, resta apenas discutir percentuais. Quanto o produtor poderá conservar? Quanto deverá entregar? Quem receberá? Quem decidirá? E quem administrará? A resposta para a última pergunta é sempre a mais importante. Porque entre aquele que produz e aquele que reivindica aquilo que foi produzido surge uma classe cuja existência depende da permanência dessa relação: a classe daqueles que administram a coerção. Políticos. Burocratas. Ideólogos. Corporativistas. Grupos de interesse. Beneficiários organizados. Todos disputando posições diferentes dentro da mesma estrutura de transferência compulsória.

 

Por isso essas ideologias não estão simplesmente “erradas” para aqueles que desejam prosperar liderando sistemas parasitários. Podem ser extraordinariamente eficientes. Oferecem poder. Oferecem recursos. Oferecem prestígio. Oferecem riqueza. E, mais importante, oferecem uma justificativa moral para tudo isso.

O governante já não toma. Ele “redistribui”. Não controla. Ele “protege”. Não cria dependentes. Ele “garante direitos”. Não vive da produção alheia. Ele “serve à sociedade”. E assim a coerção deixa de parecer coerção. Transforma-se em virtude. É por isso que comunismo e fascismo não devem ser condenados simplesmente porque são economicamente equivocados. Isso é pouco. São desumanos porque subordinam seres humanos concretos a abstrações coletivas. São malévolos porque transformam o sacrifício de alguns em virtude moral. São irracionais porque negam a realidade de que riqueza precisa ser produzida antes que possa ser distribuída e de que é a mente individual que pensa, cria, inventa e produz. E são politicamente sedutores porque oferecem àqueles que desejam comandar os demais uma das mais poderosas ferramentas já concebidas: uma justificativa moral para exercer poder sobre a vida e a propriedade dos outros. O socialismo não é perverso porque tentou libertar o indivíduo e fracassou. Não é perverso porque tentou produzir prosperidade e errou a receita. Não é perverso porque boas intenções produziram consequências inesperadas. Essa interpretação é generosa demais. O problema está na própria premissa. O coletivismo exige que o indivíduo deixe de ser um fim em si mesmo. Exige que sua vida possa ser subordinada. Que sua propriedade possa ser reivindicada. Que sua liberdade possa ser limitada. Que sua produção possa ser apropriada. Tudo em nome de uma abstração representada, inevitavelmente, por homens concretos que exercem o poder.

 

Por isso, talvez a frase mais equivocada de todas seja: “O socialismo fracassou.” Não. Para o parasita que prospera controlando o hospedeiro, o empobrecimento, a dependência e a submissão do hospedeiro não são sinais de fracasso.

São as condições de sua existência. O verdadeiro fracasso de um sistema parasitário seria produzir exatamente aquilo que ele não pode controlar: indivíduos livres, proprietários, produtivos, racionalmente independentes e conscientes de que suas vidas pertencem a eles mesmos.
































publicadaemhttps://www.pontocritico.com/espaco-pensar-artigo/o-socialismo-nao-fracassou-240826

A armadura que nos falta

  Dartagnan da Silva Zanela


   Quando alguém, numa roda de conversa, resolve falar da importância da leitura, todos os presentes — e, talvez, até mesmo os ausentes — concordam que ela é realmente um trem indispensável para o bom desenvolvimento de uma pessoa. Até mesmo aqueles que têm alergia à leitura fazem pose, cara de gente séria, e concordam com o babado, porque é muito chique dizer que com livros e bons leitores se constrói uma grande nação.

Sim, isso é chique e é a mais pura verdade, porque a leitura nos faz parar e nos convida a seguir num passo mais lento e, por isso, mais atento. E essa é a chave para a boa formação de um indivíduo, principalmente no mundo em que vivemos, onde somos praticamente o tempo todo instados a seguir o fluxo acelerado e sem fim de uma sociedade que tem o seu ritmo maquinal regido pelo pulso contínuo de vídeos desconexos e imagens fragmentadas.

A leitura de uma obra literária exige a nossa entrega; ela não abre mão da nossa atenção para nos guiar pelas páginas codificadas de um livro. Lendo, somos obrigados a nos concentrar para não perder o fio da meada, conectando o que está sendo lido na página atual com o que já havia sido lido nas páginas anteriores e, de forma imaginativa, desenhando possíveis cenários que possam se descortinar nas páginas que estão por vir. E isso, meu amigo, é muito phoda.

Mas não somos uma sociedade de leitores e, por isso, é salutar lembrarmos que podemos avaliar o estado em que se encontra a consciência de uma sociedade pelo estado em que se encontra a linguagem utilizada pelos indivíduos, porque o estado da consciência humana reflete-se diretamente na linguagem por eles utilizada.

Ora, se voltarmos nossos olhos para o emaranhado de palavras que são utilizadas por nós em nosso dia a dia, constataremos que grande parte delas não passa de cacoetes mentais, jargões publicitários, trocadilhos oriundos de memes, termos vagos disseminados pela grande mídia, pelas redes sociais e demais traquitanas similares.

De mais a mais, uma sociedade que toma como referência apenas aquilo que as mídias apresentam é um mundo onde as pessoas se encontram presas em um círculo vicioso que, de tempos em tempos, se renova artificialmente, ao mesmo tempo que vai erodindo a nossa capacidade de discernir.

Um bom exemplo dessa erosão são as pessoas que, de um modo geral, dizem acreditar apenas na "ciência" e ponto final. Na real, essa gente acredita em qualquer bobagem que for apresentada pela televisão e confirmada pelo algoritmo de suas redes sociais — e nada mais.

Parece grosseria, mas não é. De um modo geral, todo aquele que diz que acredita apenas na "ciência" não tem uma ideia clara do que seja essa tal de ciência, do que é um objeto de estudo e do que são conceitos, definições, fenômenos e teorias; nunca teve contato com um estudo científico e, provavelmente, não tem o menor interesse em saber o que são procedimentos de pesquisa. Mesmo assim, afirma que crê nela, na ciência, porque essa palavra, em seu uso midiático — esvaziada do seu sentido original e convertida em um "lugar-comum" —, traz para ela uma ilusória e aconchegante sensação de segurança.

E o mesmo pode ser dito a respeito de inúmeros outros termos, como fascismo, comunismo, justiça social, iluminismo, libertário, liberdade, educação, família, amor, democracia — enfim, a lista é longa.

Todos esses termos — e muitos outros — encontram-se, no cenário atual, mutilados dos pés à cabeça. Por isso, te digo uma coisa: se não restaurarmos em nós a gravidade e o peso da linguagem, continuaremos presos neste "samsárico" círculo vicioso. E o caminho para isso — para defendermos a nossa alma do lixo midiático — é a grande literatura universal, pois, como bem nos lembra Saul Bellow, apenas ela pode nos libertar e nos proteger dos estereótipos. Ela não fala a linguagem de uma época ou de um grupo em particular; a grande literatura fala a linguagem da humanidade de todos os tempos para a humanidade de todas as épocas.

*            O autor, Dartagnan da  Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.











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BRASIL DO NINE TEM NOVOS RECORDES

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NOVO ESCÂNDALO: Lula nega conhecer Roberta Luchsinger, mas fotos mostram proximidade / GAZETA AGORA

  GAZETA AGORA


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Lula Xinga Amiga de Lulinha de Pilantra E a Deixa Furiosa

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AS RESPOSTAS (E AS MENTIRAS) DO LULA NA SABATINA DO JN

 luizernestolacombe


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Flávio Bolsonaro DESMONTA o Jornal Nacional ao vivo

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Apresentadores tendenciosos e...

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Faria Lima Abandona Lula e Embarca Com Flávio?!

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TRÊS TRILHÕES EM IMPOSTOS

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CONSESSIONÁRIA DE FARAÓ

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O RATO E O BOLSA FAMÍLIA

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O RATO E O BOLSA FAMÍLIA



LULA ABRE A BOCA DE NOVO E AJUDA FLÁVIO A DISPARAR: ESTÁ DANDO ADEUS - @Bruno_Musa

 @Bruno_Musa


LULA ABRE A BOCA DE NOVO E AJUDA FLÁVIO A DISPARAR: ESTÁ DANDO ADEUS -

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Estamos sustentando um Estado gigante… para colher miséria?

 Og Leme


Uma das mais preciosas lições da história nos ensina que a prosperidade dos povos depende sobretudo da existência de instituições capazes de tornar eficazes os direitos humanos e de criar uma atmosfera social de confiança recíproca entre as pessoas, de modo a minimizar a imprevisibilidade bem-sucedida; vale a palavra dada, o contrato livremente pactuado entre os agentes econômicos, e o sistema judiciário é eficaz.

Se contrastarmos a realidade brasileira com a ordem ideal descrita no parágrafo anterior, não escapamos da desoladora conclusão de que ainda estamos muito longe do nível de prosperidade e bem-estar que desejamos e de fato poderíamos conseguir. Continuamos atolados na “maldição” do país do futuro que tem tudo para dar certo, menos as instituições e o comportamento das pessoas…

A vocação para o mal é atributo humano e não há como eliminá-la; o que se pode fazer é diminuir o seu dano social potencial, limitando os poderes delegados às autoridades.

É lamentável, mas não se pode deixar de reconhecer que nosso país passa por grave crise de desorganização social, com a presença de todos as manifestações clássicas de patologia.

Razão para desespero? Não, razão para esperança. Esperança de que a continuação do agravamento da crise em que nos encontramos nos leve a repensar o papel do setor público e do processo político, e o consequente resgate das duas grandes instituições que vêm sendo degradadas no Brasil: o Estado de Direito e a Economia de Mercado.

É indispensável que nos lembremos sempre de que a vocação para o mal é atributo humano e não há como eliminá-la; o que se pode fazer é diminuir o seu dano social potencial, limitando os poderes delegados às autoridades que detêm os poderes coercitivos do Estado. O Estado mínimo minimiza a corrupção. E é o que se pode fazer, pois acabar com ela parece impossível.

*Artigo publicado originalmente com o título “Por que precisamos de um Estado mínimo?”.










publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/teoria-economica/estamos-sustentando-um-estado-gigante-para-colher-miseria/

O visitante impossível

    Francisco Carneiro Junior


A estranha Agenda Bilateral Brasil-Rússia

Um homem de setenta e cinco anos, a quem os Estados Unidos proíbem de pisar em seu território e a quem a União Europeia proíbe de pisar no seu, atravessou na terça-feira, 4 de agosto, os portões do Palácio do Planalto e apertou a mão do presidente da República. Não houve nota oficial. Não houve fotografia distribuída pelos canais do governo. Não houve, sequer, o gesto mínimo de fingir que aquilo era notícia. Coube à embaixada da Rússia em Brasília — e não ao Brasil — informar ao mundo que o encontro havia ocorrido. Um país que costuma anunciar reuniões de gabinete com antecedência de agenda decidiu, desta vez, que o silêncio era a melhor política.

O nome do visitante é Nikolai Patrushev. Dirigiu o FSB, herdeiro direto da KGB, entre 1999 e 2008. Hoje é assessor pessoal de Vladimir Putin e preside o Conselho Marítimo da Rússia, o que explica, ainda que não justifique, por que sua passagem pelo Brasil não se resumiu ao aperto de mão: houve agenda paralela no Ministério da Defesa, no Itamaraty, no comando da Marinha — onde se reuniu com o próprio comandante, o almirante Marcos Sampaio Olsson — e no Arsenal de Marinha do Rio, onde se discutiu, entre outros temas, o reator nuclear do submarino Álvaro Alberto e a construção de usinas nucleares de pequeno porte. No mesmo dia, o presidente Lula telefonou a Vladimir Putin. O Kremlin descreveu a conversa como positiva e citou, explicitamente, a intenção de intensificar a cooperação em ciência, tecnologia, energia e na área naval — e, segundo o Kremlin, é bom que se registre a fonte, porque o Planalto não desmentiu, a ligação partiu do lado brasileiro.

Convém não confundir discrição com neutralidade. Um governo que exige protocolo alheio com rigor de cerimonial britânico — que cobra aceite diplomático formal, que aguarda consultas, que se ofende com telefonemas fora de hora — tratou a chegada de um homem sancionado por meio mundo democrático como quem recebe um primo de segundo grau: sem alarde, sem registro, sem satisfação a ninguém. Há quem veja nisso apenas o pragmatismo de sempre. Há quem veja a mão de uma assessoria diplomática cada vez mais permeável às leituras de Pequim e Moscou. As duas hipóteses, goste-se ou não, cabem no mesmo fato: o Itamaraty não quis que este encontro existisse aos olhos do público brasileiro.

Para entender o tamanho do que se calou, é preciso recuar ao dia 9 de agosto de 1999. Naquela manhã, Boris Iéltsin nomeou primeiro-ministro um tenente-coronel da KGB que até então dirigia o FSB: Vladimir Putin. A cadeira que ficou vaga foi ocupada, no mesmo dia, por Nikolai Patrushev. Vinte e seis dias depois, prédios residenciais começaram a explodir de madrugada em Moscou e em outras duas cidades russas. Morreram perto de trezentas pessoas, a maioria dormindo.

Em Ryazan, no dia 22 de setembro daquele ano, um morador viu três pessoas descarregando sacos no porão do prédio onde vivia. Dentro, três sacos de sessenta quilos, um detonador e um temporizador marcado para as cinco e meia da manhã. O teste de campo deu positivo para hexogênio, o mesmo explosivo usado nos atentados anteriores. No dia seguinte, o ministro do Interior russo anunciou publicamente que um atentado havia sido evitado.

Vinte e quatro horas depois, o próprio chefe do FSB desmentiu o próprio ministro, ao vivo, na televisão nacional. Não foi uma explosão frustrada, disse Nikolai Patrushev à emissora NTV. Foi um exercício de treinamento de segurança. Os sacos continham apenas açúcar. A frase existe, está gravada, foi dita por quem depois se tornaria, primeiro, chefe máximo dos serviços secretos russos, e hoje, assessor de confiança de Putin — o mesmo homem que, vinte e sete anos depois, cruzaria sem escolta visível os corredores do Planalto.

Nenhum tribunal jamais julgou a acusação de que o próprio FSB, sob o comando de Patrushev, teria armado aqueles atentados para justificar a guerra que se seguiu na Chechênia e consolidar a ascensão de Putin ao poder. A Duma nunca abriu investigação. É acusação, e continua sendo apenas isso — mas é o tipo de acusação que se mede não pela sentença que nunca veio, e sim pelo destino de quem foi atrás dela.

O deputado que presidia a comissão de cidadãos criada para apurar o caso foi morto a tiros na porta de casa, em 2003. O advogado da comissão, um ex-oficial do próprio FSB, foi preso uma semana antes de uma audiência marcada e condenado por um tribunal fechado. E o livro que primeiro acusou o FSB por aqueles atentados era de Alexander Litvinenko — o mesmo que, em 1º de novembro de 2006, tomaria chá no bar de um hotel em Londres na companhia de dois compatriotas.

Havia polônio-210 no bule. Veneno radioativo sem cor, sem cheiro e sem gosto, que só se produz em reator nuclear. Litvinenko levou vinte e dois dias para morrer. O inquérito público britânico, conduzido pelo juiz Sir Robert Owen, concluiu em janeiro de 2016, no parágrafo 10.16 de seu relatório, que a operação do FSB para matar Litvinenko foi provavelmente aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo presidente Putin. Não é insinuação de jornal. É conclusão de tribunal britânico, escrita com a sobriedade fria de quem sabe o peso de cada palavra.

É por isso, e não por capricho burocrático, que Nikolai Patrushev consta da lista de Nacionais Especialmente Designados do Departamento do Tesouro americano, sob dois programas distintos, RUSSIA-EO14024 e UKRAINE-EO13661. É por isso que a União Europeia o sanciona desde 2014. O homem não pode entrar nos Estados Unidos. O homem não pode entrar na União Europeia. O homem entrou no Palácio do Planalto, apertou a mão do presidente da República e foi tratar, entre uma coisa e outra, de reator nuclear de submarino brasileiro.

O contraste não seria tão grave se fosse um deslize isolado. Não é. O Brasil assinou acordos nucleares com a estatal russa Rosatom em maio de 2025, quando Lula viajou a Moscou com a guerra da Ucrânia já em curso havia mais de três anos. Em maio de 2026, o chanceler Celso Amorim disse, de Moscou, que o Brasil não tem que tomar partido na Ucrânia — como se recusar-se a nomear o agressor fosse, em si, um ato de sabedoria diplomática, e não uma escolha com endereço certo. A Rússia é hoje a principal fornecedora do diesel que o Brasil importa. Neutralidade que se sustenta em cima de contrato de energia não é neutralidade: é dependência com sotaque de princípio.

E a aproximação não se limita ao gesto simbólico. Chegue-se ao osso do assunto: poucos dias antes da visita de Patrushev, em reunião ministerial dos BRICS na Índia — país que preside o bloco neste ciclo e sediará a cúpula de líderes em Nova Délhi em setembro —, a delegação russa apresentou aos parceiros, o Brasil entre eles, uma proposta formal de cooperação em drones civis. Falou pela Rússia o vice-ministro da Indústria e Comércio, Alexei Gruzdev: cooperação tecnológica, desenvolvimento conjunto, compartilhamento da experiência russa no uso de veículos aéreos não tripulados em agricultura, monitoramento de dutos, logística. No papel, tudo soa inofensivo. O problema é o que existe debaixo do papel.

A indústria russa de drones virou prioridade de Estado depois de 2021, e em janeiro de 2025 um grande evento setorial fixou a meta oficial: transformar a Rússia numa das lideranças mundiais em sistemas não tripulados até 2030, com dezenas de centros de pesquisa e produção espalhados pelo território. O programa nasceu, na prática, colado ao esforço de guerra — mesmos centros, mesmas linhas de montagem, mesmos engenheiros, e sobretudo as mesmas peças. Num drone pequeno ou médio não existe, fisicamente, diferença alguma entre o componente civil e o componente militar. O motor que gira a hélice de um drone agrícola é o mesmo que gira a hélice de um drone de ataque direto. O controlador eletrônico de velocidade é o mesmo. A unidade de medição inercial, que dá estabilidade de voo à aeronave, é a mesma. O receptor de navegação por satélite, o transmissor de vídeo, a bateria de lítio, a estrutura em fibra de carbono, a câmera de primeira pessoa: tudo é idêntico entre o drone que pulveriza uma lavoura e o drone que mergulha contra um alvo. O que transforma um drone civil em arma não é a engenharia. É a carga que se coloca dentro dele e a intenção de quem o lança — coisa que Rússia e Ucrânia já demonstraram à exaustão, usando drones comerciais comprados de prateleira como plataforma de ataque. Nos sistemas maiores a lógica se repete: os drones de desenho iraniano que a Rússia produz em massa sob nome próprio voam com motores derivados de projetos de aeromodelismo, com microeletrônica comercial e com antenas de navegação montadas a partir de peças de mercado.

Foi por isso que Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Japão deixaram de perseguir apenas o drone pronto e passaram a perseguir o componente, fornecedor por fornecedor, país por país. E foi por isso que Moscou precisou construir uma rede de intermediários em terceiros países para continuar comprando o que não pode mais importar direto. É nesse ponto exato que a proposta apresentada na Índia precisa ser lida. A Rússia não está oferecendo tecnologia ao Brasil. Está caçando capacidade industrial em país que ainda não esteja sob controle de exportação ocidental. Um parceiro que monte placas, produza motores, fabrique estruturas em compósito ou apenas revenda componentes eletrônicos sob o rótulo de cooperação civil resolveria, de uma só vez, o gargalo industrial e o gargalo jurídico russos — como já ocorreu, e já custou sanção, a empresas chinesas, turcas e de outros países que serviram ao mesmo papel antes. O Brasil tem indústria de drones de uso agrícola concentrada no centro-oeste. É exatamente esse tipo de empresa que se tornaria alvo natural de uma parceria com a Rússia — e é exatamente esse tipo de empresa que mais sofreria se a coisa desandasse.

O Brasil é membro do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis desde 1995. Uma empresa brasileira flagrada numa cadeia de fornecimento militar russa não seria apenas multada: viraria candidata a sanção secundária do Tesouro americano, o tipo de sanção que arrasta bancos, seguradoras e fornecedores junto. E como a indústria aeroespacial nacional — com a Embraer à frente, e o programa do KC-390 desenvolvido em parceria com países da OTAN — depende quase inteiramente de componentes e certificações americanas, um único episódio malconduzido nessa fronteira poderia custar mais do que qualquer contrato russo jamais pagaria.

Existe, além do prejuízo material, um custo político — e talvez seja o maior de todos. O Brasil construiu sua posição sobre a guerra da Ucrânia em cima da ideia de neutralidade ativa e mediação, a fórmula que o governo prefere chamar de resolver na mesa de negociação. Aceitar montar peças de drone para o país que invade o território ucraniano derrubaria essa narrativa por inteiro: o Brasil deixaria de ser lido como mediador e passaria a ser lido como fornecedor ativo de componentes para quem ataca. A guerra deixou de ser apenas disputa de exércitos; tornou-se disputa de cadeias produtivas, e quem fabrica mais rápido, mais barato e em maior escala garante o abastecimento de quem está na linha de frente. A Rússia entendeu isso, e faz o que qualquer país em guerra prolongada faz: transforma parceria econômica em infraestrutura militar, sempre com verniz civil por cima, para driblar as próprias sanções.

Nem é preciso especular sobre infraestrutura futura de espionagem: ela já existe em solo brasileiro, e mora sob nome falso — e nome falso, aqui, é só outra forma do mesmo rótulo civil que hoje veste de cooperação agrícola uma proposta de drones. O russo Sergey Cherkasov está preso em Brasília desde 2022, sob acusação de espionagem, aguardando possível extradição — mas viveu no país sob a identidade fabricada de Victor Muller Ferreira, um suposto brasileiro nascido em Niterói. Serviços de inteligência do Brasil, da Holanda e dos Estados Unidos o apontam como agente militar russo treinado, e foi sob essa máscara que ele circulou pelo exterior e quase conseguiu um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia: o objetivo, segundo as investigações, era acessar informações sensíveis sobre crimes de guerra. Relatou assédio de integrantes do PCC depois que sua identidade real veio a público — um tumulto no pátio do presídio o levou a pedir isolamento, alegando temer pela própria vida —, chegou a fazer greve de fome para recuperar palavras cruzadas e cartas em russo, e reclamou da pouca luz solar na cela. O Ministério da Justiça já determinou sua expulsão do país, com veto de trinta anos para o retorno; a medida, porém, só se cumpre depois de encerrada a pena atual ou mediante autorização judicial. A cena tem algo de didático: o aparelho de inteligência russo tentando driblar até o tribunal que julga crimes de guerra, e cruzando caminho, dentro de um presídio federal brasileiro, com a facção criminosa mais poderosa do país — enquanto o Estado discute, lá fora, se concede ou não o aceite diplomático ao embaixador indicado por Washington. Não é acaso de enredo, é doutrina: o rótulo civil, para o aparelho de inteligência russo, nunca foi fim — foi sempre disfarce, seja num currículo falso, seja numa proposta de drone agrícola.

E foi justamente nesta semana — não em outra, nesta — que o Brasil bateu de frente, ao mesmo tempo, com seus dois maiores parceiros ocidentais. Javier Milei subiu num palanque em São Paulo e chamou Lula de presidiário. O Itamaraty chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, deixando a embaixada argentina sem representação — a pior crise entre os dois países desde a redemocratização. Do outro lado, Washington taxou quase um quinto de tudo o que o Brasil vende aos americanos; o Brasil respondeu negando visto a dois funcionários do Departamento de Estado que vinham tratar do sistema eleitoral brasileiro; na mesma terça-feira, os Estados Unidos cancelaram o visto da embaixadora brasileira, Maria Luíza Viotti. Some-se a isso os quase setenta dias de espera do Itamaraty para conceder o aceite diplomático a Daniel Perez, o indicado americano para embaixador no Brasil, nomeado em 1º de junho sem consulta prévia ao Itamaraty e ligado a Marco Rubio e à ala mais dura da política americana para a América Latina — atraso que Washington leu, com alguma razão, como hostilidade disfarçada de burocracia.

Nove dias antes da visita de Patrushev, em 26 de julho, Lula conversara mais de uma hora com Xi Jinping. Segundo o comunicado chinês, Xi afirmou que a China apoia o Brasil na defesa de sua soberania e se opõe à interferência externa — fórmula generosa o suficiente para significar qualquer coisa, e específica o bastante para significar apenas uma: ficou combinado acelerar a negociação entre o Mercosul e a China e ampliar parcerias em inteligência artificial, satélites e minerais críticos. Um país que se afasta de Washington e de Buenos Aires na mesma semana em que se aproxima de Pequim e recebe, sem alarde, um homem banido de meio Ocidente democrático não está exercendo soberania. Está trocando de eixo, e chamando a troca de equidistância.

O padrão importa mais que o episódio isolado: os instrumentos de poder russo raramente desaparecem com seus donos, e raramente aparecem fardados — o mesmo desenho que veste de agricultura um drone de ataque se repete, em outro continente, vestido de comércio. O Grupo Wagner foi criado para lutar nas guerras de Moscou, e seus combatentes já foram associados a bombardeios, torturas, execuções e decapitações na Ucrânia, na Síria, no Mali, na Líbia e na própria República Centro-Africana — país onde o fundador do grupo, Yevgeny Prigojin, chegou a posar de mãos dadas com o embaixador centro-africano em solo russo. Quando Prigojin morreu num acidente de avião em 2023, o Ministério da Defesa russo absorveu a maior parte das operações do grupo. Mas cerca de quinhentos combatentes permaneceram na República Centro-Africana, hoje sob o comando de Pavel, filho do fundador.

O negócio deles roda a tramadol, analgésico comum para dor articular que, em doses elevadas, vira estimulante barato conhecido na região como a cocaína dos pobres: mercenários o tomam antes do combate porque elimina o medo e alimenta a agressão. As estruturas que sucederam a Wagner também administram extração de ouro de sangue na República Centro-Africana, no Mali e no Sudão, onde crianças cavam em minas sob controle do grupo e tomam a mesma droga para suportar o calor por horas a fio. Desde 2022, o Kremlin já extraiu ao menos dois bilhões e meio de dólares em ouro africano, usados para ajudar a financiar a guerra contra a Ucrânia. Só com o ouro ilícito, a Wagner fatura cerca de cento e oitenta milhões de dólares por ano; o tramadol soma outra fonte de renda — um carregamento que vale sete mil dólares na República Centro-Africana chega a valer vinte e um mil no Camarões vizinho.

Esse dinheiro compra armas, e as armas matam gente inocente em outros países. Em fevereiro de 2025, uma milícia ligada à Wagner matou cerca de cento e trinta pastores perto da fronteira com o Camarões, uma das piores atrocidades já registradas na região; as mortes ligadas a disputas por áreas de mineração cresceram quase vinte por cento no último ano, para cerca de quinhentas. A República Centro-Africana é o país onde a Wagner foi mais poderosa, resume Charles Bouëssel, analista sênior para a África Central de um centro internacional de estudos sobre crises; os ativos econômicos do grupo, incluindo os interesses em mineração de ouro, permanecem intactos, e a Rússia administra a situação evitando confronto aberto. Pesquisadores de uma iniciativa internacional dedicada ao crime organizado transnacional já classificam a República Centro-Africana como o principal reduto africano do grupo, hoje capaz de controlar território, coordenar outras milícias e ampliar influência onde quer que se instale. O ouro sai da mina como comércio, não como munição — mas financia munição do mesmo jeito que uma peça de drone agrícola financiaria, se fosse preciso, um rotor de ataque. É a mesma arquitetura da proposta apresentada na Índia: vestir de comércio, de agricultura, de cooperação civil, o que na ponta sustenta e mata em nome da guerra.

O aparelho sobrevive ao chefe; muda de nome, muda de produto, muda de continente, mantém a lógica. É a mesma lógica, em escala diplomática, que levou um homem formado nos porões do FSB a se tornar, décadas depois, negociador de reator nuclear e de cooperação tecnológica em nome de um país que se apresenta como potência emergente e pacífica.

Não se trata de demonizar toda relação com Moscou, nem de fingir que o mundo se divide, com nitidez de manual escolar, entre vilões e mocinhos. Trata-se de outra coisa, mais modesta e mais grave: soberania não é apenas o direito de escolher os próprios convidados. É a disciplina de saber, e de deixar que a nação saiba, o que se arrisca cada vez que a porta se abre sem cerimônia para quem o resto do mundo democrático trancou por decreto. O Brasil escolheu não saber, ou escolheu não contar. As duas opções, no fim, dão no mesmo lugar.

Ficou célebre a frase de Patrushev sobre os sacos de Ryazan: não havia explosão frustrada, havia apenas açúcar. Vinte e sete anos depois, o mesmo homem tomou chá de cortesia num país que jura neutralidade. Da próxima vez que alguém garantir, em Brasília, que não há nada a temer no que se serve à mesa, valeria perguntar, com a ironia que a história já pagou caro para ensinar: açúcar, ou alguma outra coisa sem cor, sem cheiro, sem gosto?

 







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