Yuri Vianna
O governo Lula construiu sua identidade política em torno da defesa dos pobres, sendo conhecido como o “presidente que se preocupa com o social”. Devido à sua origem humilde, vindo de uma região com baixos indicadores socioeconômicos, construiu sua carreira política marcada pela atenção aos pobres, como aquele governo que se preocupa com o “andar de baixo” da população.
Um dos maiores exemplos dessa política são os programas sociais voltados à distribuição de renda, tendo como principal exemplo o Bolsa Família.
O programa, criado no início dos anos 2000, começou com um orçamento relativamente pequeno. Em 2006, por exemplo, o orçamento do Bolsa Família era de aproximadamente R$ 14,6 bilhões.
Hoje, o programa possui uma dimensão completamente diferente: a Lei Orçamentária de 2026 previa cerca de R$ 159,5 bilhões para o Bolsa Família. É importante fazer justiça e reconhecer que, ao longo dos anos, outros presidentes também ampliaram o valor e o alcance do programa.
E, para além do Bolsa Família, há outros programas relevantes criados nos governos de Lula: Luz para Todos (2003), ProUni (2004), Minha Casa, Minha Vida (2009), a política de valorização do salário mínimo (reajuste acima da inflação), Farmácia Popular (2004) e, mais recentemente, o Pé-de-Meia (2024).
O que se vê e o que não se vê
Mas, como diz o economista Frédéric Bastiat, a economia é feita daquilo “que se vê e do que não se vê”. Ou seja, nenhum desses programas é um benefício sem custo. Todos possuem um efeito colateral que é menos perceptível a olho nu, sobretudo para quem é leigo em economia. Poderíamos discutir esses efeitos em detalhes — o que renderia assunto suficiente para um artigo inteiro. Porém, o que quero abordar neste texto é o ponto em que o governo, com sua política econômica, acaba atuando em favor do “andar de cima”, favorecendo uma concentração de patrimônio por mecanismos que poucos conseguem perceber.
O governo que favorece o “andar de cima”
Um dos problemas mais graves da atual política econômica do governo Lula é o desequilíbrio das contas públicas. E aqui não estamos falando apenas de uma discussão abstrata entre economistas, mas de um quadro real. A arrecadação de tributos não foi suficiente para cobrir os gastos do governo federal em nenhum dos anos desse mandato. Em 2025, por exemplo, o setor público consolidado terminou o ano com déficit primário de R$ 61 bilhões.
E, evidentemente, um rombo dessa magnitude acaba gerando um gigantesco aumento de dívida, de maneira que Lula será marcado como o presidente com maior crescimento de dívida pública dentro de um mandato. Uma “proeza” ainda mais impressionante quando consideramos que isso ocorre em um cenário de arrecadação tributária recorde. O governo arrecada cada vez mais e, ainda assim, não consegue controlar o crescimento da dívida pública.
Ao praticar uma política fiscal irresponsável, o governo que se apresenta como defensor do “andar de baixo” pressiona o endividamento público e aumenta a percepção de risco fiscal. Isto é, o Brasil passa a ser percebido como um país com as contas públicas desorganizadas — e países desorganizados inevitavelmente pagam juros mais altos para financiar sua dívida.
O interessante é que, no início do mandato, Lula responsabilizava o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto (indicado pelo governo anterior), pelos juros elevados. Porém, desde janeiro de 2025, quando Gabriel Galípolo assumiu a presidência do Banco Central, indicado por Lula, o presidente deixou de ter a justificativa de que os juros elevados eram de responsabilidade de Roberto Campos Neto. Mais do que isso: atualmente, os oito diretores que compõem a Diretoria Colegiada (responsável por definir a taxa de juros), além do próprio presidente do banco, foram indicados durante o governo Lula.
Ainda assim, com essa diretoria toda indicada pelo governo atual, em junho de 2025 a taxa Selic chegou a 15% ao ano, o maior nível desde 2006.
Portanto, fica cada vez mais difícil para o governo atribuir exclusivamente a um Banco Central “vindo da oposição” a responsabilidade pelos juros elevados.
O paradoxo do governo
Juros elevados têm um enorme efeito sobre a distribuição de renda e, principalmente, sobre a distribuição de patrimônio.
Isso porque as pessoas que possuem grandes aplicações financeiras são beneficiadas pela elevada remuneração dos juros. Os pobres e a classe média baixa dificilmente terão grandes somas de dinheiro aplicadas no mercado financeiro a ponto de gerar uma renda significativa com esses juros.
Não estou dizendo que uma pessoa de baixa renda não possa ter uma aplicação financeira. É evidente que pode. O ponto é que o tamanho do patrimônio faz toda a diferença.
Quem possui R$ 5 mil aplicados a uma determinada taxa de juros recebe uma remuneração completamente diferente de quem possui R$ 5 milhões.
Portanto, em um ambiente de juros elevados, quem já possui patrimônio financeiro tem muito mais capacidade de transformar os juros em renda e aumentar ainda mais seu patrimônio.
É uma transferência que não aparece em nenhum programa social. A esquerda, que tanto critica os rentistas (pessoas que vivem de renda de investimentos), não entende que a política econômica do atual governo é que os favorece.
Mas esse não é o único problema.
Concentração empresarial
Outro ponto é que juros elevados dificultam a sobrevivência das empresas e dos negócios, principalmente das pequenas e médias empresas, que normalmente possuem mais dificuldade de acesso ao capital e ao crédito.
É justamente nesses momentos de juros altos que as grandes empresas, que possuem balanços mais fortes, maior geração de caixa e acesso a crédito mais barato, conseguem sobreviver com mais facilidade.
Enquanto isso, pequenas e médias empresas enfrentam um custo financeiro muito maior.
Uma grande empresa, por outro lado, pode ter caixa próprio, emitir títulos no mercado de capitais ou conseguir crédito em condições muito mais favoráveis.
Enquanto os pequenos empresários ficam pelo caminho, as grandes empresas conseguem sobreviver, ganhar participação de mercado e, em alguns casos, adquirir concorrentes menores que não conseguiram suportar o ambiente de juros elevados.
Juros altos não atingem todos da mesma maneira. Eles podem funcionar como uma espécie de peneira: os mais frágeis são eliminados, enquanto os mais capitalizados ganham capacidade de resistir e avançar. O resultado desses juros altos é um cenário que favorece uma maior concentração empresarial.

Micro e pequenas empresas: Representam 94% do total de CNPJs negativados (cerca de 8,7 milhões de pequenos negócios). Esse relatório do Serasa Experian mostra a gravidade da situação.
Mas ressalte-se: isso não significa que os juros altos não dificultam a vida das grandes empresas. Eles prejudicam a todos. Tanto que mesmo os grandes conglomerados estão passando por dificuldades para navegar nesse cenário. O noticiário econômico tem estado repleto de grandes empresas pedindo recuperação judicial.
Um breve parênteses: os 3 “golaços” do Governo Lula
Em minhas conversas diárias sobre finanças e economia, costumo dizer que o governo Lula já poderia pedir música no programa do Fantástico, pois marcou 3 “golaços” na economia (ironia, claro). Veja quais foram eles:
- Endividamento das famílias em nível recorde: pelo critério do Banco Central, o endividamento também atingiu 49,90% em fevereiro de 2026, superando o pico anterior da série histórica. Pelos dados da PEIC/CNC, o endividamento também bateu recorde histórico em 2026 — chegou a 82% das famílias com algum tipo de dívida em julho de 2026, marcando o sexto mês consecutivo de alta.
- Endividamento das empresas em nível recorde: a inadimplência das empresas brasileiras atingiu o recorde de 9,1 milhões de CNPJs negativados em junho de 2026, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas em atraso, conforme dados divulgados pela Serasa Experian. O número é 16,67% maior do que o registrado no mesmo mês de 2025 e recorde na série histórica iniciada em 2016. Recuperações judiciais em nível recorde: bateram recorde em 2025, com 977 processos registrados no ano, a maior marca em 10 anos, envolvendo 2.466 empresas — salto de 13%. É o maior número da série histórica iniciada em 2006.
- Endividamento do governo federal em nível recorde: dados divulgados em setembro de 2026 mostram que a Dívida Pública Federal totaliza R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026.
A inflação
Por fim, um último ponto extremamente deletério é que o desequilíbrio fiscal pode contribuir para a manutenção de uma inflação mais persistente.
E é justamente a população mais pobre que costuma ser mais castigada pela inflação. Isso acontece porque uma pessoa de alta renda normalmente possui maior sobra de caixa em seu orçamento e consegue direcionar parte de seu patrimônio para investimentos capazes de proteger ou até superar a inflação.
Ela pode possuir títulos indexados à inflação, imóveis e ações de empresas cujas receitas são corrigidas pela inflação.
Já uma pessoa de baixa renda muitas vezes utiliza praticamente toda a sua renda mensal para consumir bens e serviços essenciais. Quem possui patrimônio consegue utilizar o próprio patrimônio para se proteger da inflação. Quem não possui patrimônio precisa viver da renda do trabalho e sofre diretamente com o aumento do custo de vida. Ou seja, a inflação não atinge todas as pessoas da mesma maneira.
Ademais, o conhecido efeito Cantillon mostra que a inflação não é apenas uma questão de aumento generalizado dos preços, mas ela beneficia uns em detrimento de outros. Aqueles que estão mais perto da “impressora” são mais beneficiados. Quem recebe primeiro o dinheiro recém-emitido pode utilizá-lo antes que os preços aumentem, enquanto aqueles que recebem esse dinheiro mais tarde, como trabalhadores cujos salários demoram a ser reajustados, podem perder poder de compra. Isso nos mostra como a expansão monetária (emissão de moeda) se propaga pela economia de maneira desigual. Os pobres tendem a ser os últimos a ter acesso a esse novo dinheiro, recebendo-o no momento em que os preços já subiram, tendo assim menos poder de compra.
Conclusão
Portanto, boa parte da mecânica deletéria da política econômica do atual governo pode ser explicitada num breve resumo:
Um governo perdulário faz com que os gastos públicos não sejam cobertos por uma arrecadação de tributos em nível recorde e, quando não se consegue equilibrar adequadamente as contas públicas, contribui-se para termos juros elevados.
Juros elevados remuneram melhor aqueles que possuem grandes patrimônios financeiros, encarecem o crédito, dificultam a sobrevivência das empresas (sobretudo as pequenas e médias) e podem favorecer uma maior concentração empresarial.
Ao mesmo tempo, uma inflação persistente tende a castigar proporcionalmente mais aqueles que possuem menor capacidade de proteção patrimonial através de aplicações financeiras e demais ativos reais. O governo Lula construiu sua identidade política em torno da defesa dos pobres, mas sua política fiscal faz o contrário: ela produz efeitos econômicos que favorecem justamente aqueles que já possuem patrimônio.
publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/23380/o-paradoxo-do-atual-governo-a-politica-economica-que-pretende-distribuir-renda-mas-concentra-patrimonio/










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