Francisco Carneiro Júnior
Carta a um réu chamado Brasil
Não escrevo aqui mais um discurso... Há muitos por aí, com palavras inflamadas e promessas vazias. No próximo domingo, dia 4, o povo decidirá se ainda tem vergonha na cara. Todos vão encarar as filas de votação com a mesma verdade escancarada e silenciada no coração: esse Brasil não aguenta mais.
Um dia, um velho parlamentar ergueu um livro e disse ao país que ali estava a sua carta de alforria. Chamou-a de Constituição Cidadã. O texto prometia que a palavra seria livre, que ninguém seria julgado por tribunal de exceção, que o juiz natural seria sagrado, que a casa seria asilo inviolável, que o fruto do trabalho pertenceria a quem trabalha, que a segurança, a saúde e a educação seriam direito de todos e dever do Estado.
Trinta e oito anos depois, o brasileiro ainda não é livre.
Trinta e oito anos depois, o brasileiro ainda vive acorrentado a um Estado que arrecada um terço de tudo o que o país produz e devolve hospitais com corredores lotados e sem remédio, escolas que não ensinam e estradas que matam.
Trinta e oito anos depois, o brasileiro vive numa ilha de miséria cercada por um oceano de riqueza. Mora sobre o pré-sal e paga caro pela gasolina. Pisa na terra que alimenta o planeta e conta moedas para comprar comida. Bebe da maior reserva de água doce do mundo e quase metade do país ainda não tem esgoto na porta de casa.
Trinta e oito anos depois, o brasileiro é exilado dentro da própria pátria. Exilado da própria rua, que pertence ao criminoso da facção. Exilado da própria opinião, que pode custar uma conta bloqueada, uma rede silenciada, um processo. Exilado do próprio futuro.
Aquela Constituição foi uma nota promissória assinada pela República em nome de cada brasileiro. Pois bem: fomos ao caixa. E a República nos devolveu um cheque sem fundo, carimbado com a frase: "fundos insuficientes". Vamos às urnas agora cobrar uma dívida. Vamos sacar. E o vencimento é 4 de outubro.
De um lado, a promessa de que o trabalho seria protegido. Do outro, a realidade de um país onde empreender virou ato de resistência e produzir virou infração. O pequeno comerciante enfrenta um cipoal de dezenas de tributos, milhares de normas e uma burocracia que o trata como suspeito antes de tratá-lo como cidadão. A dívida pública caminha para 80% do PIB. Quando o governo quis aumentar o IOF por decreto, o Congresso, eleito pelo povo, derrubou. E o Supremo ressuscitou a cobrança. O princípio mais antigo das democracias diz que não há tributo sem representação. No Brasil, passamos a ter tributo por liminar.
De um lado, a promessa de que o Estado ampararia os mais frágeis. Do outro, aposentados e pensionistas do INSS, homens e mulheres que já deram tudo o que tinham a este país, tendo o benefício sangrado mês após mês por descontos associativos que nunca autorizaram, num assalto bilionário feito com carimbo oficial. Um país que deixa roubar o remédio do avô no contracheque do avô não tem um problema de gestão. Tem um problema de caráter.
A Constituição prometeu segurança. O Brasil entregou territórios inteiros onde a lei não entra, onde facções decidem quem vive e quem morre, quem abre comércio e quem fecha, quem pode subir a ladeira e quem precisa pedir licença. O crime organizado brasileiro já não se contenta apenas com fuzil, granada e ponto 50. Veste terno, abre fintech, compra posto de combustível, lava dezenas de bilhões pelo sistema financeiro formal e contrata os melhores escritórios de advocacia do país. E, enquanto o crime se sofisticava, decisões judiciais passaram a restringir operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro. E, quando não há combate, o inimigo se fortalece.
A Constituição prometeu que não haveria juízo nem tribunal de exceção. Prometeu o juiz natural, o devido processo legal, a imunidade do parlamentar por suas opiniões, a livre manifestação do pensamento. E, em março de 2019, o país entregou um inquérito aberto de ofício pela própria Suprema Corte, com relator escolhido sem sorteio, para apurar ofensas contra a própria Suprema Corte. Uma instituição que é, ao mesmo tempo, vítima, investigadora, acusadora e juíza. Aquele inquérito, que deveria ter sido exceção, virou método. Sob a sua sombra, políticos são presos. Redes sociais são arrancadas do ar. Pessoas comuns são condenadas a catorze anos de prisão. Um ex-presidente da República recebeu vinte e sete anos e três meses de pena de uma turma de cinco ministros, e não do plenário. E foram as mesmas mãos que, em 2021, anularam as condenações de quem hoje governa (e quer se reeleger!), não por declará-lo inocente, mas por discutir o endereço da vara que o havia julgado. Isso não se chama democracia. Chama-se juristocracia. E a vergonha já atravessou fronteiras. Já é global.
Essa mesma Constituição falava em prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais. O Brasil entregou um governo que estendeu tapete vermelho a um ditador venezuelano e chamou de "narrativa" as denúncias contra um regime que expulsou quase oito milhões dos seus próprios cidadãos. Um governo que foi à Praça Vermelha aplaudir desfile militar enquanto a Ucrânia enterrava seus filhos. Um governo que reserva às democracias liberais a hostilidade que jamais ousa dirigir às ditaduras amigas. Isso não é diplomacia pragmática. É alinhamento com o fracasso.
Mas o socialismo nunca chegou a lugar algum anunciando correntes. Chegou sempre prometendo cuidado. Primeiro estende a mão, depois coloca a coleira e, por fim, batiza a coleira de direito social. A assistência que deveria ser ponte vira curral. O pobre que deveria ser libertado pelo emprego é mantido dependente pelo cadastro, porque um povo que depende não questiona, e um povo que não questiona vota por gratidão, nunca por convicção. Caracas não começou com fome. Começou com um líder carismático, um Judiciário domesticado, uma imprensa vendida e anestesiada e um povo que jurava que aquilo jamais aconteceria com ele.
Ouço daqui os conselheiros da prudência. Dizem que é preciso calma. Que a mudança vem devagar. Que é melhor esperar a próxima eleição, a próxima reforma, a próxima geração. Eu lhes respondo: este não é o momento de repousar na sombra fresca da acomodação, nem de engolir o calmante do gradualismo. Uma geração inteira já foi sacrificada no altar de Baal e Moloque. O tempo é agora. Agora é a hora de sair do pântano da impunidade para o chão firme da lei igual para todos. Agora é a hora de erguer esta nação da areia movediça do conformismo para a rocha da dignidade. Seria fatal fingir que este momento pode ser adiado. Este inverno de descontentamento do povo que trabalha não terminará enquanto não chegar uma primavera de liberdade e ordem. 2026 não é o fim de uma luta. É o começo de uma reconstrução. E quem imagina que o brasileiro, depois de tudo, vai voltar para casa resignado e deixar tudo como está terá um amargo despertar na noite da apuração.
Na luta para recuperar o que é nosso, não nos tornaremos aquilo que combatemos. Não mataremos a nossa sede de liberdade bebendo do copo do rancor. Quem denuncia o abuso não pode praticá-lo. Quem exige a lei não pode rasgá-la. A nossa força está no voto. Não está no grito. Está na perseverança. Conduziremos esta luta no mais alto nível de disciplina e decência, porque é exatamente isso que nos separa daqueles que nos querem calados. Cada vez que formos tentados a descer, subiremos: juntaremos a força do número à força da alma. E não trataremos como inimigos todos os que votaram no atual governo. Muitos deles acreditaram de boa-fé e hoje estão apertando o cinto, sentindo na pele a mesma asfixia que sentimos. O destino de vocês está amarrado ao nosso. A liberdade de vocês está costurada à nossa. Ninguém se liberta sozinho. Ou marchamos juntos, ou afundamos juntos.
E, enquanto marchamos, juramos não recuar. Há quem nos pergunte, com ironia, de cima dos seus gabinetes: "Afinal, o que vocês querem? Quando vão ficar satisfeitos?"
Não ficaremos satisfeitos enquanto um policial brasileiro for enterrado... e o assassino dele sair pela porta da frente numa audiência de custódia.
Não ficaremos satisfeitos enquanto uma mãe tiver de deitar os filhos no chão da sala quando começa o tiroteio, e o chefe da facção dormir tranquilo com a certeza de que o processo vai prescrever. Não ficaremos satisfeitos enquanto um brasileiro precisar pensar duas vezes antes de escrever o que pensa, com medo de que um despacho apague sua voz, seu perfil e sua conta bancária.
Não ficaremos satisfeitos enquanto o aposentado for roubado pelo próprio Estado e o trabalhador pagar mais imposto do que recebe em serviço.
Não ficaremos satisfeitos enquanto o jovem acreditar que a única saída do Brasil é o aeroporto.
Não, não estamos satisfeitos, e não ficaremos satisfeitos até que a justiça corra neste país como o São Francisco em tempo de cheia, e a honestidade desça pelas serras como as águas do Iguaçu.
Sei que muitos de vocês carregam cicatrizes. Alguns perderam o emprego, o contrato, o espaço, só por terem dito em voz alta aquilo que milhões pensam. Alguns enterraram um filho morto na violência cotidiana. Alguns fecharam a loja que o pai abriu e o avô sustentou. Vocês são os veteranos de uma guerra que ninguém declarou, mas que todos sentem. Não desistam. Votem sabendo que isto pode mudar e vai mudar. Não se deixem cair no poço do desalento.
Porque o maior crime cometido contra o Brasil nas últimas décadas não foi um desvio, não foi uma propina, não foi um contrato superfaturado. Foi a normalização da decadência. Fomos treinados, pouco a pouco, a achar o absurdo natural. Aprendemos a rir da corrupção porque perdemos a esperança de puni-la. Aprendemos a sobreviver em vez de exigir grandeza. Aprendemos a chamar mediocridade de pragmatismo e cinismo de esperteza. O brasileiro se acostumou ao escândalo como o afogado se acostuma à água: parando de respirar. E um povo que já não se escandaliza começa a morrer por dentro, ainda que continue pagando boleto, batendo ponto e torcendo no domingo.
O 4 de outubro não será uma eleição comum. Será um julgamento. E o réu seremos nós. Se o Brasil, depois de tudo o que viu, de tudo o que sofreu e de tudo o que lhe foi revelado, decidir entregar mais quatro anos ao mesmo projeto, não estará apenas escolhendo um governo. Estará assinando um pacto consciente com o mal, com o país que existe hoje. E não poderá, depois, fingir espanto diante da estagnação, da violência, das instituições desmoralizadas, dos cérebros que emigram e dos investimentos que fogem. Povos colhem o que decidem tolerar. Nenhuma nação se destrói apenas por ter maus governantes. Nações se destroem no dia em que seus cidadãos passam a considerar a degradação uma coisa normal.
Existe um caminho. E ele tem rumo e tem estandarte. Responsabilidade fiscal no lugar da gastança. Liberdade econômica no lugar do cartório. Combate implacável ao crime organizado no lugar da tolerância travestida de virtude. Mérito no lugar do apadrinhamento. Um Estado mais enxuto, mais barato e mais eficiente no lugar do Leviatã obeso. Defesa intransigente das liberdades individuais, da liberdade de expressão à liberdade de culto. E, acima de tudo, a restauração do equilíbrio entre os Poderes, para que o juiz esqueça a política e volte a julgar, o legislador volte a legislar e o povo volte a mandar por meio de quem elege.
Por isso lhes digo hoje, meus amigos: apesar das dificuldades de hoje e das que virão amanhã, eu ainda acredito. Acredito num Brasil que ainda não nasceu, mas que já pulsa no peito de cada um de vocês.
Chegará o dia em que esta nação se levantará e viverá, de verdade, aquilo que escreveu na sua Carta: que todo poder emana do povo, e não da caneta de quem nunca recebeu um voto.
Chegará o dia em que os filhos pobres ou ricos desta terra se sentarão à mesma mesa, porque todos terão tido a mesma chance de vencer pelo próprio esforço.
Chegará o dia em que o Brasil será transformado numa terra onde a criança brinca na rua e a mãe dorme em paz.
Chegará o dia em que os filhos deste país serão julgados pelo que fazem e pelo que constroem, e não pelo lado político em que seus pais votaram, nem pela conta que seguem numa rede social.
Chegará o dia em que o cidadão comum poderá entrar numa repartição pública de cabeça erguida, sabendo que ali ele é patrão, e não súdito.
Chegará o dia em que todo vale de miséria será aterrado, toda montanha de privilégio será aplainada, todo caminho tortuoso da burocracia será endireitado, e o Brasil verá, enfim, a si mesmo como nunca se permitiu ver: grande.
Esta é a nossa esperança. É com esta fé que cada um de vocês voltará para casa depois de votar. Com esta fé, arrancaremos da montanha do desânimo uma pedra de esperança. Com esta fé, transformaremos o ruído da nossa divisão numa sinfonia de reconstrução nacional. Com esta fé, trabalharemos juntos, rezaremos juntos, votaremos juntos, fiscalizaremos juntos, defenderemos a liberdade juntos, sabendo que um dia seremos um povo livre. E, nesse dia, cada brasileiro poderá cantar, com um sentido que nunca teve, os versos que aprendemos na escola sem entender:
"Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte."
E, se o Brasil é mesmo uma grande nação, isso precisa deixar de ser verso e virar verdade*.
Então, que o grito da liberdade ecoe nas montanhas... Que ecoe dos paredões e chapadões... Que ecoe nos pampas e nas coxilhas... Que ecoe nas comunidades, no sertão, nas margens dos rios... Que ecoe nos nossos mares... Que ecoe de cada serra, de cada várzea, de cada vila, de cada seção eleitoral deste país.
E, quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar em cada casa e em cada povoado, em cada estado e em cada cidade, apressaremos o dia em que todos os filhos desta terra, do Oiapoque ao Chuí, brancos, negros, pardos e indígenas, católicos, evangélicos, espíritas, judeus e os que não têm fé alguma, poderão dar as mãos e dizer, com a voz embargada de quem esperou tempo demais:
De pé, enfim. De pé, enfim. Graças a Deus, o Brasil está de pé, enfim.
(Inspirada no discurso histórico de Martin Luther King Jr., "Eu tenho um sonho") ____________________________________________________________________
* Essa verdade começa no domingo. Acorde cedo. Leve seu pai, sua mãe, seus filhos, seu vizinho. Vote e acompanhe a apuração. Ninguém fica em casa no dia em que o Brasil vai a julgamento.
** Enviado pelo autor para publicação. Artigos de Francisco Carneiro Junior podem ser lidos diariamente no Substack. Sugiro que o faça.
publicadaemhttps://www.puggina.org/outros-autores-artigo/eu-ainda-tenho-um-sonho-__18743