Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A caixa de Vorcaro

 Marlon Reguelin


Grécia antiga

Mesmo após milênios, os mitos da Grécia antiga continuam sendo excelentes ferramentas na exegese de nossos tempos. As inúmeras lendas criadas pelos primeiros helenistas retratam e explicam, em seu caráter carregado de simbologia divina, acontecimentos terrenos que impactam a vida humana mais comum.  Atena, Ulisses, Aquiles, Édipo Rei, Afrodite, Hércules, Teseu e o Minotauro… todas essas (entre muitas outras) histórias povoam, em alguma medida, o imaginário coletivo ocidental.

Hoje, quero evocar outro mito grego que tem sido uma infeliz e autentica metáfora da atual política brasileira: o mito da Caixa de Pandora. Após a ascensão do todo-poderoso Zeus ao Olimpo dos deuses, o titã Prometeu ousou desafiar sua autoridade ao entregar o controle do fogo (ali simbolizado como poder e autonomia), propriedade de Zeus e do panteão, aos mortais. Zeus, extremamente irado, resolve se vingar da humanidade através de Pandora, mulher cheia de dons concedidos pelos deuses e dotada de incomparável beleza. Como presente de casamento, Zeus lhe dá uma caixa (a melhor tradução seria “jarro”) com a recomendação de que jamais fosse aberta.

Pandora é moça formosa, mas também curiosa. Ao descumprir o conselho de Zeus, todas as desgraças – exceto uma – entram no mundo, para infortúnio dos homens. Pandora descobre da pior forma possível que a a caixa recebida era, na verdade, uma caixa de males.

2026

Brasilia tem estado em polvorosa. Desde que surgiram os primeiros indícios dos escândalos envolvendo o Banco Master e seu ex-CEO, Daniel Vorcaro, dizem que a sanidade mental dos figurões nunca mais foi a mesma. Pudera, a cada nova revelação, as cifras ficam mais absurdas, e o rol de envolvidos – à direita e à esquerda – mais vasto. Já estamos diante de um dos maiores escândalos de corrupção deste país, e o fim da história não parece estar próximo.

Dinheiro, facilidades, luxo e luxúria

Daniel Vorcaro é uma figura singular. Jovem, articulado, bilionário, figura carimbada nos altos círculos sociais (não apenas no Brasil) e com farto acesso ao panteão de Brasília. Políticos, banqueiros, magistrados, advogados, empresários e celebridades, entre tantas outras castas, parecem estar na lista de benesses do homem.

Muito (MUITO!) dinheiro envolvido. Contrato de 129 milhões para um certo escritório de advocacia aqui… 60 milhões para um tal filme ali… outras centenas de milhares de reais em diárias num resort Tayayacolá… Mas, como nem só de dinheiro se vive, Vorcaro também era afeito às facilidades que só uma boa rede de contatos pode proporcionar. Afinal, qual banqueiro não gostaria de se reunir a portas fechadas (e fora da agenda oficial) com o próprio presidente da Republica, ministros de Estado e o futuro presidente do BACEN? É um nível de exclusividade que chega a nos deixar com uma pulga atrás da orelha pensando se não haveria outras razões mais (sabe lá Deus quais…) para um tratamento tão VIP, não concorda, caro leitor?

O que sabemos, isso sim, é que Vorcaro era um grande amigo dos amigos. Quando o assunto era festa, não tinha miséria! Quatro dias de rega-bofe na maravilhosa ilha da Sicília (terra de Don Vito Corleone e de outras figuras semelhantes não tão fictícias assim) com direito a hotel cinco estrelas, shows de Coldplay, Bocelli e vários outros artistas famosos. Festas de debutante e camarotes na Sapucaí custando dezenas de milhões de reais. Iates privados cruzando o Mediterrâneo. Jatinhos particulares cortando os céus do atlântico.

Em uma dessas viagens, a bordo da aeronave de um amigo, seguiu para Lima um seletíssimo grupo, incluindo um ministro do Supremo Tribunal Federal e o advogado de um dos investigados
no escândalo Master. O destino era a final da Libertadores de 2025. Afinal, futebol é a paixão nacional, e ambos estavam ali apenas como torcedores, de modo que, é claro, não trataram de
qualquer assunto que não fosse a peleja em si. O fato de que, poucos dias depois, esse mesmo ministro tenha proferido decisão favorável em um processo de interesse do tal advogado não passa, evidentemente, de uma feliz – ou infeliz, dependendo da perspectiva – coincidência. Sendo ambos palmeirenses, é até possível que a carga de trabalho tão logo após a viagem tenha servido para amenizar a dor do fracasso alviverde, sofrimento do qual este articulista também compartilha.

Corre à boca pequena que, além do luxo, a luxúria também corria solta. Segundo relatos divulgados pela imprensa, a Polícia Federal teria encaminhado ao ministro André Mendonça um relatório contendo referências a orgias e bacanais supostamente promovidos pelo banqueiro. Diz-se que Vorcaro recorria quase que exclusivamente a acompanhantes estrangeiras – sobretudo europeias – para esses encontros, não necessariamente por predileção estética pelo padrão germânico ou eslavo, e sim por uma razão bem mais pragmática: desconhecedoras do idioma de Machado e dos meandros da política nacional, essas mulheres dificilmente reconheceriam os figurões que circulavam com desenvoltura – e poucas roupas – pelo ambiente.

Se os relatos forem verdadeiros, o sexo aparecia menos como entretenimento e mais como instrumento. Menos celebração hedonista e mais moeda de troca. Um mecanismo adicional de aproximação, influência e construção de lealdades entre personagens que, em tese, deveriam manter relações estritamente institucionais. Celulares, ao que consta, eram proibidos. Oficialmente, para evitar registros. Extraoficialmente, porque certas memórias são ainda mais perigosas que fotografias. Ainda assim, o comentário que ecoa pelos corredores de Brasília é que nem todos os antigos comensais dormem tranquilos. Afinal, quem frequenta ambientes construídos sobre segredos costuma descobrir – geralmente tarde demais – que segredos têm o péssimo hábito de escapar.

A coisa toda é tão medonha que não temos a menor ideia do que ainda vem por aí. No mito grego, a curiosidade de Pandora faz com que um sem-fim de desgraças venha à tona, ainda que ela se apresse em fechar a caixa tão logo perceba o estrago. Por aqui, no entanto, não há qualquer garantia de que Vorcaro tenha fechado sua própria caixa de males; nem na época em que a usava para cooptar grande parte da República, nem agora, com a investigação em andamento e a possibilidade de fazer uma delação que periga comprometer todo o Olimpo dos poderosos.

Fato é: coisa boa não virá. Se o que escapou já foi suficiente para abalar as estruturas dos três poderes, quão temeroso deveria estar o pobre povo brasileiro – vítima última de toda essa podridão – diante do que ainda permanece oculto, à espera de vir à luz? Talvez a verdadeira caixa de Pandora – ou de Vorcaro – não seja a que foi aberta, mas a que ainda não terminou de se esvaziar!

*Marlon Reguelin é empreendedor.


























publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/a-caixa-de-vorcaro/

ENFIM, UM MINISTRO EXEMPLAR

 gilbertosimoespires/pontocritico


CONTORNOS DE MÁFIA

Ontem, bem ao contrário do posicionamento de Gilmar Mendes, ministro do STF que atua descaradamente como DEFENSOR DE CORRUPTOS E CRIMINOSOS DE TODOS OS TIPOS, o correto ministro André Mendonça, relator do inquérito do BANCO MASTER, lavou a alma dos brasileiros decentes ao rebater o seu péssimo colega quando disse, alto e bom som, e sem medo algum, que o MASTER É A MAIOR FRAUDE DO PAÍS COM CONTORNOS DE MÁFIA. 

SOB O OLHAR MAFIOSO

Mendonça, sem tirar nem pôr, ressaltou, sob o olhar mafioso do ministro Gilmar Mendes, QUE NÃO É SIMPLESMENTE UM CRIME DE COLARINHO BRANCO. É MAIS DO QUE ISSO. NÃO SÃO SIMPLESMENTE ATORES NO GABINETE, NA FARIA LIMA, NOS PALÁCIOS, QUE PRATICARAM FRAUDES E CRIMES DE LAVAGEM DE DINHEIRO, DE PREJUÍZOS AO SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL E DELAPIDAÇÃO DE UM FUNDO GARANTIDOR DAS POUPANÇAS DO NOSSO PAÍS.

REFÉM DE UMA QUADRILHA

Pois, antes de tudo, para que fique bem claro, André Mendonça usou a pensada expressão -MÁFIA- porque, assim como aqueles que fazem parte do seleto grupo de BRASILEIROS JUSTOS E DECENTES, O BRASIL SE TORNOU REFÉM DE UMA QUADRILHA QUE OPERA COMO UM SISTEMA ESTRUTURADO DE PODER QUE, LAMENTAVELMENTE, ESTÁ PLENAMENTE INFILTRADA NA SOCIEDADE, NA POLÍTICA E NA ECONOMIA COM O PROPÓSITO DE OBTER LUCROS E/OU VANTAGENS ILEGAIS.

APOIAR, APOIAR E APOIAR

Diante de tamanha clareza e muito foco, o que nos cabe, com grande insistência, é APOIAR COM FIRMEZA O MINISTRO MENDONÇA, assim como seus colegas -NUNES MARQUES E LUIZ FUX, que votaram com o relator para manter as prisões do pai do banqueiro Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, e do primo dele, Felipe Vorcaro. Esse apoio é fundamental para um sempre possível, embora improvável, SANEAMENTO DA CORTE SUPREMA. Que tal?  















publicadaemhttps://www.pontocritico.com/artigo/enfim,-um-ministro-exemplar

O Vietnã e os limites da ideologia,

  por Fernando Freire Dutra


Este artigo é uma síntese das reflexões surgidas a partir de uma viagem de estudo ao Vietnã e das pesquisas realizadas posteriormente sobre sua transformação econômica. O que inicialmente seria apenas uma experiência acadêmica e de observação acabou despertando uma curiosidade intelectual difícil de abandonar. Havia algo na Cidade de Ho Chi Minh que parecia desafiar explicações simples. Entre cafés lotados de jovens empreendedores, avenidas tomadas por motocicletas, arranha-céus modernos e uma atmosfera quase obsessiva por crescimento econômico, era difícil reconciliar aquela cidade vibrante com a memória de um país que, poucas décadas atrás, enfrentava escassez de alimentos, hiperinflação e uma das economias mais rigidamente planificadas do mundo.

Ao longo do período em que estive lá, conversei com empresários, estudantes e moradores locais. Em muitas dessas conversas aparecia uma percepção recorrente: a sensação de que o Vietnã havia mudado profundamente em apenas uma geração. Talvez o que mais impressione no Vietnã contemporâneo seja justamente essa contradição. Durante décadas, o país ocupou no imaginário ocidental o espaço de uma guerra, de uma economia fechada e de um regime rigidamente ideológico. Mas o Vietnã que emerge hoje parece muito mais definido por ambição econômica, mobilidade social e integração global do que pelas imagens congeladas da Guerra Fria. Quanto mais avançava no estudo do período pós-guerra e das reformas do Doi Moi, mais ficava claro que o país talvez represente uma das experiências mais fascinantes de transformação econômica do século XX. Este artigo busca sintetizar essa trajetória.

Após a reunificação do país em 1975, o Partido Comunista decidiu expandir o modelo de economia planificada do Norte para o Sul. Houve discussões iniciais sobre preservar algo semelhante a “um país, dois sistemas”, mantendo uma economia mais aberta em Saigon enquanto o Norte permaneceria sob planificação socialista. A ideia, porém, foi rapidamente abandonada. Em agosto de 1975, o Comitê Central decidiu oficialmente que o socialismo deveria ser implementado também no Sul, e o Quarto Congresso do Partido, em 1976, consolidou esse caminho por meio do primeiro Plano Quinquenal do Vietnã reunificado.

O problema era que o Sul possuía uma estrutura econômica profundamente diferente da do Norte. A antiga Saigon era historicamente uma cidade comercial, com forte presença de pequenos negócios privados, agricultura descentralizada e uma cultura econômica muito mais conectada ao mercado. Entre 1977 e 1978, o governo iniciou a nacionalização de quase 30 mil pequenas empresas privadas na Cidade de Ho Chi Minh, ao mesmo tempo em que avançava na coletivização agrícola. O estado justificava essas medidas afirmando que ainda controlava “apenas” cerca de 50% do comércio atacadista e 40% do pequeno comércio no Sul. A meta era transformar completamente a economia sul-vietnamita segundo a lógica socialista soviética.

Os resultados foram desastrosos. Muitos camponeses simplesmente se recusaram a participar dos coletivos agrícolas. Alguns abandonaram suas terras, venderam seus animais ou deixaram de produzir. Em 1980, apenas 24,5% da população rural do Sul trabalhava em cooperativas, contra impressionantes 97% no Norte. A resistência tinha razões profundas: muitos agricultores do Sul haviam recebido terras durante a guerra justamente com apoio dos comunistas locais e agora viam o Estado tentando retirar novamente aquilo que havia prometido proteger.

A crise agrícola rapidamente se aprofundou. O sistema de incentivos praticamente desapareceu. Os trabalhadores rurais recebiam “pontos” não pela produtividade efetiva, mas pelo tempo formal de trabalho dentro dos coletivos. O resultado foi previsível: queda brutal na produção, desperdício e colapso da eficiência econômica. Em 1978, a disponibilidade per capita de arroz havia despencado em relação aos níveis de 1976. O Vietnã, apesar de possuir enorme potencial agrícola, passou a enfrentar escassez severa de alimentos e precisou importar entre oito e nove milhões de toneladas de arroz durante o Segundo Plano Quinquenal.

O fracasso era tão evidente que chegava a ser difícil compreender por que o regime insistia nele. O próprio desempenho econômico desmontava as metas oficiais do Partido. O Plano Quinquenal previa crescimento agrícola entre 8% e 10% ao ano. Na prática, a produção cresceu apenas 1,9%. A meta industrial previa aumentos anuais entre 16% e 18%; o resultado efetivo foi de apenas 0,6%. Em meados da década de 1980, o Vietnã seguia entre os países mais pobres do mundo.

Além disso, a economia sofreu impactos externos importantes. A invasão do Camboja em 1979 e o conflito subsequente com a China agravaram ainda mais a crise. O Vietnã passou a enfrentar sanções internacionais, isolamento econômico e crescente dependência da União Soviética. Ao mesmo tempo, a produção industrial estatal estagnava. Apesar das empresas estatais representarem cerca de 40% do PIB, a produção industrial caiu aproximadamente 10% entre 1976 e 1980.

Mas talvez o aspecto mais fascinante da história vietnamita seja que as reformas começaram antes do próprio estado reconhecê-las oficialmente. Enquanto o governo ainda insistia no modelo centralizado, agricultores, comerciantes, gestores locais e até dirigentes regionais começaram informalmente a flexibilizar a economia. Muitos coletivos ignoravam regras oficiais. Famílias passaram a cultivar pequenas parcelas privadas e vender excedentes no mercado. Fábricas realizavam atividades “fora do plano” estatal para sobreviver. Algumas províncias do Delta do Mekong chegaram a abandonar informalmente sistemas de racionamento e adotar mecanismos de mercado ainda no início da década de 1980. A própria sobrevivência econômica da população avançava mais rápido do que a capacidade do estado de admitir oficialmente que o sistema precisava mudar.

O mais interessante é que boa parte dessas mudanças era tecnicamente ilegal. Porém, conforme os resultados apareciam, o próprio Partido começou lentamente a tolerá-las. A lógica econômica começava a vencer a rigidez ideológica. O que ocorria no Vietnã lembrava muito o que havia acontecido anteriormente na China após o fracasso do Grande Salto Adiante: reformas espontâneas surgindo “de baixo para cima”, antes de serem oficialmente reconhecidas pelo governo central.

Esse talvez tenha sido um dos elementos centrais da transformação econômica vietnamita que mais tarde ficaria conhecida como Doi Moi, ou “renovação”. Diferentemente da ideia tradicional de que reformas econômicas surgem exclusivamente de grandes planos estatais, o caso vietnamita mostra exatamente o contrário. Em muitos casos, o estado apenas formalizou práticas que já estavam sendo criadas espontaneamente pela própria população. As reformas foram, em grande medida, uma “autorização tardia das atividades cinzentas das pessoas”. O capitalismo não foi implantado por decreto. Ele reapareceu gradualmente nos espaços onde a sobrevivência exigia pragmatismo econômico.

A deterioração econômica chegou a níveis dramáticos no meio da década de 1980. Em 1986, a inflação vietnamita atingiu impressionantes 582% ao ano. O salário mensal de muitas famílias mal era suficiente para uma semana de sobrevivência. Tornou-se comum em Hanói que famílias criassem porcos dentro de apartamentos para complementar renda e alimentação. Oficialmente, o país tinha cerca de quatro milhões de desempregados, embora diplomatas vietnamitas admitissem reservadamente que o número real pudesse chegar a sete milhões.

Foi nesse contexto que ocorreu a histórica 6ª Conferência Nacional do Partido Comunista do Vietnã, em 1986, marco oficial da política conhecida como Doi Moi, ou “renovação”. O país reconhecia, ainda que implicitamente, que o modelo excessivamente centralizado havia levado a economia a uma crise existencial. O pragmatismo começou lentamente a substituir a ortodoxia ideológica.

Mais do que uma simples liberalização econômica, aquele momento representou uma mudança silenciosa na própria lógica de funcionamento do regime. O objetivo deixou de ser controlar cada dimensão da atividade econômica e passou gradualmente a ser administrar o crescimento, preservar a estabilidade e garantir prosperidade suficiente para sustentar a legitimidade política.

As reformas ganharam força especialmente a partir de 1988. O governo passou a permitir maior atuação da iniciativa privada, aboliu boa parte dos controles de preços, reduziu restrições ao comércio, eliminou diversos subsídios estatais e enfraqueceu os principais mecanismos de planejamento central. O monopólio estatal do comércio exterior começou a ser desmontado. Agricultores receberam maior autonomia para produzir e comercializar seus produtos. Empresas passaram gradualmente a operar com maior liberdade sobre lucros, perdas e investimentos.

Na agricultura, as mudanças foram profundas. Em 1987, cerca de 70% dos trabalhadores vietnamitas ainda estavam no campo, e o setor agrícola representava aproximadamente 41% do PIB nacional. O governo passou então a conceder contratos de longo prazo para famílias agricultoras utilizarem terras antes controladas por cooperativas. Embora a terra permanecesse formalmente pertencente ao estado, os agricultores passaram a ter garantias de uso, transferência e herança desses direitos. As cooperativas agrícolas deixaram de funcionar como mecanismos compulsórios de produção coletiva e passaram a atuar como prestadoras de serviços para agricultores privados.

O impacto foi extraordinário. Em poucos anos, a produção agrícola disparou. O Vietnã deixou de ser um país marcado pela escassez crônica de alimentos para se tornar uma potência exportadora agrícola. Entre 1993 e 2020, a taxa de pobreza extrema caiu de aproximadamente 79% para menos de 5%, uma das reduções mais rápidas já registradas no mundo em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a participação da agricultura na economia começou a cair não por colapso, mas porque o restante da economia crescia ainda mais rapidamente. Em 2021, o setor agrícola já representava apenas 12,6% do PIB vietnamita.

As reformas industriais seguiram lógica semelhante. O planejamento central não desapareceu completamente, mas deixou de controlar cada detalhe da atividade econômica. Empresas passaram a definir salários, lucros e estratégias comerciais com muito mais autonomia. Subsídios estatais foram reduzidos, forçando empresas públicas a competir de forma mais eficiente. O estado vietnamita não promoveu uma onda radical de privatizações como ocorreu em partes da Europa Oriental. Em vez disso, permitiu gradualmente o fortalecimento da economia privada ao lado de empresas estatais que perderam importância relativa.

Um dos passos mais importantes ocorreu quando empresas privadas passaram a poder contratar quantos trabalhadores desejassem. Em 1990 e 1991, o Vietnã introduziu estruturas legais modernas para empresas individuais, sociedades limitadas e sociedades anônimas. Em 1992, a nova Constituição passou a garantir proteção contra expropriação da propriedade privada dos meios de produção, algo impensável poucos anos antes.

Outro marco decisivo foi a abertura ao capital estrangeiro. Em 1987, uma nova lei de investimentos enviou ao mundo um sinal claro: o Vietnã estava pronto para se integrar à economia global. Pela primeira vez, investidores estrangeiros receberam garantias de que seus ativos não seriam confiscados ou nacionalizados. O país passou inclusive a permitir investimentos com 100% de propriedade estrangeira, um gesto extremamente significativo para um regime socialista naquele contexto histórico.

A integração internacional acelerou profundamente a transformação vietnamita. O país aderiu à ASEAN em 1995, assinou acordos comerciais estratégicos nas décadas seguintes e se tornou uma peça relevante das cadeias globais de manufatura, especialmente em setores como eletrônicos, têxteis e tecnologia. Empresas como Samsung, Intel e Nike passaram a utilizar o Vietnã como plataforma industrial exportadora para mercados globais.

Em 1989, o controle estatal de preços foi drasticamente reduzido. Até então, praticamente todos os preços da economia eram determinados pelo governo. Após a liberalização, muitos produtos básicos passaram a registrar queda de preços, especialmente alimentos. O arroz, símbolo histórico da escassez vietnamita, teve redução de preços de aproximadamente 30%.

Essa transformação não ocorreu da noite para o dia. Mesmo após 1986, as reformas avançaram gradualmente ao longo das décadas seguintes. Em 1999, uma nova Lei Empresarial removeu obstáculos burocráticos para empresas privadas. O impacto foi quase imediato. Nos cinco anos seguintes, cerca de 160 mil empresas foram registradas no país. Muitas delas já existiam informalmente e apenas passaram a operar legalmente.

Hoje, caminhar pela Cidade de Ho Chi Minh é testemunhar uma das mais impressionantes transformações econômicas contemporâneas. Existe uma ironia histórica poderosa no fato de que a antiga Saigon, símbolo do capitalismo do Sul durante a Guerra Fria, tenha retomado justamente sua vocação histórica de cidade comercial e cosmopolita, agora sob a administração de um regime socialista.

O Vietnã de hoje está muito distante do país marcado pela escassez e pela hiperinflação dos anos 1980. Em 2024, a economia vietnamita cresceu cerca de 7,1%, uma das taxas mais elevadas da Ásia, enquanto o PIB per capita ultrapassou US$ 4.700 em termos nominais e US$ 16 mil em paridade de poder de compra (PPP). Em poucas décadas, o país deixou de figurar entre as economias mais pobres do mundo para consolidar-se como uma economia de renda média, profundamente integrada às cadeias globais de produção e comércio.

Mais impressionante do que os números, porém, talvez seja a transformação psicológica e cultural visível nas ruas da Cidade de Ho Chi Minh, que se tornou uma sociedade voltada à produção, ao comércio, ao empreendedorismo e à integração global. A energia econômica da cidade demonstra que, independentemente do sistema político formal, sociedades prosperam quando conseguem criar espaço para a iniciativa privada.

Isso não significa que o modelo vietnamita esteja livre de problemas. O país continua sendo um regime autoritário de partido único, com limitações importantes à liberdade de imprensa, à oposição política e à dissidência organizada. Persistem desafios relacionados à corrupção, às desigualdades regionais e à crescente dependência do setor exportador global. Ainda assim, a trajetória vietnamita permanece como uma das demonstrações mais poderosas de que desenvolvimento econômico não nasce da rigidez ideológica.

Sua transformação não ocorreu porque o estado conseguiu controlar completamente a sociedade, mas porque, em determinado momento, passou a permitir que ela voltasse a respirar economicamente. O pragmatismo começou gradualmente a substituir a ortodoxia, abrindo espaço para iniciativa privada, incentivos econômicos e integração global.

Talvez, olhando em retrospecto, a verdadeira vitória vietnamita não tenha ocorrido em 1975, com a retirada americana e a reunificação do país, mas décadas depois, quando o Vietnã decidiu abandonar parte do modelo econômico que aquela própria vitória havia imposto.



Fernando Freire Dutra -  Mises Brasil














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POR QUAL MOTIVO ELES ESTÃO SOLTOS HOJE???

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Messi pensou em parar: a virada que ensina superação

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Messi pensou em parar: a virada que ensina superação . A história de Messi depois das derrotas mostra por que o pior dia não pode decidir o fim da sua jornada.



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 - SEM RODEIOS/GAZETADOPOVO

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