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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O Tempo da Razão e a Razão do Tempo

 Marcos H. Giansante


A ruptura entre a razão clássica e o racionalismo moderno – Rousseau e Mises

“Nada é tão dócil quanto o homem em seu estado primitivo… é a sociedade que o deprava e o corrompe.”
— Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens

Durante séculos, o Ocidente acreditou estar falando sempre da mesma coisa ao pronunciar a palavra “razão”. O termo atravessou épocas, escolas e disputas como se fosse uma lâmpada imóvel, iluminando igualmente todos os caminhos. No entanto, sob essa aparência de continuidade, algo decisivo se transformava em silêncio.

Desde os gregos, a palavra “razão” parecia designar sempre a mesma luz, o mesmo instrumento natural pelo qual o homem reconhecia o real e ordenava a vida. Ao longo dos séculos, porém, esse termo aparentemente estável sofreu uma mutação profunda. Poucos percebem que, quando se afirma que Aristóteles é racional, que Tomás de Aquino é racional, que Rousseau é racional, que Keynes é racional e que Mises também o é, não se está falando da mesma racionalidade. O estudante moderno, ao ouvir tais afirmações, é lançado em um labirinto conceitual, no qual autores radicalmente distintos são apresentados como se compartilhassem um único conceito de razão. Essa ambiguidade corrói a formação intelectual contemporânea e torna opaca a história do pensamento econômico, político e filosófico. Este capítulo existe para restaurar essa nitidez perdida.

A razão clássica, que nasce em Sócrates, ganha forma em Aristóteles, aprofunda-se na síntese agostiniana e é sistematizada por Tomás de Aquino, é antes de tudo uma virtude. Ela não cria o mundo, mas o lê. É uma disciplina interior, um hábito cultivado no tempo, fundada no reconhecimento de que o homem é limitado, imperfeito e moralmente condicionado. Em Aristóteles, a razão orienta a ação possível dentro da imperfeição humana. Em Tomás, a natureza encontra sua finalidade e o ser encontra seu dever não por ruptura, mas pela ordem inteligível que a razão humana reconhece na criação. Na Escolástica tardia, essa razão se transforma em método de análise da ordem espontânea, oferecendo as primeiras reflexões sistemáticas sobre moeda, preço justo, formação de valores, juros e ética das trocas, antecipando elementos que séculos depois reapareceriam com maior rigor na tradição austríaca. A razão clássica é humilde. Não pretende reconstruir a realidade, mas compreendê-la. Não desconfia do tempo; sabe que é nele que o erro se revela e que a prudência se aperfeiçoa.

Esse edifício sofre inflexão decisiva com Rousseau. Ao inverter o eixo da tradição, ele inaugura uma racionalidade de natureza inteiramente distinta, embora preserve o mesmo nome. Para Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. O mal não reside na natureza humana, mas nas instituições, nas convenções e nos costumes. Se a sociedade deforma o homem, cabe então ao legislador iluminado, figura rara e supostamente dotada de uma clarividência moral superior, reconstruir o mundo social para restaurar uma pureza perdida. Aqui, a razão deixa de ser leitura da ordem espontânea e passa a ser instrumento de engenharia social. O tempo já não é aliado da prudência, mas suspeito de corrupção. O ideal não está na experiência acumulada, mas na origem mítica. Não é preciso aprender com o passado, mas retornar a um estado anterior ao erro. Essa mudança inaugura o racionalismo moderno, que germinará no jacobinismo, no positivismo, no estatismo centralizador, nas escolas neoclássicas de modelagem social e, mais tarde, nas teorias de gerenciamento macroeconômico.

Aqui está o divisor de águas. Para a tradição clássica, a razão opera dentro das imperfeições do mundo. Para o racionalismo moderno, ela pretende superá-las por decreto. Para os clássicos, a sociedade emerge das ações humanas, dos costumes, das práticas e dos equilíbrios construídos historicamente. Para os racionalistas modernos, ela deve ser desenhada por especialistas, conduzida por planejadores e moldada por teorias que supostamente sabem mais do que a própria vida. Para os clássicos, o tempo educa. Para Rousseau, o tempo deforma e precisa ser corrigido. A diferença não é apenas conceitual; é civilizacional.

Nesse ponto, a ruptura se torna inequívoca. A razão dos gregos, aprofundada por Agostinho e sistematizada por Tomás, reconhece que cada ser humano carrega limites estruturais, que o conhecimento cresce por camadas, que nenhuma mente abarca o todo e que o mundo é complexo demais para ser dominado por um único modelo. A razão moderna, inaugurada por Rousseau, afirma o oposto: que a sociedade é matéria moldável, que alguns sabem moldá-la, que o indivíduo pode ser sacrificado à vontade geral e que a imperfeição não precisa ser contida, mas eliminada por meio de um desenho institucional imposto de cima para baixo.

A Escola Austríaca não surge como uma terceira razão, mas como o retorno da primeira. Menger demonstra que instituições como a moeda, o direito e o mercado não são criações legislativas, mas produtos emergentes da ação humana ao longo do tempo. Mises devolve à razão sua dignidade moral: toda ação humana é racional porque toda escolha envolve fins e meios, e porque todo fim e todo meio se inscrevem no tempo. Trata-se da recuperação do logos clássico aplicado à economia. Hayek, por sua vez, expõe a ilusão fatal do racionalismo construtivista: nenhum planejador possui acesso ao conhecimento disperso, tácito e localizado que coordena a sociedade. A crença de que modelos matemáticos ou teorias estatais podem substituir o aprendizado espontâneo é apenas a versão moderna da utopia rousseauniana.

Nesse sentido, Mises não responde apenas a Rousseau como autor, mas a todo o projeto racionalista que nasce com ele: a pretensão de substituir o aprendizado temporal da ação humana por esquemas concebidos fora da experiência, da responsabilidade individual e da própria historicidade.

Autores como Sowell, Popper e Ayn Rand ajudam a iluminar aspectos dessa retomada, embora não sejam protagonistas desta cronologia. Sowell descreve o contraste entre a visão restrita, que reconhece os limites humanos e confia na experiência histórica, e a visão irrestrita, que aposta na plasticidade moral ilimitada e na engenharia social. Popper demonstra por que todo conhecimento é falível e precisa ser corrigido no tempo. Rand reafirma o indivíduo como fim em si mesmo, devolvendo à razão humana sua força criadora. Todos convergem para o mesmo ponto: a crítica à arrogância racionalista e a defesa de uma razão enraizada na realidade.

Ao final dessa travessia, a distinção deve permanecer cristalina. A razão clássica, que moldou o Ocidente, é humilde, prudente, moral e temporal. O racionalismo moderno, inaugurado por Rousseau, é voluntarista, centralizador e desconfiado da experiência acumulada. A primeira compreende o tempo; a segunda tenta superá-lo. A Escola Austríaca representa o retorno ao logos que não se impõe sobre o mundo, mas age dentro dele.

A razão reencontra o tempo, e o tempo reencontra o homem. Só age quem compreende que o instante é passagem e que toda liberdade nasce da duração.

Quando a razão se afasta do tempo vivido e se converte em projeto de reconstrução, suas consequências deixam de ser apenas filosóficas. Elas se sedimentam nas instituições, assumem forma normativa, transformam-se em código, doutrina e legislação.
É no campo jurídico que essa mutação se tornará mais visível, pois ali a abstração racional buscará substituir a experiência histórica como fonte de ordem. A travessia, portanto, desloca-se agora da razão que interpreta o mundo para a razão que pretende organizá-lo por meio de sistemas formais.













publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/22212/o-tempo-da-razao-e-a-razao-do-tempo/

Flávio beneficiado? Inteliência Artificial da Meta se recusa a gerar imagens pró-Lula

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Vorcaro e Lula Em Esquema de R$ 1 Bilhão de Propina!

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Lula Vai Indicar Pacheco ao STF Se Perder Para Flávio!

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A MENTIRA VOLTA A ERGUER A CABEÇA: PAU NELA!!

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ELEIÇÕES ESCANCARAM CRISE NO PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO? | WILLIAM WAACK

WILLIAM WAACK

A crise do STF vai muito além dos ministros |

 GAZETA DO POVO


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Coppolla desmonta narrativa de Janones e sua ‘bala de prata’ da campanha do medo

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LIÇÃO QUE ATRAVASSE O OCEANO... QUEM LEMBRA PROTEGE

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Banco Master: a denúncia de Vorcaro que põe o PT no centro -

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O medo de expor o candidato no carro mostra o nível de intolerância nas ruas |

  ALEXANDRE GARCIA

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O BRASIL VIROU UM CEMITÉRIO DE VAREJISTAS

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

A remoção do dinheiro em espécie prejudicará a economia de mercado

 Frank Shostak


Segundo certos especialistas, há uma necessidade urgente de remover o dinheiro em espécie da economia. Argumenta-se que o dinheiro em espécie dá suporte à economia informal e permite a sonegação de impostos.

Outra justificativa para sua remoção é que, em tempos de choques econômicos que empurram a economia para uma recessão, a corrida por dinheiro em espécie agrava a queda (ou seja, torna-se um fator que contribui para a instabilidade econômica). Além disso, sustenta-se que, no mundo moderno, a maioria das transações pode ser liquidada por meio de transferência eletrônica de fundos. No mundo moderno, o dinheiro é uma abstração.

O Surgimento do Dinheiro

O dinheiro surgiu por meio de trocas voluntárias de bens no escambo, nas quais um bem acabou se tornando um meio de troca geralmente aceito. Certas trocas seriam difíceis, se não impossíveis, sob um sistema de escambo puro. Um açougueiro que quisesse trocar sua carne por frutas talvez não conseguisse encontrar um fruticultor que quisesse sua carne. O fruticultor que quisesse trocar suas frutas por sapatos talvez não conseguisse encontrar um sapateiro que quisesse suas frutas.

A característica distintiva do dinheiro é que ele é o meio de troca geral. Ele evoluiu como sendo a mercadoria mais comercializável. Mises escreveu:

“Haveria uma tendência inevitável a que os menos comercializáveis da série de bens usados como meios de troca fossem, um a um, rejeitados, até que por fim restasse apenas uma única mercadoria, universalmente empregada como meio de troca; em uma palavra, o dinheiro”.

De modo semelhante, Rothbard sustentou que:

“Assim como na natureza há uma grande variedade de habilidades e recursos, também há uma variedade na comercialização dos bens. Alguns bens são mais amplamente demandados do que outros, alguns são mais divisíveis em unidades menores sem perda de valor, alguns mais duráveis por longos períodos de tempo, alguns mais transportáveis por grandes distâncias. Todas essas vantagens contribuem para uma maior comercialização. É claro que, em toda sociedade, os bens mais comercializáveis serão gradualmente selecionados como os meios de troca. À medida que são cada vez mais selecionados como meios, a demanda por eles aumenta por causa desse uso, e assim eles se tornam ainda mais comercializáveis. O resultado é uma espiral que se reforça: mais comercialização causa uso mais amplo como meio, o que causa mais comercialização, etc. Por fim, uma ou duas mercadorias são usadas como meios gerais — em quase todas as trocas — e essas são chamadas de dinheiro”.

Uma vez que o meio de troca geral surgiu de uma ampla variedade de mercadorias, o dinheiro é uma mercadoria. Segundo Rothbard:

“O dinheiro não é uma unidade abstrata de conta, separável de um bem concreto; não é um sinal inútil bom apenas para trocar; não é uma ‘reivindicação sobre a sociedade’; não é uma garantia de um nível fixo de preços. É simplesmente uma mercadoria”.

Além disso, um objeto não pode ser usado como dinheiro a menos que, no momento em que seu uso como dinheiro começa, ele já possua um valor de troca objetivo baseado em algum outro uso. Por quê?

“(…) em contraste com os bens de consumo ou de produção usados diretamente, o dinheiro precisa ter preços preexistentes sobre os quais fundamentar uma demanda. Mas o único modo pelo qual isso pode acontecer é começando com uma mercadoria útil sob o escambo e, então, acrescentando a demanda por um meio à demanda anterior por uso direto”.

Portanto, o dinheiro é aquilo pelo qual todos os outros bens e serviços são trocados. Por meio de um processo contínuo de seleção ao longo de milhares de anos, as pessoas estabeleceram o ouro como dinheiro. No atual sistema monetário, a oferta de dinheiro já não é o ouro, mas moedas e notas emitidas pelo governo e pelo banco central, bem como o dinheiro digital.

Os indivíduos guardam seu dinheiro digitalmente ou em suas carteiras, embaixo dos colchões, em um cofre ou armazenado — depositado — em bancos. Ao depositar dinheiro, uma pessoa nunca abre mão da propriedade sobre ele. Quando Joe guarda seu dinheiro em um banco, ele continua a ter uma reivindicação ilimitada sobre esse dinheiro e tem o direito de tomar posse dele a qualquer momento. Esses depósitos, chamados de depósitos à vista, formam parte da oferta de dinheiro.

Em qualquer momento, uma parte do estoque de dinheiro em espécie está armazenada, isto é, depositada, em bancos. Assim, se — em uma economia — as pessoas mantêm US$ 10.000 em dinheiro em espécie, então a oferta de dinheiro dessa economia é US$ 10.000. Mas, se alguns indivíduos armazenaram US$ 2.000 em depósitos à vista, a oferta total de dinheiro continuará sendo US$ 10.000 — US$ 8.000 em espécie e US$ 2.000 em depósitos à vista nos bancos. Caso todos os indivíduos depositassem todo o seu estoque de dinheiro em espécie nos bancos, a oferta total de dinheiro continuaria sendo US$ 10.000 — tudo isso mantido como depósitos à vista.

Isso deve ser contrastado com uma transação de crédito. O crédito sempre envolve a compra, pelo credor, de um bem futuro em troca de um bem presente. Como resultado, em uma transação de crédito, o dinheiro é transferido de um emprestador para um tomador. Ora, as transações de crédito (isto é, os empréstimos) não alteram a quantidade de dinheiro na economia. Se Bob empresta US$ 1.000 a Joe, o dinheiro é transferido do depósito à vista de Bob ou da carteira de Bob para a posse de Joe.

Dinheiro Eletrônico

O dinheiro eletrônico muda isso? O dinheiro eletrônico não é dinheiro como tal, mas uma forma particular de usar o dinheiro existente. Por exemplo, Bob poderia transferir US$ 1.000 a Joe. Ele também poderia transferir os US$ 1.000 por meio de um cheque emitido contra seu depósito no Banco A. Joe depositaria o cheque em seu banco, digamos, o Banco B. Após a compensação, o dinheiro será transferido do depósito à vista de Bob no Banco A para o depósito à vista de Joe no Banco B.

Todas essas transferências — seja eletronicamente, seja por meio de cheques — poderiam ocorrer porque os US$ 1.000 em dinheiro em espécie existem fisicamente. Sem a existência dos US$ 1.000, nada poderia ter sido transferido.

Ora, se Bob paga suas compras de mercado com um cartão de crédito, ele na verdade toma emprestado da empresa de cartão de crédito, como a MasterCard. Por exemplo, se ele compra US$ 100 em mantimentos usando o MasterCard, então a MasterCard paga US$ 100 ao dono do mercado. Bob, por sua vez, quita sua dívida com a MasterCard. Novamente, nada disso poderia ter acontecido sem a existência de dinheiro em espécie. Afinal, o que exatamente foi transferido?

O fato de que o dinheiro em espécie em si não foi usado no exemplo acima não significa que não precisamos mais dele. Pelo contrário, o fato de que ele existe permite que várias formas de transações ocorram por meio de tecnologia sofisticada, como as transferências digitais. Essas diversas formas de transferência não são dinheiro como tal, mas simplesmente uma forma particular de transferir dinheiro. O meio de troca continua sendo o dinheiro em espécie — apenas o meio de transferir esse dinheiro é diferente no mundo digital.

E quanto à introdução de uma moeda digital pelo banco central? Isso poderia substituir o dinheiro em espécie? Isso não fará da moeda digital o meio de troca aceito. Para se tornar dinheiro, uma coisa precisa passar pelo processo de seleção do mercado. Ela não pode se tornar dinheiro porque o banco central assim o disse. Se as autoridades impusessem aos indivíduos uma moeda digital, então os indivíduos provavelmente empregariam outras coisas como dinheiro. Se o governo aplicasse regulamentações fortes, então isso provavelmente prejudicaria a economia de mercado.

A Remoção do Dinheiro em Espécie Vai Prejudicar a Economia de Mercado

A remoção do dinheiro em espécie implica a abolição do meio de troca e, em última análise, da economia de mercado. Observe novamente: a introdução do dinheiro surgiu como resultado de o escambo ser uma forma ineficiente de negociar bens. Portanto, na ausência do dinheiro (isto é, do meio de troca), a economia de mercado moderna não poderia surgir. Esses comentaristas que defendem a eliminação gradual do dinheiro em espécie defendem, sem perceber, a destruição da economia de mercado e o retorno da humanidade à idade das trevas do escambo.

O argumento de que remover o dinheiro em espécie eliminará a sonegação de impostos e o crime é duvidoso. A sonegação de impostos seria reduzida se os incentivos para ela — impostos altos baseados em um governo grande — fossem removidos. O fato de que, durante uma crise econômica, as pessoas correm aos bancos para sacar seu dinheiro indica que elas provavelmente perderam a fé no sistema bancário de reservas fracionárias e gostariam de ter seu dinheiro de volta.

Conclusão

Independentemente do nível de avanço tecnológico da economia, o dinheiro é o meio de troca geralmente aceito. Consequentemente, uma política voltada à eliminação gradual do dinheiro em espécie corre o risco de prejudicar a economia de mercado.











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O Que Fachin Está Escondendo no Caso Master?!

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A Bíblia e a corrupção -


 

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Augusto Nunes ironiza 'amantes da democracia' após quebradeira do PT na Av. Paulista

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Os detalhes da segunda tentativa de delação de Vorcaro destacados por Fernão

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Flávio é Boicotado na Campanha e Programa Sai Sem Som!

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O QUE ACONTECE DE VERDADE SE FLÁVIO GANHAR? -

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PT SÓ VENDE MEDO

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Lula leva uma lapada histórica em comentário: "PT vira alvo de gargalhadas" |

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O falso liberalismo do Paraguai

 Priscila Contim 


Há dois tipos de propaganda sobre o Paraguai: a governamental e a privada. A primeira é promovida pelo governo paraguaio principalmente através de turnês do presidente da nação na tentativa de atrair empresários estrangeiros para o país e a segunda é feita por pessoas que tornaram a venda de residências paraguaias sua fonte de renda. Ambas propagam que o país tem potencial. Entretanto, isso nada significa além da possibilidade de vir a ser algo. Potência, para Aristóteles, significa o que algo pode ser, mas ainda não é no presente. Já o ato é a realização daquilo que era apenas potencial. Para que o potencial paraguaio se atualize, é preciso muito mais que a psicologia das massas e trabalho duro. É necessário, em primeiro lugar, o desenvolvimento de uma cultura capitalista, como já expliquei no primeiro artigo da série sobre o país: Se o Paraguai é capitalista, por que é pobre?. Outro fator essencial é o ambiente livre. Muito da percepção de liberdade do Paraguai surgiu devido ao declínio das liberdades na América Latina, porém, se analisada em si mesma, enfrenta várias restrições que hoje travam o crescimento do país. A piora dos vizinhos propiciou uma janela de oportunidade, mas será que os paraguaios terão condições de aproveitá-la? Vendo de dentro, o crescimento do país é sofrido: dois passos para frente e um para trás. Pelo menos está andando, alguns dirão. Mas comparar misérias, apesar de alento temporário, não é um bom parâmetro, sobretudo para um economista, cujo objetivo é analisar os meios e os fins da ação humana.

Um ditado popular no país diz: El peor enemigo del paraguayo es el propio paraguayo. Esse inimigo não necessariamente é o vizinho de porta, mas o conterrâneo que decidiu se apoderar dos recursos públicos e não permitir que ninguém mais prospere. Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde o desvio de dinheiro público é ligeiramente mais dissimulado, no Paraguai os agentes estatais metem diretamente a mão no bolso da população em plena luz do dia. Há sempre uma taxa a mais, uma exigência a mais, nas repartições públicas, no trânsito, na imigração, na alfândega, tudo pago em dinheiro vivo e sem recibo, é claro. Isso é tão notório e verdadeiro que gera um clima de desconfiança do povo com relação ao estado. O liberalismo dos paraguaios vem menos de uma produção cultural do que dessa realidade nua e crua, e somente após terem sofrido quatro grandes ditaduras, a liberdade tornou-se um valor. O estado tenta usurpar esse valor verdadeiro em sua propaganda, quando na realidade é protecionista e intervencionista.

Um dos maiores paradoxos no país hoje é: ao mesmo tempo em que atrai empresas estrangeiras, dificulta cada vez mais a imigração, o que reduz a atração de profissionais qualificados e especializados. A diferença entre um trabalhador de chão de fábrica e um gestor não é a pura vontade do empresário de contratar este ou aquele, mas a formação técnica e qualidade laboral. Dificultar a entrada de trabalhadores mais competentes, para “proteger” os empregos nacionais, só cria um gargalo no mercado de trabalho, até porque a qualificação de novos profissionais demora anos ou décadas. A melhor alternativa no curto e médio prazo é atrair cérebros estrangeiros. Os Estados Unidos são campeões no “roubo” de cérebros de outros países, nem por isso há falta de trabalho para o americano nativo. Mas a restrição migratória nunca se trata de proteger o trabalhador. Não podemos crer nas boas intenções de qualquer governante, há sempre um motivo político muito mais forte que a simples caridade.

Desde que houve um boom de brasileiros imigrando para o Paraguai, o estado percebeu uma fonte de receita. O que os brasileiros viam como uma oportunidade de empreender e escapar do autoritarismo, o estado viu como dinheiro fácil. Assim, as taxas migratórias foram aumentando gradativamente e a renovação da documentação tornou-se praticamente uma receita recorrente. Antes se pagava para tirar a residência temporária e, depois de dois anos cumprindo simples requisitos e mediante um novo pagamento, se conquistava a residência permanente. Mas o estado percebeu que dificultar a obtenção do visto permanente obrigaria os imigrantes a pagar a renovação temporária a cada dois anos por tempo indefinido; e assim o fez. Qualquer categoria de residência concede apenas os direitos de retirar documentações simples (exceto passaporte), abrir empresas, trabalhar e abrir conta em bancos, mas nada além disso. O status continua de estrangeiro. Apenas a naturalização concede os direitos plenos que um paraguaio desfruta, para conquistá-la são exigidos mais anos de residência, mais gastos e mais burocracias. É necessário fazer algumas provas e receber a autorização de todos os juízes da suprema corte. Pode-se argumentar que isso é um processo para proteger os interesses nacionais. Entretanto, o Chile ou a Argentina, países muito mais ricos e cujos índices de desenvolvimento humano são superiores, oferecem a naturalização mais facilmente. Não há motivo algum para que investidores que comprovem a origem de seu dinheiro não obtenham acesso ao passaporte de maneira simples, muito pelo contrário, seria um incentivo para atraí-los.

Não é somente com a imigração que o estado resolveu aumentar seus ganhos, mas também com o aumento de seus próprios salários. Muito se fala que o salário mínimo do Paraguai é maior que o brasileiro, e um dos maiores da América Latina, mas se omite que, segundo dados do próprio governo, a ocupação informal no ano de 2025 foi de 60%. Isso significa que grande parcela da população provavelmente não alcança esse montante. Para que servem então os aumentos de salários e os números tão orgulhosamente alardeados para o exterior? No último aumento, o presidente quis arredondar o salário para 500 dólares; creio que achou uma cifra bonita. É surreal imaginar que um paraguaio médio ganhe tanto quanto um chileno, trabalhador do país mais bem-sucedido do continente. Os aumentos têm apenas duas funções: engordar a poupança dos funcionários públicos e elevar as taxas de tudo. A consequência negativa disso ― além de restringir o acesso dos trabalhadores menos produtivos e qualificados ao mercado formal ― é o aumento dos custos de se manter uma empresa no país.

As reclamações sobre o aumento dos custos de se abrir e manter uma empresa no país estão se tornando cada vez mais frequentes entre os investidores. Se o problema fosse somente o aumento arbitrário do salário mínimo, a resolução seria simples. Entretanto, o estado fez algo muito mais grave: intervenção na estrutura macroeconômica do país, mais precisamente, no câmbio. Um dos maiores problemas do intervencionismo é que a economia não é estática, mas dinâmica, portanto, não é possível saber com precisão o que ocorrerá no momento seguinte. Toda análise é limitada pelo que Hayek chamou de pattern prediction: a impossibilidade de prever os desdobramentos específicos num sistema complexo, mas apenas tendências gerais. Isso é especialmente crítico no mundo globalizado. Uma medida, quando analisada pelos burocratas sob os dados presentes, pode parecer boa agora, mas não há nenhuma garantia de que será boa amanhã. Contudo, aqui não adentrarei nos problemas dos juízos morais sobre o que de fato seria uma boa política. Para realizar uma “boa medida”, os burocratas teriam que ser capazes de prever não somente os dados futuros de seu próprio país, o comportamento de seus cidadãos, como as ações dos outros países. Isso é absolutamente impossível. E é precisamente nesse erro neoclássico, oriundo da arrogância fatal, que incorreu o governo paraguaio ao manipular o câmbio em 2024 e 2025.

Vendo a desvalorização de seu câmbio, o Banco Central paraguaio decidiu queimar suas reservas em dólares para valorizar sua moeda, o guarani, enquanto atraía mais dólares dos investidores estrangeiros. Entretanto, como era de se esperar, não conseguiu prever que os próprios EUA desvalorizaram o dólar, o que resultou numa valorização brutal do guarani, em aproximadamente 25%, muito acima do esperado. Obviamente, todos aqueles investidores estrangeiros que estavam executando, ou em vias de executar, projetos no país viram seus custos subitamente aumentar num intervalo de um ano, prejudicando todo o cálculo econômico. Quando o setor produtivo e agroexportador pressionou, a instituição passou a alegar que “a cotação reflete os puros fundamentos de oferta e demanda do mercado” e que sua prioridade estatutária é apenas a meta da inflação. Muito conveniente. É incrível a capacidade dos estados de manipularem a economia e depois legarem a responsabilidade da correção ao “livre mercado”. Tudo isso para, no final, não aumentar o poder de compra da população, pois os preços nacionais continuaram os mesmos. Quem, portanto, se beneficiou disso? Além do próprio estado, os bancos.

O sistema bancário extremamente fechado é outro enorme problema no Paraguai. Os investidores não conseguem enviar dinheiro do estrangeiro para o país de maneira simples: há sempre inúmeras papeladas e comprovações. Alguns demoram dois anos ou mais para conseguir adentrar plenamente no sistema bancário, o que prejudica a constituição e funcionamento de novas empresas. A desculpa da política antilavagem de dinheiro não convence, pois a coisa mais fácil de se fazer, num país onde a maior parte da população é desbancarizada e trabalha com dinheiro em espécie, é lavar dinheiro. Os bancos simplesmente são ineficientes e desejam, com ajuda estatal, manter o Paraguai fechado para a concorrência bancária internacional. Isso gera algumas situações inusitadas. Por exemplo: para abrir determinadas categorias de empresas[1], é preciso depositar parte do capital social no banco estatal, chamado Banco Nacional de Fomento (uma espécie de Caixa Econômica), mas essa instituição é completamente desatualizada e não recebe transferências internacionais facilmente. Cobra inúmeras papeladas e demora muito tempo para aceitá-las, pois muitos dos processos ainda são manuais. Além disso, cobra altas taxas bancárias a um câmbio desfavorável. Para que o investidor envie o capital estrangeiro para o banco estatal, sem tantas perdas, o melhor caminho seria ter uma conta bancária nacional. Porém, para movimentar bastante dinheiro em conta no país, é preciso abrir uma empresa. E para ter empresa, se exige um depósito no Banco Nacional de Fomento, que não aceita muito bem as transferências internacionais. É uma questão circular bizarra, cujos contadores paraguaios, coitados, tentam explicar com cara de peixe. Uma alternativa muito utilizada é atravessar a fronteira com uma mala de dinheiro, declarar na aduana e depositar direto no banco.

Se, por um lado, o Paraguai tenta atrair empresas através de, por exemplo, a Lei Maquila que oferece condições especiais, isenção de impostos por 20 anos, dentre outras coisas, por outro, trava seu crescimento com a dificuldade e os custos de imigração, manipulação do câmbio e sistema financeiro arcaico e fechado. Além disso, fecha seu próprio mercado nacional. As empresas que se instalam no país através dessa lei, as chamadas maquiladoras, só podem vender 10% de sua produção anual dentro do Paraguai e apenas com autorização prévia do Consejo Nacional de las Industrias Maquiladoras de Exportación[2]. Vendendo para o mercado interno, perdem os benefícios fiscais, sendo obrigadas a recolher os impostos locais ordinários. Isso significa que a população paraguaia não usufrui do que é produzido em seu próprio país pelas maquiladoras ou usufrui pouco, pagando imposto. A Lei Maquila tem aparência liberal, mas é altamente protecionista: com o objetivo de proteger a indústria nacional, prejudica todos os consumidores paraguaios. O estado sempre faz juízo de valor sobre quem merece receber mais benefícios em detrimento de outros e, no caso de medidas protecionistas, decide que uma minoria vai ganhar. A liberdade de mercado é superior, pois é a própria população que, em última instância, decide quem ganha e quem perde no mercado.

Todo esse conjunto de problemas fez com que a projeção de crescimento para o ano de 2026 fosse menor que as expectativas de 6%. A própria CEPAL, com o passar dos meses, reduziu-a de 4,5% para 4,3%, variação que, por menor que seja, serve de alerta ― ainda que seu cálculo seja problemático ―, pois marca o menor crescimento desde 2023. Nos últimos anos surgiu uma valiosa janela de oportunidade para o Paraguai, mas será que essa janela continuará se nos próximos anos Brasil e Argentina retomarem o caminho da liberdade econômica? O mais espantoso é ver supostos liberais e libertários brasileiros enaltecendo o estado paraguaio, como se a incompetência na sua expansão significasse a virtude de se manter contido. O liberalismo a ser valorizado é o do povo, com seu agorismo, sua aversão às regulamentações e burocracias, sua recusa de cumprir leis incumpríveis. Muitas dessas críticas ao intervencionismo do estado não são novidades no país, mas estão na boca dos paraguaios. Algumas instituições internas como, por exemplo, o Partido Libertad y República, baseado nos princípios libertários e da Escola Austríaca, com seu conhecimento de causa nativo, faz críticas muito mais severas a todo esse intervencionismo. Isso apenas confirma que o país ainda tem um longo caminho rumo à liberdade, diferentemente do que propaga o atual estamento político. As restrições econômicas do Paraguai só provam uma coisa: todo estado mínimo sempre será máximo.


[1] Como é o caso da Empresa por Acciones Simplificadas (EAS). PARAGUAI. Ley N° 6.480/2020 “De Empresas por Acciones Simplificadas (EAS)”. Regulamentada pelo Ministério de Indústria y Comercio (MIC), estabelece expressamente a obrigatoriedade de utilização de uma boleta de depósito de garantia no Banco Nacional de Fomento (BNF) para aportes em dinheiro que superem o teto legal estabelecido. Disponível em: https://eas.mic.gov.py/Preguntas-frecuentes.

[2] PARAGUAI. Decreto nº 5.714, de 6 de abril de 2026. Por el cual se reglamenta la Ley nº 7.547/2025 “Del Régimen de Maquila”. Art. 39. Asunción: Poder Ejecutivo, 2026. Disponível em: https://www.mic.gov.py/maquila24/









publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/22498/o-falso-liberalismo-do-paraguai/

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