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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Ditadura republicana, positivismo, totalitarismo

   Ricardo Vélez-Rodríguez


Este texto pretende analisar os principais aspectos que levam à compreensão da Ditadura Republicana, proposta pelo Apostolado Positivista no início da República e retomada em outros momentos, inclusive na atual encruzilhada de ditadura do STF e do PT. Na exposição analisa-se a gênese histórico-ideológica da Igreja Positivista Brasileira, salientando as origens do messianismo político e o conteúdo doutrinário do Apostolado Positivista. No final, destaca-se o entroncamento do autocratismo positivista, nas suas visões radicais dos séculos XX e XXI, com o Totalitarismo, na famigerada “Teologia da Libertação”, pregada aos quatro ventos por Lula, o padre Boff e outros arautos da maluquice escatológica..

A “Religião da Humanidade”, fundada por Augusto Comte (1798-1857) deita raízes no fenômeno do “messianismo político”, que se consolida na obra e na escola de Claude-Henry de Saint-Simon (1760-1825). Por isso, antes de fazermos uma síntese da “Religião da Humanidade”, que constitui a vertente religiosa do Positivismo e na qual se inspirou a Igreja Positivista Brasileira, convém salientar os traços marcantes do messianismo político saint-simoniano. Na sua obra intitulada: Messianismo Político, Jacob Leib Talmon (1916-1980), da Universidade Hebraica de Jerusalem, faz uma completa caracterização do saint-simonismo como doutrina que influenciou, no decorrer do século XIX, nas restantes manifestações do fenômeno messiânico, que empolgou o pensamento de autores tão variados quanto Augusto Comte (1797-1858), Jules Michelet (1798-1874), Giuseppe Mazzini (1805-1872) e o próprio Karl Marx (1818-1883).

O conde Claude-Henry de Saint-Simon estava animado por um profundo sentimento apocalíptico, que o fazia predizer o nascimento de uma religião universal, que impusesse a organização pacífica da sociedade. À Revolução de 1789 ele tinha assistido passivamente, como observador arguto, em que pese o fato de ter sido eleito, em 1790, como presidente da assembleia eleitoral de sua comuna, o que motivou a renúncia ao título de nobreza. A Revolução Francesa (1798) não foi, no sentido do filósofo, evento regenerador, mas um espetáculo de destruição, de inútil debate e de desordem social.

Na procura de um princípio total que permitisse a explicação racional do universo, Saint-Simon termina professando uma visão determinística do homem. Nesse contexto, a sociedade é concebida como uma “verdadeira máquina organizada”, ou como um organismo que, ao longo dos tempos, criou os próprios órgãos para adaptar-se às diversas situações. A unidade inteligível da História não é nem o Estado, nem a Nação, nem a sociedade organicamente considerada. As suas forças e processos não são criação deliberada de ninguém, mas fruto do organismo social.

Analisando as mudanças ocorridas na sociedade europeia e, particularmente, na França, a partir da Revolução de 1789, Saint-Simon considera que o organismo social caminha, inexoravelmente, rumo à organização científica, com a emergência da Sociedade Industrial. Tal sociedade se caracteriza, basicamente, por duas notas: em primeiro lugar, esforço produtivo industrial e objetivo, pois os seus elementos são mensuráveis e tangíveis para todos, e o seu funcionamento é uma questão de precisão e de disciplina de caráter científico. Em segundo lugar, trata-se de uma organização com um grau máximo de integração, o que realça, justamente, o caráter orgânico da sociedade.

Logo após a morte de Saint-Simon, os seus discípulos encarregaram-se, com verdadeiro fervor religioso, de continuar a obra do mestre, instaurando a almejada Igreja. Quatro elementos podemos assinalar em relação à Igreja Saint-simoniana: a sua projeção apostólico-missionária, o componente hebraico, a presença do dogma e o autoritarismo. Convém salientar o componente hebraico da seita saint-simoniana. Os principais membros eram judeus: o primeiro apóstolo, Benjamin Olinde Rodrigues (1795-1851), matemático e banqueiro de uma família de judeus sefarditas da cidade de Bordeaux e o seu irmão mais novo, Eugênio. Outros apóstolos da seita eram os irmãos banqueiros Émile (1800-1875) e Isaac Pereira (1806-1880), Gustave D´Eichthal (1804-1886), o poeta Léon Halévy (1802-1883), Moisés Renaudet e Félicien David (1810-1876).

Talmon considera que dois fatores levaram os judeus a procurarem a seita saint-simoniana: em primeiro lugar, o messianismo político apresentado pelo mestre; em segundo lugar, a conciliação que a religião de Saint-Simon fazia entre vida espiritual e sucesso econômico. Esses dois fatores juntavam-se e geravam a esperança de fazer surgir um Estado que congregasse os judeus dispersos e que, ao mesmo tempo, lhes conferisse o papel de elite religiosa e financeira.

Um aspecto que merece ser salientado é o do messianismo que empolgava as comunidades judaicas e que teria influenciado no próprio Karl Marx (1818-1883), através da versão política saint-simoniana. O dogma formava parte essencial da nova religião. Podemos entendé-lo em duas etapas que se complementam. Em primeiro lugar, era reconhecida a existência do dogma científico, de caráter intelectual, cuja essência só poderia ser compreendida por uma classe muito reduzida, uma elite intelectual “eminentemente ativa na ordem especulativa”, que se dedicaria ao estudo das Ciências Sociais e que seria capaz de analisar o dogma científico. Essa elite comporia a “autoridade competente” que estaria incumbida do governo “da opinião”. A essa elite pertenceriam os “savants positifs” em primeiro lugar, e também os industriais. As massas só teriam uma incumbência em relação a essa elite: “renunciar à demonstração” e “aceitar a nova doutrina” como no passado, de uma forma dogmática.

Contudo, o dogma intelectual deveria se alicerçar, por sua vez, no dogma religioso, do qual depende, aliás, a aceitação do primeiro por parte do homem total, incluindo o sentimento. Mediante o dogma religioso, ou melhor, através da imposição do mesmo a todas as mentes e vontades, conseguir-se-á a unidade do todo social e a unidade final do universo.

O autoritarismo é a última característica que desejamos salientar em relação à Igreja saint-simoniana. Se o dogma científico deve estar alicerçado no dogma religioso, e se a cada dogma corresponde uma elite que regula o conteúdo dogmático ou doutrinário, é claro que este último deve ter a sua hierarquia. A lei escrita não é necessária. O “autêntico líder” é uma lei viva. E isso basta. Todo o problema radica, então, em saber quem é o líder verdadeiro. O critério, absurdamente surrealista, está muito longe do pretendido cientificismo saint-simoniano. “O autêntico líder – frisa Talmon – é aquele que sente a unidade do universo com maior intensidade do que os outros, aquele cuja fé, cheia de afirmação e de amor, lhe dá um poder excepcional, sobrenatural inclusive, para partilhar a sua experiência com os outros. É aquele que tem a capacidade mágica de unir os homens numa fé e num amor estáticos. O líder é, sobretudo, um vidente, um profeta. A sua experiência da unidade universal é tão elevada que o capacita para captar indícios proféticos em relação com o significado da época e a forma futura das coisas. A sua necessidade mais urgente, e a sua missão sagrada, é a de revelar os mistérios que lhe foram descobertos sobre os destinos sociais dos seus contemporâneos”.

Desse caráter divino e místico – absolutamente subjetivo – do líder, deriva o seu autoritarismo. Ele não será indicado por nenhum processo consensual. A sua autoridade é puramente carismática. E se autolegitima. A autoridade impõe-se por si mesma. Nem discute, nem ensina. Obriga, arrasta.

Não poderíamos terminar este item sem mencionar, ainda que rapidamente, as fontes inspiradoras da religião saint-simoniana, bem como o seu efeito mais importante: o totalitarismo. Isso nos dará uma base suficiente para avaliar a verdadeira significação da “Religião da Humanidade” de Comte, bem como a da Igreja Positivista Brasileira. O “Nouveau Christianisme” de Saint-Simon inspira-se na Religião Civil que o filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) propôs na última parte da sua obra Du Contrat Social (1762). Partindo do fato da desigualdade humana criada pela sociedade, o filósofo salienta que só no surgimento de uma Religião Civil, que unifique as mentes e as vontades ao redor do Estado, poderá ser conseguida a ordem social e política. Como Rousseau reconhece, ele é inspirado, em parte, pela proposta do poder único e indivisível em mãos do Estado, que Thomas Hobbes (1588-1679) tinha formulado na sua obra intitulada: Leviatã, ou matéria forma e poder de um Estado eclesiástico e civil (1761), para superar o estado de “guerra permanente” ou insegurança coletiva.

A pretensão rousseauniana e saint-simoniana de buscar a unidade da sociedade, sob a direção de um poder total, espiritual e temporal, é o nascedouro do totalitarismo hodierno. Por paradoxal que possa parecer – como frisou Talmon na sua obra: As origens da democracia totalitária – o totalitarismo ínsito no messianismo político surgiu, não porque a filosofia da Religião Civil rejeitasse os valores do século XVIII do individualismo liberal, mas porque, desde o começo, mantinha perante eles uma atitude perfeccionista demais, ao fazer do homem um ponto absoluto de referência. O homem tinha de ser liberado, mas não apenas das suas limitações históricas. Todas as tradições existentes, as instituições estabelecidas e as ordenações sociais, tinham de ser derrubadas e refeitas, com o único propósito de garantir ao homem a totalidade dos seus direitos e a liberdade.

Esse esforço de libertação implicou, historicamente, duas coisas: em primeiro lugar, a declaração de um estado de guerra provisório contra tudo aquilo que impedisse a liberação humana e, em segundo lugar, um “esforço por reeducar as massas, até que houvesse homens capazes de querer livremente e com plena vontade o seu verdadeiro querer”. Esse estado de guerra e esse esforço educador justificam a utilização da compulsão por parte de uma elite, que suspenderia a liberdade e manteria o estado de guerra, enquanto houvesse alguma oposição e a sociedade não fosse plenamente unificada. O jacobinismo seria, na França, a primeira manifestação dessa violência.

A evolução desse projeto de dominação global é o atual totalitarismo, cuja única meta consiste, como frisa Hanna Arendt (1906-1975), na “total dominação do homem” e cujos pressupostos são a existência de uma única autoridade, um único estilo de vida, uma ideologia em todos os países e em todos os povos do mundo. Assim, o expansionismo totalitário é a consequência imediata da dimensão universalista e avassaladora da religião salvadora, que leva a elaborar uma “ideologia total” incompatível com uma concepção matizada e não dogmática da sociedade.

Em tempos de campanha eleitoral, o pano de fundo da pregação de Lula é o velho princípío do messianismo político pregado originariamente por Saint-Simon, depois por Karl Marx e, no nosso combalido Brasil, pela Teologia da Libertação, que constituiria uma espécie de alma do “Foro de São Paulo”, criado por Lula e por Fidel Castro (1926-2016) nos anos 90 do século passado, para dar vida ectoplasmática ao comunismo, que naufragava na União Soviética e no bloco comunista. Esperamos que o eleitorado brasileiro, consciente da falsidade do messianismo político, coloque as promessas de Lula no lugar que lhes corresponde: no saco de lixo da História!

BIBLIOGRAFIA

ARENDT, Hannah. The Origins of Totalitarianism. Nova Iorque, 1951.

PENNA, J. O. de Meira. O Evangelho segundo Marx. São Paulo: Convívio, 1982.

ROUSSEAU, J. J. Du contrat social. Paris: Garnier / Flammarion, 1966.

ROUSSEAU, J. J. El origen de la desigualdad entre los hombres. (Tradução ao espanhol de Coloma Leal). México: Grijalbo, 1972.

SAINT-SIMON, C. H. de. La physiologie sociale, oeuvres choisies. (Introdução de G. Gurvitch). Paris: Presses Universitaires de France, 1965.

SAINT-SIMON, C. H. de. Le nouveau christianisme. (Introdução de H. Desroche). Paris: Seuil, 1969.

TALMON, J. L. Los orígenes de la democracia totalitaria. (Tradução ao espanhol de M. Cardenal Iracheta). México: Aguilar, 1956.

TALMON, J. L. Mesianismo político, la etapa romántica.  (Tradução ao espanhol de A. Gobernado). México: Aguilar, 1969).

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. A análise do Patrimonialismo na Literatura Latino-Americana – O Estado gerido como bem familiar. Rio de Janeiro: Documenta Histórica / Instituto Liberal, 2008.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. A ditadura republicana segundo o Apostolado Positivista. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1982. Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro.

VÉLEZ-RODRÍGUEZ, Ricardo. “Politischer Messianismus und Theologie der Befreiung”. In: Rupert Hofmann (organizador). Gottesreich und Revolution. Münster: Verlag Regensberg, 1987, pp. 57-73.

*Artigo publicado originalmente no site do autor.







publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/ditadura-republicana-positivismo-totalitarismo/

SABOR GASOLINA

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Crise na PF Explode de Vez Com Apoio a Mendonça:

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Hoje é o DISCORD. AMANHÃ é o quê?

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TSE E O ME ENGANA QUE EU GOSTO

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ISSO É O QUE ACONTECE QUANDO....

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ESTA ELEIÇÃO PODE SER O FIM DO PODER DE LULA

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POBRE É PREGUIÇOSO?

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Haddad e Tarcísio debatem Cracolândia

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Moraes É Detonado Por Todo Mundo: Veja as Críticas!

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O que é o burguês socialista e como ele age na política

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

  Adriano Dorta


Em 8 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou uma PEC que altera o cálculo do IPVA, limitando sua alíquota a 1% do valor do veículo, em vez de se basear no valor de mercado. A proposta visa a beneficiar todos os contribuintes, reduzindo o imposto, mas prejudica a arrecadação dos Estados. 

Em 8 de julho, a Câmara dos Deputados em Brasília aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para alterar como é calculado o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). Atualmente, o IPVA é cobrado pelos Estados com base no valor de mercado dos veículos, as alíquotas variam de acordo com cada Estado e costumam ficar entre 1% e 4%. A intenção da PEC é mudar a forma de calcular o imposto. Além disso, também não poderá ultrapassar 1% do preço do veículo. O texto é de autoria do deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) e o relator é o deputado Rodrigo de Castro (União Brasil-MG).

A medida é boa para toda a população, desde os ricos até os mais pobres. Ela só é ruim para alguém: a coisa. “A coisa” é o Estado. Essa mudança afeta negativamente os Estados e suas arrecadações. Atualmente, o IPVA é cobrado com base na tabela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). A tabela Fipe é o principal índice do mercado automotivo brasileiro que expressa o preço médio cobrado por veículos (carros, motos, caminhões e micro-ônibus) no mercado nacional. Essa é uma forma que o governo achou para nunca perder arrecadação. Quando os preços dos produtos sobem de forma generalizada na economia (inflação), o custo dos carros novos dispara. Esse movimento gera um efeito dominó: a demanda por veículos seminovos e usados cresce, provocando uma valorização artificial desses automóveis no mercado.

Como o IPVA é uma porcentagem fixa sobre o preço venal do bem, se o preço do carro sobe na Tabela Fipe, o valor final do imposto aumenta na mesma proporção. O contribuinte acaba pagando um IPVA mais caro por um carro mais velho. O governo lucra sobre a inflação repassada aos preços dos automóveis, elevando a arrecadação acima do índice inflacionário oficial. Essa dinâmica gera um incentivo perverso de busca e manutenção de carros mais velhos e mais baratos. Alguns proprietários acabam optando por continuar possuindo carros com 20 ou mais de fabricação por conta da sua isenção de IPVA.

Segundo o relator, a PEC vai gerar uma redução para todos que pagam esse imposto. Como exemplo, o relator usou o Estado pelo qual foi eleito (MG), para apontar uma redução de até 75% no IPVA. Isso significa que uma pessoa que paga mil reais pode passar a pagar apenas R$ 250. Essa notícia deveria ter sido recepcionada com alegria pelo contribuinte, mas a verdade é que nem depois de três anos com governo Lula 3 aumentando impostos essa PEC conseguiu agradar a todos.

Muitas reações na internet foram em defesa da “arrecadação do Estado” ou na crítica aos ricos e os valores pagos por eles. Para alguns, a diminuição dos impostos para os pobres não foi vista de forma positiva porque também diminuiu para os ricos.


 

A resistência de parte dos internautas contra a PEC que reduz o IPVA revela um curioso fenômeno de ressentimento. Ao preferirem manter uma carga tributária sufocante sobre si mesmos apenas para garantir que os mais ricos não paguem menos, essas pessoas reproduzem a exata atitude de Stephen, o escravo do filme Django Livre. Na obra de Tarantino, Stephen (interpretado por Samuel L. Jackson) não canaliza sua energia para questionar o sistema que o escraviza, mas sim para combater a liberdade de Django Freeman (interpretado por Jamie Foxx).

A história do filme se passa numa época em que a escravidão do homem sobre outro homem era uma atitude normal. Porém, um caçador de recompensas alemão chamado Dr. King Schultz (interpretado por Christoph Waltz), que abomina a escravidão, faz um acordo: Django ajuda o caçador a achar os foras da lei, e então ele será um homem livre.

Em certa parte do filme, Django e Schultz chegam à fazenda Candyland, onde o proprietário e escravagista Calvin Candie (interpretado por Leonardo DiCaprio) reside. É lá que vemos Stephen, o chefe dos escravos domésticos da propriedade. Stephen desenvolveu uma lealdade cega ao seu senhor branco e ao sistema escravista; ele goza de pequenos privilégios dentro da casa grande, mas continua sendo um escravo. Ele não luta por sua própria libertação, mas se torna o maior inimigo de outro homem negro que busca ser livre, agindo como o protetor da estrutura que o oprime.

Essa atitude fica clara quando os dois personagens se encontram no filme pela primeira vez. Assim que Stephen vê Django montado em um cavalo e usando roupas finas, ele fica enfurecido. Ele não questiona o seu senhor o porquê de um preto ser livre, ele questiona o porquê de Django não ser um escravo como ele.

Para o personagem interpretado por Samuel L. Jackson não seria um problema se todos os negros permanecessem escravizados. O que ele não suporta é que um deles tenha “escapado” da condição que ainda o aprisiona. Em vez de desejar “escapar”, Stephen deseja impedir que outros “escapem”. Esse é o mesmo pensamento em parte das reações à redução do IPVA. Os ressentidos que terão uma parcela maior da renda nas suas próprias mãos passam a considerar preferível que ninguém seja beneficiado a verem que os ricos também irão se beneficiar.

Esse radicalismo igualitário se sobrepõe ao bem-estar. Já não se pergunta se os pobres estarão em melhor situação, mas se os ricos vão estar em pior situação. Se todos perderem, mas os ricos perderem mais, considera-se o resultado justo. Se todos ganharem, mas os ricos ganharem também, então o resultado é injusto. Parte da sociedade contemporânea busca a igualdade a qualquer custo, mas não entende que liberdade e igualdade são impossíveis de serem conquistadas sem autoritarismo.

Adaptando o experimento mental usado pelo filósofo político Robert Nozick para os padrões culturais do Brasil, imagine uma sociedade ideal onde o governo conseguiu estabelecer a igualdade perfeita: todos começam com a mesma quantia exata de dinheiro no bolso. Então, começa a temporada de futebol e o Neymar Jr. assina um contrato estipulando que, de cada ingresso vendido, 25 centavos vão direto para ele. Ao longo do ano, um milhão de pessoas vão voluntariamente ao estádio e pagam esse valor extra com alegria para ver o ídolo jogar. No final do campeonato, as pessoas continuam com a liberdade que tinham, mas Neymar Jr. agora está 250 mil reais mais rico. O padrão de igualdade inicial foi quebrado.

Nozick pergunta: quem foi prejudicado? Ninguém. A desigualdade surgiu puramente da liberdade de escolha das pessoas em gastar o próprio dinheiro. A única maneira de o Estado reestabelecer a igualdade original seria intervindo brutalmente na vida dos cidadãos ao confiscar o dinheiro legítimo do jogador, regulando os pagamentos de salários no setor desportivo ou até proibindo pessoas de comprarem ingressos. Os igualitários radicais contemporâneos preferem que o chicote tributário bata em todos, sob um pretexto de justiça social fictícia, mesmo que o preço dessa igualdade seja o sacrifício financeiro de toda a população.

Enquanto o debate público for pautado pelo ressentimento e não pela busca de prosperidade, o Brasil continuará preso ao mesmo ciclo. O progresso de uma nação não acontece sufocando os que estão em cima, mas libertando os que estão embaixo. Enquanto parte da população preferir manter o cabresto estatal para garantir que o vizinho rico também seja domado, o país continuará assistindo, na vida real, ao triste espetáculo de homens dominados que esqueceram o sabor da liberdade, cavalgando lado a lado com o escravo Stephen.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.















publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/a-arte-imita-a-vida-ou-a-vida-imita-a-arte/

O STF está interferindo na disputa presidencial?

   Lucas Berlanza 


O jornalista William Waack escreveu, em artigo publicado no Estadão intitulado “A marcha dos encrencados”, que um grupo de integrantes do STF está operando para beneficiar a reeleição de Lula por entender que ela lhes dá “melhor chance de sobrevivência”. A estratégia tem duas frentes.

A primeira é a tentativa de “controlar”, isto é, atrapalhar as investigações da Polícia Federal relativas ao caso Master, ao INSS e ao filho de Lula. Waack adverte que é muito difícil conter totalmente a PF, que também responde a vários mestres, estando dividida “entre lealdade políticas diversas”.

Porém, tais ministros do STF tentam prejudicar o colega André Mendonça, relator do caso Master e visto hoje como a principal ameaça a seus interesses, e acreditam que já há, no âmbito da PF, amplo material coletado para solicitar uma investigação contra especificamente Alexandre de Moraes, de modo que pretendem garantir que não seja formada maioria no próprio tribunal para autorizar o eventual processo.

De outro lado, os ministros teriam feito uma verdadeira chantagem com um “enroladíssimo cacique de partido” prometendo “poupá-lo de dissabores” caso Tereza Cristina, senadora pelo PP, não concordasse em ser vice na chapa presidenciável de Flávio Bolsonaro. Interferiram, portanto, segundo Waack, em negociações políticas, prometendo, em outras palavras, modular a aplicação da lei de acordo com suas próprias conveniências. O jornalista admitiu que já há quem cogite, em Brasília, práticas de desobediência civil, como a recusa ao cumprimento de ordens dos togados.

Waack é um jornalista acima da média no país, mas gostaria que dissesse certas coisas mais às claras. Mais transparente seria dizer que isso não é uma democracia, e já basta desse teatro de ficarmos comentando as coisas como se fosse. Que aspecto desse cenário descrito faz sentido em um regime democrático no sentido moderno, “liberal-democrático” do termo? Continuo cobrando que me expliquem onde está a democracia brasileira. Só se for a democracia de Robespierre.














publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/o-stf-esta-interferindo-na-disputa-presidencial/

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