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sábado, 12 de setembro de 2026

Fim da linha para Alexandre de Moraes

 MARLONREGUELIN


Relação estreita com Vorcaro põe o ministro diante da maior crise desde que chegou ao Supremo.

Há casos que se acumulam devagar, como sedimento, até que um dia a carcaça simplesmente cede. O que está acontecendo com o ministro Alexandre de Moraes nesta primeira semana de setembro é exatamente isso: não uma revelação isolada, mas o desabamento de uma estrutura pútrida que já vinha rachada havia meses — e que, esta semana, finalmente, não resistiu mais ao próprio fardo.

Quem acompanha com atenção o noticiário sabe que o caso Moraes/Vorcaro não nasceu esta semana. Em junho, quando a Polícia Federal rejeitou pela segunda vez a proposta de delação premiada do ex-controlador do Banco Master, esta Oeste já registrava, em texto do colunista Flávio Gordon, uma frase que hoje soa quase profética: “O nome que não aparece na delação é o mais importante da República”.

Naquele momento, já eram conhecidos os contornos do contrato de R$ 129 milhões — hoje sabemos que foram, na verdade, R$ 131 milhões — entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Já se aventava, também, um segundo contrato, no valor de outros R$ 50 milhões, cujos detalhes ainda “engatinhavam nas sombras”, nas palavras do próprio colunista.

Na mesma leva de reportagens, soube-se que a própria proposta de delação de Vorcaro — rejeitada pela PF por insuficiência de provas — já mencionava Moraes diretamente, com o banqueiro admitindo que o contrato milionário buscava “estreitar relações” com o ministro.

Ou seja: o próprio investigado, em documento oficial submetido às autoridades, já apontava para o gabinete mais poderoso do país. E, mesmo assim, o processo seguiu seu curso normal, sem sobressaltos, como se a informação simplesmente não existisse.

A semana em que as sombras se dissiparam

O que mudou na última terça-feira, 1º, foi a quantidade e a qualidade do material que veio à tona, depois que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, decidiu retirar o sigilo de um conjunto de mensagens recuperadas no celular de Vorcaro. E o que se revelou não deixa mais margem para o benefício da dúvida que a Corte vinha, até então, generosamente concedendo a si mesma.

Primeiro: os metadados do próprio arquivo do contrato de R$ 131 milhões — sim, o mesmo cujo objetivo, segundo o próprio Vorcaro, era “se aproximar” de Moraes — mostram que o documento foi pessoalmente editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, cerca de uma hora e pouco depois de o banqueiro devolver a minuta com alterações.

Não se trata mais de “acesso” ao contrato, como alegava a nota inicial do escritório de Viviane. Trata-se de edição direta, pela digital do próprio ministro, da peça contratual que definiria o pagamento milionário à família dele.

Segundo: veio à luz um segundo contrato, de R$ 50 milhões, firmado com a holding Viking Participações — ligada a Vorcaro —, no qual parte substancial do pagamento seria feita não em dinheiro, mas em cotas de duas aeronaves: um jato Legacy 650 e um helicóptero Airbus EC 155 B1. Segundo o relatório da PF, essas mesmas aeronaves já estavam sendo utilizadas pelo casal Moraes meses antes da formalização.

Terceiro, e talvez o mais visceral: as mensagens em que Vorcaro, dois dias antes de ser preso, perguntou a Moraes, sem qualquer constrangimento, “acha que segunda já tenho que estar fora?” — numa clara tentativa de antecipar sua fuga do país — e a mensagem de gratidão enviada horas depois de um encontro na casa do próprio banqueiro: “Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros e amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com sua família”.

“Dívida de vida”, nesse caso, não soa como uma carta-testamento à la Getúlio Vargas, tampouco carrega a grandiloquência histórica de uma despedida solene. Pelo contrário, é o retrato cru do homem que tratava um ministro do Supremo Tribunal Federal como seu jurisconsulto pessoal.

O consenso da vergonha

Se há uma métrica que resume o tamanho do estrago, é a velocidade e a amplitude com que a imprensa brasileira — inclusive setores historicamente favoráveis ao ministro — reagiu.

Na terça-feira, em editoriais publicados quase simultaneamente, o Estadão declarou que Moraes “não tem mais condições de seguir” no STF; a Folha de S.Paulo, em texto intitulado “A Moraes cabe a renúncia”, afirmou não haver “mais lugar” para o ministro na Corte e defendeu a renúncia como solução “mais digna e rápida”; a Gazeta do Povo foi além, defendendo a abertura imediata de impeachment.

Até O Globo — dificilmente suspeito de simpatia pela direita — cobrou explicações “convincentes” e questionou se caberia a Moraes esclarecer quem seriam o “Andrei” e o “Paulo” citados nas mensagens de Vorcaro, numa referência mal disfarçada ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Não é pouca coisa que quatro dos principais jornais do país — em posições historicamente distintas quanto ao papel do STF na vida nacional — convirjam, no mesmíssimo dia, para a mesma conclusão prática. Quando Estadão, Folha, Gazeta do Povo e O Globo discordam sobre quase tudo, menos sobre isso, é porque não sobrou mais espaço para narrativas frívolas.

A política também reagiu — e o número é constrangedor

No Congresso, o desconforto atingiu um patamar que o próprio presidente do Senado já não consegue mais disfarçar como rotina. Também na terça-feira, Davi Alcolumbre reconheceu publicamente que tramitam 109 (!!!) pedidos de impeachment contra ministros do STF, boa parte deles direcionados a Moraes — “isso não é normal”, admitiu, ainda que tenha evitado comentar diretamente as revelações mais recentes, o que é sintomático da relação pouco republicana entre os atores das duas Casas.

No mesmo dia, a senadora Damares Alves anunciou novo pedido de afastamento, somando-se a outros protocolados horas antes. Flávio Bolsonaro declarou que “não dá mais para se omitir”. O partido Novo apresentou notícia-crime contra o ministro. E parlamentares de oposição foram além, cobrando também a demissão do diretor-geral da PF.

Mesmo Renan Santos — cuja própria candidatura foi suspensa pelo TSE em decisão de Dias Toffoli — não perdeu a oportunidade de declarar, com a autoridade de quem sofreu na pele o outro lado dessa mesma balança desequilibrada, que “Moraes tem de ser preso”.

O fim, quando finalmente chega

Não é exagero, nem sequer entusiasmo político prematuro, dizer que Alexandre de Moraes chegou ao fim da linha. O que temos hoje não é mais suspeita, insinuação ou teoria — é um contrato editado pelas próprias mãos do ministro, uma segunda e multimilionária relação financeira paga em jatos e helicópteros, mensagens de um banqueiro em pânico buscando proteção junto ao mais poderoso magistrado do país e uma imprensa nacional, da esquerda à direita, unida na conclusão de que essa permanência tornou-se insustentável.

Resta saber se, desta vez, as instituições terão a coragem de extrair as consequências óbvias dos fatos que elas mesmas documentaram — ou se a história vai se repetir, com a mesma “pizza” de sempre sendo servida, quentinha, generosa e repugnante, no plenário do partido-corte.

A resposta que a decência exige já é conhecida. O que ainda não se sabe é se a Corte e o Congresso terão coragem de entregá-la.

*Marlon Reguelin é empreendedor. 









PUBLICADAEMhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/justica/fim-da-linha-para-alexandre-de-moraes/

O PT, os banqueiros e 30 anos de balanços inconvenientes

  André Burger


Em março de 2002, poucos meses antes de ser eleito presidente da República, Lula escreveu que eram “inacreditáveis os extraordinários lucros dos bancos no nosso país”. Oito dias depois, voltou ao tema, referindo-se à “lucratividade absurda dos bancos” brasileiros. A crítica fazia parte da narrativa econômica com que o PT chegava à sua quarta disputa presidencial: juros elevados, rentismo e um sistema financeiro beneficiado pela política econômica de Fernando Henrique Cardoso.

Ricardo Berzoini, então deputado federal e posteriormente presidente nacional do PT, seguia a mesma linha. Comentando o lucro dos bancos em 2001, escreveu que “o lucro recorde dos bancos destoa da realidade da economia nacional” e atribuiu ao governo FHC a defesa dos interesses de um setor privileged. Não havia muita ambiguidade: os bancos ganhavam muito e a responsabilidade, segundo o discurso petista, era do modelo econômico vigente.

Então Lula ganhou a eleição. Quatro anos depois, já candidato à reeleição, seu discurso seria curiosamente diferente. Em julho de 2006, declarou: “Banqueiro não tinha por que estar contra o governo, porque os bancos ganharam dinheiro”. Lula acrescentou que preferia bancos lucrativos a ter de socorrê-los com um programa como o Proer. Entre a “lucratividade absurda” de 2002 e o reconhecimento de que “os bancos ganharam dinheiro” em 2006, há uma mudança além da retórica. Os números do Banco Itaú ajudam a contar essa história.

Lula, Itaú e FHC

Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência em 1995, o Itaú era uma instituição muito menor que o atual Itaú Unibanco.

Naquele ano, seu lucro líquido ficou próximo de R$ 400 milhões, algo equivalente a aproximadamente 0,06% do PIB brasileiro.

O Banco cresceu significativamente durante os oito anos de FHC. Em 2002, último ano daquele governo, o lucro já estava próximo de R$ 2,4 bilhões, equivalente a cerca de 0,16% do PIB. O Plano Real, a estabilização monetária e a profunda reorganização do sistema financeiro brasileiro produziram um ambiente onde os bancos sobreviventes se tornaram maiores, mais eficientes e mais rentáveis. Nesse contexto, Lula, ainda candidato, falava na “lucratividade absurda dos bancos”. Pois é interessante observar o que aconteceu depois que ele chegou ao poder.

A lucratividade absurda

No primeiro ano de Lula, o Itaú lucrou aproximadamente R$ 3,2 bilhões. Em 2005 foram mais de R$ 5 bilhões. Em 2007, cerca de R$ 8,5 bilhões. Em 2010, último ano de Lula II, o resultado ultrapassou R$ 13 bilhões. Mais importante que o crescimento nominal foi a rentabilidade. Entre 2003 e 2007, o retorno sobre patrimônio do Itaú foi, respectivamente, de 29,7%, 29,2%, 35,3%, 28,8% e 32,1%. Eram retornos extraordinários para uma instituição financeira daquele porte. E isso ocorreu antes que a incorporação do Unibanco, anunciada em 2008, pudesse explicar o crescimento pelo simples aumento de tamanho e pela captura das sinergias decorrentes desse processo.

O fenômeno não passou despercebido na época. Em agosto de 2003, apenas sete meses depois da posse de Lula, levantamento da consultoria especializada Austin Asis mostrava que doze dos maiores bancos brasileiros haviam produzido no primeiro semestre lucro superior ao de qualquer primeiro semestre dos oito anos de FHC. Em 2006, outro levantamento mostrava que o lucro líquido semestral dos cinco maiores bancos havia aumentado 132,5% desde o início do governo Lula. Talvez por isso Lula tenha sido tão pragmático ao explicar naquele ano por que os banqueiros não deveriam estar contra seu governo: eles estavam ganhando dinheiro.

Quando Lula chegou ao Planalto, em 2003, o Itaú nem sequer era o maior Banco brasileiro. Por ativos, ocupava a quarta posição, atrás de Banco do Brasil, Caixa e Bradesco. Cinco anos depois, já no segundo mandato de Lula, a incorporação do Unibanco criou o maior banco do país, com mais de R$ 575 bilhões em ativos. A liderança seria recuperada pelo Banco do Brasil em 2009, mas a transformação já estava feita: o Itaú que entrara na era Lula atrás dos grandes bancos públicos e do Bradesco saía dela convertido em um dos gigantes do sistema financeiro brasileiro.

O Itaú e o Brasil

Comparar lucros nominais ao longo de três décadas não é suficiente. A inflação, o crescimento econômico, aquisições e a própria expansão do Banco tornam R$ 1 bilhão em 1995 algo completamente diferente de R$ 1 bilhão em 2025. Uma maneira mais interessante de observar o fenômeno é comparar o lucro anual do Itaú com o PIB brasileiro do mesmo ano. O resultado ao longo de 30 anos é o seguinte:

AnoMandato eleitoralLucro Itaú (R$ bi)Lucro/PIB
1995FHC I0,400,057%
1996FHC I0,600,070%
1997FHC I0,720,076%
1998FHC I0,880,088%
1999FHC II1,870,172%
2000FHC II1,840,154%
2001FHC II2,390,182%
2002FHC II2,380,160%
2003Lula I3,150,183%
2004Lula I3,780,193%
2005Lula I5,250,242%
2006Lula I6,200,257%
2007Lula II8,470,312%
2008Lula II7,800,251%
2009Lula II10,070,302%
2010Lula II13,320,343%
2011Dilma I14,620,334%
2012Dilma I13,590,282%
2013Dilma I15,700,294%
2014Dilma I20,240,350%
2015Dilma-Temer23,360,390%
2016Dilma-Temer21,640,345%
2017Dilma-Temer24,000,364%
2018Dilma-Temer24,980,357%
2019Bolsonaro26,580,360%
2020Bolsonaro18,910,248%
2021Bolsonaro24,990,277%
2022Bolsonaro29,410,292%
2023Lula III33,110,303%
2024Lula III41,090,349%
2025Lula III44,860,352%

Para esta comparação, foi utilizado o PIB nominal calculated pelo IBGE. Em 2025, por exemplo, o produto brasileiro ficou próximo de R$ 12,7 trilhões. A tabela conta uma história interessante.

Mudança de patamar

A evolução do lucro do Itaú em relação ao PIB ao longo de diversos governos é a seguinte:

MandatoLucro Itaú/PIB médio
FHC I0,073%
FHC II0,167%
Lula I0,219%
Lula II0,302%
Dilma I0,315%
Dilma-Temer0,364%
Bolsonaro0,294%
Lula III (2023–2025)0,335%

Do primeiro mandato de FHC até o mandato iniciado pela chapa Dilma-Temer, observa-se uma participação média do lucro do Itaú no PIB superior à do período anterior. A sequência somente é interrompida por Bolsonaro, quando a média cai para 0,294%. Com Lula novamente no Planalto em 2023, volta a subir para 0,335% nos três primeiros anos.

Há uma ressalva necessária sobre 2015–2018. Michel Temer rompeu politicamente com Dilma e com o PT, assumiu a presidência depois do impeachment e conduziu uma política econômica distinta da anterior. Seria incorreto chamar o seu governo de petista. Mas também seria incorreto esquecer que Dilma Rousseff e Michel Temer foram eleitos conjuntamente em 2010 e reeleitos em 2014.

Por isso, para fins desta comparação, 2015–2018 é tratado como o mandato eleitoral da chapa Dilma-Temer, registrando-se, evidentemente, a ruptura política ocorrida em 2016. Agrupando os períodos, a diferença chama atenção:

PeríodoLucro Itaú/PIB médio
FHC, 1995–20020,120%
Mandatos PT, 2003–20180,300%
Bolsonaro, 2019–20220,294%
Lula III, 2023–20250,335%

Durante os oito anos de FHC, portanto, o lucro anual do Itaú correspondeu, em média, a aproximadamente 0,12% do PIB brasileiro. Nos dezesseis anos seguintes, correspondentes aos quatro mandatos conquistados pelo PT, a média foi de aproximadamente 0,30%. No Lula III, até 2025, a média está em 0,335%, quase três vezes a média observada no período FHC.

Isso não prova que o PT tenha causado essa rentabilidade, mas torna difícil sustentar que a presença do partido no poder represente um ambiente econômico hostil aos bancos e, em especial, ao Itaú.

Os números não mentem

Logo após o término do segundo mandato de Lula, a Economatica fez uma comparação entre os oito anos de FHC e os oito de Lula. Para tornar a comparação do Itaú mais adequada diante da incorporação do Unibanco, considerou as duas instituições separadamente. Em valores corrigidos pela inflação, o lucro acumulado teria passado de R$ 29,9 bilhões durante FHC para R$ 75,6 bilhões durante Lula. Crescimento real de 152,8%. As ações do Itaú-Unibanco se valorizaram 729% durante os oito primeiros anos de Lula.

O levantamento mais amplo da Economatica, envolvendo nove bancos, chegou a um resultado ainda mais impressionante: R$ 30,7 bilhões de lucro real durante FHC contra R$ 199,4 bilhões durante Lula. O assunto chegou ao plenário do Senado. Ao apresentar os números, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou que os nove bancos analisados haviam lucrado 550% mais nos oito anos de Lula do que nos oito anos de FHC. Em aparte, a então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) não contestou os números, apenas argumentou que os bancos haviam lucrado mais porque as empresas brasileiras, de maneira geral, também haviam aumentado sua lucratividade. É uma explicação perfeitamente possível, que ajuda a explicar por que os bancos prosperaram durante Lula, mas não contesta que tenham prosperado.

Há um episódio interessante anterior à eleição de 2002. Enquanto parte do mercado demonstrava temor diante da perspectiva de uma vitória petista, Roberto Setubal, então presidente do Itaú, mostrava-se tranquilo. Em setembro de 2002, declarou diante de investidores nos Estados Unidos: “Lula será o próximo presidente do Brasil; não tenho nenhuma dúvida disso.” Setúbal descrevia Lula como racional e dizia acreditar que a comunidade empresarial estava preparada para apoiá-lo. E fez uma previsão: “Estou consciente de que teremos uma transição suave.”

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.












publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/o-pt-os-banqueiros-e-30-anos-de-balancos-inconvenientes/

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