Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A verdade oficial de Lewandowski

   Lexum 


O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, afirma, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, que vivemos a era da pós-verdade, marcada pela disseminação de notícias falsas e pela manipulação da opinião pública. O diagnóstico é sedutor, embora incompleto. E o texto não se detém no diagnóstico. Recomenda que os cidadãos utilizem “apenas canais oficiais e fontes confiáveis para formar sua convicção”, e o advérbio faz todo o trabalho. Daí, portanto, a pergunta que não pode ser ignorada: quem decidirá o que é verdade?

O primeiro reparo é histórico. A mentira não nasceu com a internet, e tampouco a sua produção em escala. Nos anos 30, Assis Chateaubriand tentou três vezes comprar o Laboratório Lomba, do Rio de Janeiro, fabricante das Pílulas Vitalizantes e do Cálcio Glicosado, concorrentes dos produtos que havia adquirido pouco antes. Ernani Lomba recusou as três ofertas. Foi então que o Diário da Noite passou a publicar casos de envenenamento atribuídos aos remédios do concorrente, um técnico em química morto da forma mais violenta, uma mulher desmaiada após a injeção, um garoto morto depois de ingerir as pílulas, sete casos em uma única semana. Como relata Fernando Morais em Chatô, o Rei do Brasil, os supostos envenenamentos se multiplicaram como um dominó, e Lomba recorreu à Justiça quando o estrago em suas vendas já não admitia reparação em sentença. Antes dele, panfletos falsos marcaram a Reforma Protestante, e depois vieram a propaganda de guerra e os sofisticados aparelhos de desinformação dos regimes totalitários. A mentira é um velho problema da humanidade, e o que mudou foi apenas a tecnologia que permite sua circulação.

Repare em como a história termina. Morais registra que ninguém nunca soube se os fatos efetivamente aconteceram, porque a produção das reportagens era controlada por Chateaubriand em pessoa. Não houve desmentido nem reparação. Os sinais da fraude estavam disponíveis a quem os procurasse, os necrotérios sem corpos, os hospitais sem doentes e o silêncio dos demais jornais, inclusive de O Jornal, da própria rede de Chateaubriand. Nada disso circulou com força suficiente para deter a campanha. A mentira venceu.

E venceu por concentração. Em uma cidade onde um só homem decidia o que se publicava, a informação dispersa que contradizia as reportagens não encontrou quem a amplificasse. Daí não se extrai a necessidade de um certificador da verdade, e sim de mais vozes independentes, o que fica evidente ao se perguntar quem ocuparia esse posto. Chateaubriand foi aliado de governos, senador da República e embaixador em Londres. Se em 1935 alguém houvesse recomendado ao cidadão formar convicção apenas em canais oficiais e fontes confiáveis, os Diários Associados estariam na lista.

O segundo reparo diz respeito à autoridade invocada. O artigo convoca Hannah Arendt, como fundamento para a tese, e a convocação se volta contra quem a fez. A obra Origens do Totalitarismo é o diagnóstico daquilo que os regimes de força fazem com a verdade factual, jamais um mandato para que o poder público a tutele. Em Verdade e Política, Arendt sustenta que a verdade dos fatos é frágil justamente porque depende de testemunho plural, disperso e independente, e que o governo figura entre os últimos candidatos ao posto de seu guardião, porque a política opera no registro da persuasão e da opinião, terreno em que o fato sempre foi hóspede incômodo. Convocá-la para recomendar canais oficiais é usar o alarme de incêndio como fósforo.

O terceiro reparo diz respeito às categorias. O artigo sustenta que o debate democrático depende de um conjunto básico de fatos sobre os quais não pairem dúvidas, sem que aos eleitores seja lícito tergiversar quanto à sua ocorrência na realidade concreta. Licitude é vocabulário de imputação. Dizer que o erro sobre fatos é ilícito equivale a enunciar o pressuposto do delito de opinião, porque alguém precisará determinar qual era o fato e a partir de que momento o discordante deixou de estar equivocado para passar a estar em falta.

Mencken escreveu, em 1922, que “o homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela”, porque “a verdade não é coisa que rola por aí, como dinheiro trocado, e o menor átomo dela representa a amarga labuta e agonia de algum homem”. A frase serve de advertência a quem se proponha a certificá-la por ofício. A resposta ao problema da mentira, além disso, não pode ignorar três obstáculos fundamentais descritos por Randy Barnett em The Structure of Liberty.

O primeiro é o problema do conhecimento, desenvolvido por Hayek. O conhecimento relevante para a ação nunca existe em forma concentrada ou integrada, apenas como fragmentos dispersos, incompletos e frequentemente contraditórios que os indivíduos separadamente possuem. Quem afirma que havia fila naquela seção eleitoral, ou que o repasse chegou ao hospital do município, sabe algo que nenhuma autoridade central sabe, e cuja verificação depende de outros que também sabem apenas em parte. Um certificador de veracidade precisaria dispor de conhecimento distribuído entre milhões de pessoas que não o comunicaram e em boa medida não conseguiriam comunicar. A pretensão de centralizar esse julgamento repete o erro que Hayek denunciou, o de acreditar que alguém pode saber o suficiente para decidir por toda a sociedade.

O segundo é o problema do interesse. Ainda que alguém pudesse conhecer toda a verdade, permaneceria a pergunta sobre seus incentivos. Madison advertiu, no Federalista nº 10, que a ninguém se permite ser juiz em causa própria, porque seu interesse enviesaria o julgamento e, não improvavelmente, corromperia sua integridade. Aplique-se a lição ao caso. Em outubro, as afirmações sobre gestão, orçamento, segurança pública e resultados de políticas serão justamente as afirmações em disputa. Recomendar que a convicção do eleitor se forme em canais oficiais é convidar uma das partes a certificar a prova sobre a qual será julgada.

Por fim, o problema do poder. Concedida a alguém a autoridade para definir oficialmente o que é verdadeiro, cria-se um instrumento extraordinariamente perigoso, e o risco deixa de ser a circulação de mentiras privadas para se tornar a imposição de verdades oficiais. Mentiras respaldadas pelo Estado sempre foram mais devastadoras do que mentiras espalhadas por particulares. Acrescente-se que esse poder não permanece nas mãos de quem o instituiu nem conserva as intenções de quem o inaugurou.

O constituinte de 1988 conhecia esse risco de perto. Escreveu sob memória fresca do AI-5 e dos aparatos de controle da palavra, protegeu a manifestação do pensamento no artigo 5º, IV, IX e XIV, conferiu-lhe estatura de cláusula pétrea e, no artigo 220, §2º, vedou toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. A fórmula não convida à ponderação. Fecha a porta. E o constituinte sabia que os pretextos para reabri-la seriam sempre nobres, porque foi contra a nobreza dos pretextos que legislou.

Convém lembrar, ainda, onde o mecanismo já está instalado. Ao afirmar que cumpre denunciar conteúdos enganosos às plataformas e às autoridades, o artigo confere roupagem de dever civil ao regime que o Supremo Tribunal Federal criou ao esvaziar o artigo 19 do Marco Civil da Internet, substituindo a exigência de ordem judicial específica pela notificação extrajudicial. Aquele dispositivo dizia com clareza que somente um juiz, em caso concreto, com objeto definido e contraditório, poderia determinar a retirada de conteúdo. A Corte não devolveu a questão ao Congresso. Criou um regime que nenhuma lei previu. A atribuição e dever do Judiciário é dizer o que a lei é, não o que ela deveria ser.

É justamente por isso que o constitucionalismo existe, não para encontrar governantes suficientemente sábios para decidir tudo por todos, e sim para limitar o poder daqueles que governam. O Direito deve desconfiar menos da liberdade dos cidadãos e mais da concentração de poder nas mãos dos intérpretes.

O verdadeiro debate, portanto, não é se existem notícias falsas. Elas sempre existiram, e Ernani Lomba sofreu na pele antes de qualquer algoritmo. A questão decisiva é outra, e diz respeito a quem terá autoridade para dizer o que é verdade. Antes de responder, é preciso enfrentar os três problemas que Hayek e Barnett identificaram, o conhecimento, o interesse e o poder. Ignorá-los é substituir o risco da mentira pelo risco, muito maior, da verdade oficial. Orwell deu à repartição encarregada de administrar o passado, em 1984, o nome de Ministério da Verdade, e a escolha do nome era o ponto. Quem recebe a custódia da verdade não precisa mentir. Basta certificar.

*Leonardo Corrêa — sócio de 3C LAW | Corrêa & Conforti Advogados, com LL.M pela University of Pennsylvania, Cofundador e Presidente da Lexum e autor do livro “A República e o Intérprete — Notas para um Constitucionalismo Republicano em Tempos de Juízes Legisladores”.








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“Desvalorização da inteligência”

  Afonso Pires Faria


   No início do século passado, um empreendedor, mesmo tendo pouco estudo, poderia obter sucesso nos seus empreendimentos. Naquele tempo, isso dependia muito de sua perspicácia. Pessoas que tinham mais estudos e conhecimentos geralmente eram guindadas a cargos mais importantes. Existiam também aqueles que já herdavam fortunas ou cargos e, por isso, não lhes era exigido muito esforço para se manterem bem estabelecidos. Os tempos evoluíram e hoje dificilmente uma pessoa com poucos conhecimentos consegue obter sucesso nos negócios. O conhecimento é imprescindível para que se faça a boa administração de uma empresa.

Na política não era diferente. Os vereadores, prefeitos, deputados e senadores muito dificilmente não tinham conhecimentos bem acima da média da população. Mas estas exigências parecem não fazer mais sentido na nossa realidade. Começamos por ver vereadores sendo eleitos por serem figuras folclóricas e até louvadas por seu pouco conhecimento, mas de "boa paz". Eram elevados ao cargo e conseguiam se manter por terem alguém com mais conhecimentos que os assessorava. Não demorou muito e estes personagens obtiveram cargos mais importantes: prefeitos, deputados e, em estados menos civilizados, até a senadores chegaram.

Um presidente da República, para ser eleito, deveria preencher certos requisitos para se habilitar ao cargo: qualidades e conhecimentos bem acima daqueles que ele vai governar. Um rei não é eleito. Não precisa demonstrar ao povo que tem condições de exercer o cargo. Este é herdado; portanto, independentemente de ter ou não conhecimentos atinentes ao cargo, lá ele estará se for o herdeiro. Não precisa, portanto, se esforçar para isso. D. Pedro II falava vários idiomas, conhecia botânica, física e estudava muito. Traduzia obras clássicas, como a Odisseia, do grego para o português; fazia comparações com outras traduções do francês ou alemão.

E daí eu pergunto: como foi que conseguimos involuir a tal ponto de termos, como governantes, pessoas que não dominam corretamente sequer a língua pátria? E, se a própria ignorância não fosse o suficiente para nos causar constrangimento, temos que ver este fato ser exaltado como virtude. O orgulho que tínhamos dos nossos governantes foi agora substituído pelo culto à ignorância. Ao contrário do magnetismo, em que os opostos se atraem, na política o efeito é o inverso. Sabendo disso, os nossos governantes tratam de multiplicar os que com eles se parecem. Infelizmente para o nosso país, esta é a regra que está sendo seguida. Pior: com estrondoso sucesso. Mário Ferreira dos Santos, em sua obra "Invasão Vertical dos Bárbaros", já alertava. Pena que em vão.

PS. "Desvalorização da inteligência", é o subtítulo da parte II, pag. 91 da obra supracitada.









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Populismo e absolutismo no cenário eleitoral

   Ricardo Vélez-Rodríguez 


A Editora Martins Fontes acrescentou, em 2009, ao seu valioso Catálogo de Obras Clássicas, O Antigo Regime e a Revolução [tradução de Rosemary C. Abílio, São Paulo: Martins Fontes, 286 pp.], de Alexis de Tocqueville (1805/1859), livro que viu a luz, pela primeira vez, em 1856. Precedentemente, com a publicação de A democracia na América, em 1835 (a primeira parte) e em 1840 (a segunda parte), Tocqueville havia conquistado notável sucesso na recuperação do ideal democrático. A democracia fora associada à anarquia (e à correlata instabilidade política) instaurada pela Revolução Francesa.

O Antigo Regime e a Revolução viera comprovar que o evento revolucionário não se vinculava à instauração do governo representativo, mas às elucubrações do filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), durante muito tempo batizadas de “liberalismo radical”. No decorrer do século passado encontrou-se uma denominação adequada (“democratismo”), posto que a proposta rousseauniana não guarda qualquer vínculo com a doutrina liberal. Essa distinção ficaria muito nítida depois da Revolução de 1848 na França, na medida em que já se dispunha de termo de comparação. A Revolução de 1830 introduzira, em caráter pioneiro no país, instituições liberais. Entre outras coisas, o confronto iria evidenciar que o democratismo continuava atuante, preservada a sua capacidade demolidora.

Tocqueville parte do registro de que, em 1789, os franceses se propuseram cortar em dois o seu destino. Imaginavam poder separar, por um abismo, o que haviam sido até então do que queriam ser daí em diante. Pessoalmente, o autor de A Democracia na Américaacreditava que os seus compatriotas tiveram menos sucesso do que imaginavam. A fim de testar essa hipótese, era mister, frisava Tocqueville, “interrogar em seu túmulo uma França que não existe mais” e tentar reconstituir, com base na documentação preservada, os traços essenciais do Ancien Régime. Tocqueville descreve, em O Antigo Regime e a Revolução, as dificuldades encontradas nessa investigação e resume os principais resultados. “O que é válido dizer – escreve – é que (a Revolução) destruiu inteiramente ou está destruindo (pois perdura) tudo o que na antiga sociedade decorria das instituições aristocráticas e feudais, tudo o que de algum modo se ligava a elas, tudo o que trazia delas, em qualquer grau que fosse, a menor marca. Conservou do antigo mundo apenas o que fora alheio a essas instituições ou podia existir sem elas. O que a Revolução foi, menos que tudo, é um acontecimento fortuito. Pegou o mundo de surpresa, é bem verdade, e, entretanto, era apenas o complemento do mais longo trabalho, o encerramento súbito e violento de uma obra na qual dez gerações de homens haviam trabalhado. Se não tivesse acontecido, o velho edifício social não teria deixado de cair em todo lugar, aqui mais cedo, ali mais tarde; apenas teria continuado a cair parte por parte em vez de desmoronar de uma só vez. A Revolução concluiu bruscamente, por um impulso convulsivo e doloroso, sem transição, sem precaução, sem complacência, o que teria se encerrado pouco a pouco, por si mesmo ao longo do tempo. Essa foi a sua obra” [O Antigo Regime e a Revolução, ed. cit., pp. 24-25).

Na pesquisa que empreendeu, Tocqueville deu preferência à consulta direta a registros da atuação administrativa da época. Assim, por exemplo, consultou as atas das assembleias dos “estados” em que eram subdivididos os grupos sociais: nobreza, clero e “terceiro estado”, isto é, habitantes dos burgos – núcleos que, em muitos casos, depois deram origem às cidades -, entre os que sobressaíam os comerciantes. Basicamente, O Antigo Regime e a Revoluçãoviria comprovar que a Revolução se vinculava à arraigada tradição francesa do centralismo cartorial, traço marcante da política no século XVIII. Ao contrário do que se alardeava, a Revolução não se fizera para debilitar o poder político. O registro da tradição acha-se expresso com as seguintes palavras de Tocqueville: “Um estrangeiro, a quem fossem entregues, hoje, todas as correspondências confidenciais que enchem os arquivos do Ministério do Interior e das administrações departamentais, logo ficaria sabendo mais sobre nós do que nós mesmos. Como se verá ao ler este livro, no século XVIII, a administração pública já era muito centralizada, muito poderosa, prodigiosamente ativa. Estava incessantemente auxiliando, impedindo, permitindo. Tinha muito a prometer, muito a dar. Já influía de mil maneiras, não apenas na condução geral dos assuntos públicos, mas também na sorte das famílias e na vida privada de cada homem. Ademais, era sem publicidade, o que os levava a não terem receio de expor a seus olhos até as fraquezas mais secretas” [ed. cit. Prefácio, pág. XLIII].

Tocqueville chamava a atenção para o efeito político que esse centralismo causava na sociedade francesa: o despotismo. O centralismo tirava da sociedade a sua iniciativa e a transformava em eterno menor de idade perante o Estado todo-poderoso. O grande mal causado à França pelo centralismo era antigo, no sentir de Tocqueville. A substituição paulatina do velho direito consuetudinário germânico pelo direito romano situava-se nas origens de todos os males, e era como que a fonte jurídica legitimadora do processo centralizador, que se alastrou, depois, a todos os aspectos da vida social. O despotismo é, na sua essência, centralizador. Vivesse nestes tempos tumultuados no Brasil, Tocqueville consideraria que o centralismo policial do STF, que investiga, prende, julga, arruma “provas”, condena e encarcera os seus desafetos, seria o “ovo da serpente” de mais uma ditadura republicana, tão centralista quanto a já conhecida “ditadura científica” castilhista no Rio Grande do Sul.

O processo de substituição do direito consuetudinário pelo direito romano acha-se minuciosamente documentado na obra de Tocqueville em apreço. Inicialmente ocorrido na Alemanha, generalizou-se pela Europa afora, ao longo dos séculos XIV, XV e XVI, quando do surgimento dos Estados nacionais. O efeito prático da obra dos jurisconsultos a serviço das nascentes monarquias modernas foi a consolidação de Estados absolutos, mais fortes do que a sociedade, sobranceiros a ela e dela sugando tudo, até a liberdade de associação e a livre iniciativa. Essa é a alma despótica do Ancien Régime, que animava as novas práticas administrativas.

Em relação a esse ponto, frisa Tocqueville: “O que já caracteriza a administração na França é o ódio violento que lhe inspiram indistintamente todos aqueles, nobres ou burgueses, que queiram ocupar-se de assuntos públicos sem ela. O menor corpo independente que pareça pretender formar-se sem seu concurso amedronta-a; a menor associação livre, qualquer que seja o objetivo, importuna-a; deixa subsistirem apenas as que compôs arbitrariamente e que preside. Mesmo as grandes companhias industriais pouco lhe agradam; resumindo, não pretende que os cidadãos se intrometam, de nenhum modo que seja, nos exames de seus próprios assuntos; prefere a esterilidade à concorrência. Mas, como é preciso sempre deixar aos franceses a doçura de um pouco de licença, a fim de consolá-los de sua servidão, o governo permite que se discuta muito livremente toda espécie de teorias gerais e abstratas em matéria de religião, filosofia, moral e mesmo política. Admite de bom grado que ataquem os princípios fundamentais em que se assenta então a sociedade e que discutam até mesmo Deus, contanto que não falem mal nem sequer de seus menores agentes. Acha que isto não lhes diz respeito” [O Antigo Regime e a Revolução, trad. citada, págs. 72-73]. Este texto de Tocqueville traduz, aliás, com perfeição, o ambiente de hostilidade hoje reinante, entre nós, em face da liberdade de pensamento e diante dos empresários que não se arrolem nas fileiras da denominada “oposição democrática”. A história do despotismo se repete!

O que Tocqueville afirmava do centralismo cartorial, aplicava-se, em primeiro lugar, à França revolucionária. Em que pese o fato das juras libertárias dos jacobinos, no entanto a Revolução terminou sendo deglutida pelos velhos hábitos centralizadores e despóticos. O nosso autor cita, para confirmar essa apreciação, as palavras que o deputado Honoré Gabriel Riqueti, conde Mirabeau (1749-1791) escrevia secretamente ao rei, menos de um ano depois de ter eclodido a Revolução: “Comparai o novo estado das coisas com o Antigo Regime; é aí que nascem as consolações e as esperanças. Uma parte dos atos da Assembléia Nacional, e é a mais considerável, é evidentemente favorável ao governo monárquico. Então não é nada estar sem parlamento, sem pays d´états, sem corpo de clero, de privilegiados, de nobreza? A idéia de formar apenas uma única classe de cidadãos teria agradado ao Cardeal-Ministro Richelieu (1585-1642): esta superfície uniforme facilita o exercício do poder. Vários reinados de um governo absoluto não teriam feito tanto pela autoridade régia, quanto esse único ano de Revolução” [Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução, trad. cit., pág. 11]. Arguto observador do fenômeno revolucionário, Tocqueville comenta as palavras de Mirabeau, destacando o caráter cosmético da Revolução de 1789, no que tange ao despotismo centralizador.

Os breves comentários precedentes permitem situar o significado da contribuição de Tocqueville no entendimento da direção central seguida pela Revolução Francesa. Atrelada, assim, à diretriz norteadora do Estado Moderno – substituir a descentralização feudal pelo centralismo monárquico -, graças à influência dos “philosophes”, Rousseau á frente, abriu-se, na França, uma senda distanciada do que efetivamente de novo trouxera a Revolução Gloriosa inglesa de 1688: o governo representativo, que, progressivamente, iria incorporar o ideal democrático. Na preservação deste, no Continente, seria decisiva, portanto, a contribuição crítica ao democratismo rousseauniano, efetivada por Alexis de Tocqueville.

O processo revolucionário fez ruir um governo e um reino, mas sobre essas cinzas ergueu um Estado muito mais poderoso que o anterior. Algo semelhante ao que ocorre, atualmente, com os movimentos populistas latino-americanos, que alegam estar libertando os seus povos do neoliberalismo e do conservadorismo, dando ensejo a propostas cada vez mais estatizantes, fenômeno do qual não escapou o Brasil, levando em consideração os governos petistas, que apregoavam, claramente, a volta do antigo estatismo como solução mágica para todos os nossos problemas. Proposta esdrúxula que, com a maior cara de pau, a oposição hoje apresenta novamente ao eleitorado sob a bandeira de Lula, oportunamente libertado do presídio para se candidatar a gestor do novo estatismo, sob as bandeiras da “democracia” e do STF, “guardião” absoluto dela.

*Artigo publicado originalmente no site do autor.
















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UM PAÍS QUE ESTÁ DOENTE

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UM PAÍS QUE ESTÁ DOENTE



Zema satiriza busca e apreensão de fonte em “Os Intocáveis”

 poder360/youtube


Zema satiriza busca e apreensão de fonte em “Os Intocáveis”


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O QUE A TOGA TENTA ESCONDER HÁ ANOS...

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LULA FOGE DO DEBATE? Escândalos do INSS e Banco Master ficam sem resposta

 gazetadopovo/youtube


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VIVEMOS UMA GUERRA FRIA CONTRA OS ESTADOS UNIDOS

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Filhos poliglotas, campeões de xadrez — e o Estado condenou a família pelo quê?

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Gilmar Mendes Revela o Maior Medo do STF Ao Vivo!

deltandallagnol/youtube


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Que bigode é esse, Marçal

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CADÊ A FICHA LIMPA?

 APAVORADORES


CADÊ A FICHA LIMPA?



APRENDA HISTÓRIA COM QUEM ENTENDE DE HISTÓRIA - DITADURA?

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APRENDA HISTÓRIA COM QUEM ENTENDE DE HISTÓRIA



OAB Quer Tirar Tudo Dos Ministros do STF: Veja!

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A IGNORÂNCIA CONSENSUAL

 Por Alex Pipkin


Durante séculos, ser ignorante tinha uma explicação simples. Faltavam livros, escolas e acesso. Resolvemos boa parte disso, mas a ignorância não desapareceu. Pelo contrário. Ela se tornou mais sofisticada.

Nunca uma geração teve tanto conhecimento ao alcance das mãos. Em segundos, podemos confrontar teses, ler o contraditório, conhecer outras culturas, revisitar a história e, quem sabe, desarmar alguns dos nossos próprios preconceitos.

E o que fizemos com esse privilégio?

Refinamos a arte de filtrar o mundo.

Há algo além do velho viés de confirmação. Estamos aprendendo a ignorar em grupo. A isso chamo de ignorância consensual.

Incomoda-me ver o conhecimento reduzido a munição de trincheira. Usamos a história como estoque de pretextos, a sociologia como manual de condenação do vizinho e a psicologia como habeas corpus para nossos próprios vícios. É quase o avesso do conhecimento.

A sociologia deveria nos ajudar a compreender como convivemos. A antropologia, a descobrir o outro, a reciprocidade e culturas que não cabem na nossa. A psicologia, a desconfiar dos mecanismos escondidos atrás das nossas certezas. E a história deveria nos impor uma saudável humilhação. O mundo não começou conosco.

O conhecimento deveria aumentar nossa capacidade de duvidar de nós mesmos. Fizemos o contrário. Passamos a usá-lo para sofisticar nossas certezas.

Não acredito na fantasia da neutralidade intelectual. Todos temos convicções. Eu tenho as minhas.

O problema não é olhar o mundo através de uma lente. É retocar os fatos até que combinem com a armação. Uma convicção decente precisa sobreviver à realidade, não escolher qual realidade merece existir.

As redes sociais transformaram isso numa indústria. Encontramos milhares de pessoas repetindo o que pensamos e confundimos repetição com evidência, pertencimento com argumento e maioria na nossa bolha com verdade.

Não encontramos a verdade. Encontramos gente suficiente para não precisar procurá-la.

Pensar por conta própria deixou de ser apenas um exercício de inteligência. Tornou-se um teste de resistência à solidão. Discordar da própria turma custa mais do que atacar a turma adversária.

Por isso, conhecimento sem coragem intelectual vale pouco.

Conhecer de verdade exige ler quem nos incomoda, procurar o argumento capaz de demolir o nosso e admitir, sem drama, quando o “adversário” tem razão.

A ignorância mais perigosa já não é a de quem nunca entrou numa biblioteca.

É a de quem percorreu todas as estantes e voltou carregando apenas os livros que lhe deram razão.

Chamamos isso de informação.

O nome correto é ignorância consensual.

O ignorante de ontem desconhecia o mundo. O de hoje aprendeu a montá-lo para que sempre lhe dê razão.















publicadaemhttps://www.pontocritico.com/espaco-pensar-artigo/a-ignorancia-consensual-12082026

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