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FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Por que jogadores ganham mais que professores e enfermeiros?

 João Fernando Mazzon


A cada nova janela de transferências, repete-se o mesmo ritual de indignação. Um clube anuncia que pagará a um jogador dezenas de milhões de euros por temporada, e segue-se o coro previsível: É um absurdo. Um enfermeiro salva vidas e ganha uma fração disso. Um professor forma gerações e mal sobrevive. Que mundo é esse em que chutar uma bola vale mais do que cuidar de doentes?”.

A pergunta soa moral. Mas, examinada de perto, ela carrega dentro de si uma teoria econômica e, ademais, uma teoria que os próprios economistas abandonaram há mais de um século e meio. Quando alguém diz que o salário do jogador é “injusto” porque seu trabalho é menos importante que o do enfermeiro, pressupõe que existe um valor objetivo, inscrito nas coisas ou no esforço, contra o qual os preços poderiam ser medidos e corrigidos. É justamente essa pressuposição que Carl Menger desmontou nos Princípios de Economia Política (Grundsätze der Volkswirtschaftslehre, 1871), a obra que fundou a Escola Austríaca. E, uma vez desmontada, a indignação perde o chão. Vejamos por que Menger e Böhm-Bawerk responderiam à pergunta do título com um inequívoco “sim”.

O valor não está na coisa

A intuição que move a revolta é antiga e poderosa: o valor de algo deveria refletir o esforço empregado ou a utilidade que a coisa presta à sociedade. É a velha teoria do valor-trabalho, segundo a qual, de Adam Smith a Marx, o valor era imaginado como uma substância depositada no produto pela mão que o produziu. Por essa lógica, o trabalho árduo e socialmente vital do enfermeiro deveria valer mais do que o passe de Mbappé. Foi precisamente contra esse edifício que Eugen von Böhm-Bawerk dirigiu sua célebre demolição em Karl Marx e o fim do seu sistema: se o valor brotasse do trabalho incorporado, o mundo dos preços reais seria um enigma insolúvel.

O problema é que essa teoria não consegue explicar o mundo. Menger ataca o ponto com o velho paradoxo da água e do diamante. A água é indispensável à vida, enquanto o diamante é um adorno dispensável. No entanto, ninguém troca um copo d’água por um diamante. Se o valor viesse da importância objetiva ou da utilidade total, o preço da água deveria esmagar o do diamante. Acontece exatamente o contrário.

A solução austríaca é desconcertante de tão simples: o valor não é uma propriedade das coisas, e sim um juízo que as mentes humanas projetam sobre elas. Nada vale “em si”. Vale para alguém, em determinado momento, em função de um fim concreto que aquela unidade específica do bem permite alcançar. E, como julgamos sempre na margem, não “a água em geral” contra “os diamantes em geral”, mas esta unidade adicional contra aquela, o que importa é a utilidade da última unidade disponível, a utilidade marginal. A água é abundante; sua última unidade supre uma necessidade trivial. O diamante é raro. Cada unidade serve a um fim ainda valorizado. Daí os preços. Tudo o que vem depois deriva disto: o valor é subjetivo, marginal e atribuído pelo consumidor. Guarde a palavra “atribuído”. É a chave de tudo.

De onde vem o valor do jogador: a teoria da imputação

Resta uma pergunta. Se o valor nasce na avaliação do consumidor final, de onde vem o valor das coisas que ninguém consome diretamente, o tear que tece o pano, a terra que produz o trigo, o jogador que disputa a partida? Ninguém “consome” um lateral-direito.

Aqui entra a contribuição mais elegante da escola. Já nos Princípios (1871), Menger distingue os bens de primeira ordem, que satisfazem necessidades de forma imediata, como o pão, dos bens de ordem superior, que só servem porque ajudam a produzir os de ordem inferior: a farinha, o moinho, o trigo, a terra. E formula a tese decisiva: os bens de ordem superior não têm valor próprio; recebem valor emprestado dos bens de ordem inferior que os ajudam a produzir. O valor flui de trás para frente, do consumidor em direção aos fatores de produção. Friedrich von Wieser deu nome ao processo — Zurechnung, imputação —, e o desenvolveu em O Valor Natural (Der natürliche Wert, 1889), enquanto Böhm-Bawerk o integrava ao monumental edifício sobre capital, tempo e juros de sua Teoria Positiva do Capital (Positive Theorie des Kapitales, 1889).

O jogador de futebol é um bem de ordem superior. Ninguém torce por uma planilha de receitas (ou, ao menos, não deveria). Torce-se pela vitória, pelo espetáculo, pela camisa, pela emoção de uma final de Copa. Esses são os “bens de primeira ordem” do futebol, experiências subjetivas vividas por milhões de pessoas. O jogador entra na cadeia como fator que contribui para a produção dessa experiência. E, exatamente como o moinho, seu valor é imputado para trás com base no quanto os torcedores valorizam o que ele ajuda a entregar.

Quando milhões de pessoas, em dezenas de países, decidem subjetivamente que vale a pena pagar a assinatura do canal, comprar o ingresso, vestir a camisa, consumir o patrocinador, porque querem ver aquele time vencer com aquele jogador, essas miríades de avaliações individuais se somam num caudal de receita: direitos de transmissão, bilheteria, licenciamento, patrocínio. O salário do craque é o eco contábil dessa torcida. Não é o clube que “inventa” o valor de Mbappé do nada, num delírio de bilionários; é o desejo somado de milhões de torcedores que, imputado para trás através da cadeia, pousa por fim na folha salarial.

O preço como espelho da margem

A teoria austríaca é ainda mais precisa. O que o clube, agindo como empresário, pergunta não é “quanta receita este jogador gera no total”, mas “quanto a mais ele acrescenta à receita, na margem, em comparação com a alternativa disponível?”. É a sua produtividade marginal, traduzida em valor: quanto a presença daquele atleta específico move o ponteiro das vitórias, das audiências e das vendas acima do que moveria o substituto. Esse acréscimo marginal é o teto do que faz sentido pagar.

Böhm-Bawerk acrescenta a dimensão do tempo. Na Teoria Positiva do Capital (1889), mostra-se que a produção é sempre roundabout, indireta e esticada no tempo, e que bens presentes valem mais do que bens futuros equivalentes. A receita que o jogador ajuda a produzir vem no futuro, ao longo de temporadas, sob a forma de troféus ainda não existentes. O empresário, portanto, paga hoje por uma contribuição que se realizará amanhã e desconta esse valor futuro em termos de valor presente. O salário tende ao valor-produto marginal descontado do atleta, conceito que Murray Rothbard formalizaria depois, com rigor, em Homem, Economia e Estado (Man, Economy, and State, 1962). E, porque vários clubes disputam o mesmo talento escasso, a concorrência entre eles puxa a oferta para cima, aproximando-a desse limite. Ninguém precisa calcular nada disso com fórmulas: como argumentou Hayek em “O Uso do Conhecimento na Sociedade” (1945), o sistema de preços resolve, de forma descentralizada, um problema que nenhuma mente isolada conseguiria resolver, do mesmo modo que ninguém precisa resolver equações de fluidos para que a água encontre o próprio nível.

Mas o enfermeiro é mais importante!

Chegamos à objeção mais forte e sincera. Sim, em qualquer escala moral decente, cuidar de um doente importa mais do que entreter uma multidão. Por que o mercado parece inverter essa hierarquia?

A resposta austríaca exige uma distinção que a indignação costuma atropelar: o valor moral de uma pessoa não é o mesmo que o preço de mercado de um serviço. O mercado não está classificando seres humanos por dignidade; está apenas registrando, na margem, quanto as pessoas estão dispostas a abrir mão por uma unidade adicional de cada serviço. São perguntas diferentes, e confundi-las é o erro de origem.

E por que o preço marginal do serviço de cuidado é menor? Não porque cuidar importe pouco, importa imensamente, mas por causa da escassez relativa. Há, felizmente, um grande número de pessoas capazes de exercer a enfermagem com competência; a oferta é ampla, e o valor da última unidade contratada, por mais vital que a atividade seja em conjunto, é moderado. É o paradoxo da água outra vez: utilidade total altíssima, valor marginal contido pela abundância. Já o que um craque entrega na margem, o lance que decide a final a que dois bilhões de pessoas assistem ao mesmo tempo, é praticamente irreproduzível. Pouquíssimos no planeta o fazem. A oferta é minúscula diante de uma demanda planetária. Daí o preço.

Note o que não está sendo dito. Não se diz que o jogador “mereça” mais como ser humano, nem que sua atividade seja socialmente superior. Diz-se apenas que, num mundo de trocas voluntárias, milhões de pessoas escolheram, com seu próprio dinheiro, valorizar aquele serviço escasso. Quem quiser que enfermeiros ganhem mais tem um caminho coerente e honesto: valorizar mais esse serviço, e há boas razões para defender que se faça. O que não se sustenta é a acusação de que o preço do jogador seja, em si, uma fraude ou uma injustiça.

A justiça do consentimento

Resta o sentido de “justo”. A Escola Austríaca é cautelosa com a palavra e com razão: “preço justo”, no sentido de um valor cósmico correto, não existe, porque não existe valor objetivo a ser acertado. Mas há um sentido coerente e exigente de justiça que o salário milionário satisfaz plenamente: o da troca voluntária.

Cada euro daquele salário foi entregue por alguém que consentiu. O torcedor que assina o canal consentiu. A marca que patrocina consentiu. O clube que oferece o contrato consentiu, apostando seu próprio capital. Ninguém foi coagido, ninguém foi espoliado, nenhum terceiro foi obrigado a financiar, contra a vontade, aquilo de que não desfruta. O salário é a forma cristalizada de milhões de “sins” voluntários. Se isso não é justo, é difícil dizer o que seria justo.

Há, é claro, um detalhe que escapa à conta, e que os austríacos, longe de escondê-lo, sublinham: a imputação é uma previsão, não uma certeza. O clube aposta que o jogador entregará a receita futura que justifique o ordenado. Às vezes erra; a contratação fracassa, a lesão chega, o desempenho mingua, e o salário se revela um prejuízo. Isso não é exploração, é o avesso dela. É o empresário assumindo a incerteza por sua conta e risco, num mundo em que o futuro é desconhecido. Ludwig von Mises, em Ação Humana (Human Action, 1949), dá a esse arranjo o próprio nome: a soberania do consumidor. No mercado, é o consumidor,  aqui, o torcedor, quem, em última instância, dirige a produção e remunera os fatores; o empresário é seu mandatário, e o lucro ou o prejuízo, a nota que ele recebe por acertar ou errar o que milhões vão querer amanhã.

Quando a bola rolar

Então, quando a Copa começar e você se levantar do sofá diante de um drible impossível, lembre-se de que, naquele instante, está participando do processo exato que “paga” aquele salário que tanto indigna nos jornais. Sua emoção, somada à de bilhões de outros, é a fonte última do valor que percorre a cadeia, da ordem inferior à superior, até pousar na folha de pagamento do craque.

O salário milionário não desce de cima como um privilégio arbitrário. Ele sobe de baixo, da preferência subjetiva de cada um dos que escolheram dedicar seu tempo, sua atenção e seu dinheiro a esse espetáculo. Menger e Böhm-Bawerk reconheceriam ali, sem hesitar, não uma anomalia a corrigir, mas a economia humana funcionando exatamente como sempre funcionou: valor que nasce do desejo e preço que é apenas o desejo de muitos traduzido em número.


Referências

Böhm-Bawerk, E. von. (1891). The positive theory of capital (W. Smart, Trad.). Macmillan. (Obra original publicada em 1889)

Böhm-Bawerk, E. von. (1949). Karl Marx and the close of his system (P. M. Sweezy, Ed.). Augustus M. Kelley. (Obra original publicada em 1896)

Hayek, F. A. (1945). The use of knowledge in society. The American Economic Review, 35(4), 519–530.

Menger, C. (1983). Princípios de economia política (L. J. Baraúna, Trad.). Abril Cultural. (Obra original publicada em 1871)

Mises, L. von. (2010). Ação humana: Um tratado de economia (D. Stewart Jr., Trad., 4ª ed.). Instituto Ludwig von Mises Brasil. (Obra original publicada em 1949)

Rothbard, M. N. (1962). Man, economy, and state: A treatise on economic principles. D. Van Nostrand. Wieser, F. von. (1893). Natural value (C. A. Malloch, Trad.; W. Smart, Ed.). Macmillan. (Obra original publicada em 1889)

O caso Atlas Intel e o custo sistêmico de levar a política ao tribunal

  Judiciário em Foco 


Política e jurisdição, formas de exercício do poder por certos seres humanos que submetem outros à sua vontade, são fenômenos inconfundíveis. Nos modernos estados de direito, o universo político, integrado por indivíduos eleitos pelo voto popular e destinado à formulação de comandos genéricos, se move no tempo necessário à formação dos consensos e mediante a linguagem irrefreável dos embates dos interesses em jogo. Já na seara judiciária, os atores, escolhidos à luz de critérios pré-determinados pelas normas vigentes, são investidos da atribuição de solucionarem litígios concretos entre partes determinadas, tendo de fazê-lo dentro da celeridade e da discrição inerentes às decisões de cunho estritamente técnico. Contudo, sob as condições de excepcionalidade por nós vivenciada, esse quadro soa como utopia ingênua, bem distante da mixórdia onde políticos abandonaram a arte do confronto entre pares, e juízes, a de dizer o direito.

A empresa AtlasIntel divulgou pesquisa de preferência do eleitorado em relação aos principais pré-candidatos ao Planalto. O resultado, positivo para Lula e desfavorável a Flávio Bolsonaro, foi obtido mediante a exposição dos entrevistados a perguntas que substituíram a opção pura e simples por quesitos denegritórios à imagem do senador. A formulação de indagações como, por exemplo, “você ficou sabendo do áudio e mensagens vazadas de supostas conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do banco Master?”, ou “após tomar conhecimento das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, você ficou mais ou menos disposto a votar em Flávio Bolsonaro para Presidente?” não oferecia ao eleitor a escolha no voto por L ou FB, e sim tecia juízo valorativo prévio sobre um dos lados. Pesquisa tendenciosa, que poderia e deveria ter sido questionada!

O questionamento, no entanto, deveria ter sido feito na arena política, tanto no interior do parlamento quanto sobretudo fora dele, na mídia, nas redes sociais e nos inúmeros grupos de apoiadores do senador. Para o parlamentar pré-candidato, teria sido uma oportunidade singular de lançar mão da capilaridade do ambiente digital para trazer à tona a desonestidade do instituto de pesquisa, para contrapor insinuações e para exibir ao eleitorado toda a documentação referente às suas relações com o banco e seu dono. Ora, se a AtlasIntel não tomou qualquer medida para amordaçar o senador, Flávio dispunha de espaço irrestrito para desmascarar o viés travestido de metodologia e até para transformar a canalhice alheia em adubo para sua pré-campanha. No entanto, a exemplo de seus colegas congressistas, o senador depôs as armas da política, e sua sigla partidária terceirizou o assunto a togados.

No TSE, o relator Nunes Marques invocou uma resolução e alguns precedentes da corte eleitoral para determinar a suspensão liminar da divulgação da pesquisa. Diante da natureza indiscutivelmente enviesada do material, poderia ter o togado deliberado de outro modo? Sim, inclusive mediante o encerramento sumário do caso, sem apreciação do cerne (mérito), pela identificação, até mesmo de ofício, de uma ausência no interesse de agir. Se o interesse de ingressar no judiciário pressupõe a necessidade do autor na obtenção de uma decisão, e se o senador poderia ter sanado os efeitos deletérios da pesquisa pelas ferramentas inerentes à sua atuação política, togados não poderiam ter se dado ao luxo de desperdiçar tempo com embates entre mandatários e institutos de pesquisa.

Se, a despeito das considerações acima, Nunes Marques tivesse insistido em dar prosseguimento ao litígio, ainda assim poderia ter se recolhido à sobriedade e aguardado a deliberação de seus pares acerca da liminar, medida excepcional cujo deferimento se subordina à constatação de risco iminente a ser evitado. Aliás, se nossos togados adotassem posturas minimamente reverentes aos indivíduos que os sustentam, eles conceberiam que, muito acima de uma norma administrativa (resolução) e até do entendimento humano, deveria pairar, supremo, o texto constitucional – e, em particular, os direitos e as garantias individuais por ele chancelados. Enxergando a si mesmos como servidores da coletividade de pagadores de impostos, magistrados teriam de respeitar a liberdade de expressão em sua plenitude e assegurar a manifestação de quaisquer opiniões e pesquisas, por mais canalhas. No entanto, no país dos togados que se arrogam a calar indivíduos, o deslinde do assunto foi postergado pelo pedido de vista de uma integrante da corte eleitoral.

Entre canetadas e discursos na tribuna do TSE, fundos públicos são gastos com a contratação de advogados e com a manutenção de um aparato togado entretido em assuntos como esse e, por óbvio, desviado de demandas da população por serviços judiciários realmente necessários. Diante da suspensão de pesquisa que já havia sido veiculada, o eleitorado patina em uma desconfiança ainda maior em torno da fidedignidade dos dados supostamente pesquisados. Por fim, mas não menos importante, a transferência de assunto político ao escrutínio do poder não-eleito só vem reforçar a imagem distorcida do judiciário como “fiador da estabilidade institucional”, conforme vociferado pelo criador da Gilmarpalooza. Quantas gerações ainda haverão de ser sacrificadas por tantos e tão expressivos custos sistêmicos?







publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/justica/o-caso-atlas-intel-e-o-custo-sistemico-de-levar-a-politica-ao-tribunal/

Corrupção e morte dos impérios e dos estados

   Ricardo Vélez-Rodríguez 


Os Impérios, bem como os Estados, via de regra, não morrem de fora para dentro, mas de dentro para fora. Os pensadores políticos, ao longo da história do Ocidente, sistematizaram o que poderíamos denominar de sintomatologia da queda dos poderes constituídos.

Foi Aristóteles  (384-322 AC) na sua Política quem, em meados do século IV a.C., indicou a causa fundamental da queda dos regimes: Quando os que administram o Estado se preocupam mais com o próprio bem-estar do que com a coisa pública, sobrevém a corrupção daquele.

Ora, essa causa geral da morte dos regimes pode ser particularizada historicamente em várias modalidades, que seriam como que os principais sintomas da doença. Referir-me-ei, neste comentário, aos dois principais sintomas da corrupção de Impérios e Estados na história do Ocidente.

1 – Quando esmaecem os vínculos entre as partes que os integram, o fim começa a aparecer no horizonte da história de Estados e Impérios. Foi assim com o Império Romano, como narra com seu estilo grandioso e detalhista o historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794), aquele que, em meados do século XVIII, era admirado pela Europa afora e tinha sido íntimo da mãe de Madame de Staël (1766-1817), a bela Suzanne Curchod (1737-1794), futura esposa do banqueiro suíço Jacques Necker (1732-1804), o ministro da Fazenda de Luís XVI (1754-1793) da França (que poderia ter poupado a cabeça do monarca francês, caso este tivesse decidido seguir o conselho do seu Ministro, de dar o passo que os Ingleses tinham dado no final do século anterior, transformando a monarquia absoluta em constitucional).

Gibbon escreve a propósito da queda do Império Romano: “Os ferimentos mais profundos foram infligidos ao Império durante a minoridade dos filhos e netos de Teodósio I o Grande (347-395); depois de terem atingido a idade viril, esses príncipes incapazes deixaram a Igreja entregue aos bispos, o Estado aos eunucos e as províncias aos bárbaros…”. (E. Gibbon, Declínio e queda do Império Romano. Edição abreviada. Trad. de José Paulo Paes, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 542).

Ora, tanto o Império Romano quanto a Monarquia Absoluta na França entraram em declínio acelerado, quando as suas elites, corruptas pelas mordomias que o poder lhes garantia, afrouxaram os vínculos que mantinham unidas as partes dos seus domínios, privilegiando a vida mole dos palácios à sisudez dos gabinetes e à disciplina do estadista que deve se preocupar em ouvir o que os seus governados esperam, seguindo os conselhos dos velhos jurisconsultos e dos funcionários leais.

No caso destes tempos duros que o Brasil vive na era lulista, ao ensejo da corrupção generalizada do aparelho do Estado e das grandes empresas do país, teríamos um caso semelhante de dissolução dos vínculos da unidade nacional, propiciada pelos próprios comandantes da nave estatal, Lula e Dilma. Crime generalizado que até a Justiça dos Estados Unidos denuncia e que Lula e o PT tentam ainda negar, com apoio de parte da grande imprensa, como a Folha de São Pauloque, em “pesquisa” feita sob medida pelo instituto Data Folha, comete a infantilidade de ainda atribuir a Lula a preferência do eleitorado na próxima eleição.

Se não forem retirados do poder, os petralhas comprometerão definitivamente a unidade nacional, com o esfacelamento das instituições republicanas, na maior onda de corrupção conhecida no mundo, nos últimos decênios.

2 – Quando os cidadãos de um Império ou país trocam o ideal da luta em prol da liberdade, pela busca do conforto. Alexis de Tocqueville(1805-1859), se referindo aos Estados Unidos da América, considerava que o grande país do Norte correria esse risco, caso os seus cidadãos, em algum momento, preferissem se acomodar às delícias do progresso material e as colocassem à frente do senso da liberdade conquistada em lutas e sacrifícios, por parte das Treze Colônias originárias e dos Estados que se consolidaram depois.

Seria como se os Americanos abdicassem do seu DNA, aquele que caracterizou aos Pillgrim Brothers que cruzaram o Atlântico, ao longo dos séculos XVII e XVIII, buscando a liberdade nas terras por eles ocupadas na Nova Inglaterra.

Esse risco, entretanto, estaria longe do povo americano, em decorrência da forma particular em que a ideia de República se materializou entre eles, no sentir de Tocqueville. A respeito, afirma o pensador francês na sua obra principal, Da Democracia na América: “O que se entende por República, nos Estados Unidos, é a ação lenta e tranquila que a sociedade exerce sobre si própria. É um estado regular fundado realmente na vontade esclarecida do povo. É um governo conciliador, em que as resoluções amadurecem durante muito tempo, sendo discutidas com vagar e executadas com maturidade. Nos Estados Unidos, os republicanos gostam dos costumes, respeitam as crenças e reconhecem os direitos. Professam a opinião segundo a qual um povo deve ser tanto mais respeitador da moral, religioso e moderado quanto maior for a liberdade de que disponha. Aquilo a que se chama República, nos Estados Unidos, é o reino tranquilo da maioria. A maioria, depois de ter tido tempo para se reconhecer e se dar conta da sua própria existência, é a fonte comum dos poderes”. (Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, prefácio de João Carlos Espada, Lisboa: Princípia – Publicações Universitárias e Científicas, 2001, pg. 445-446).

O risco do abandono do ideal da liberdade pela busca do conforto é, entretanto, grande, segundo o pensador francês, entre os povos do Continente europeu ou os Latino-americanos, herdeiros de uma ideia oligárquica de República, segundo a qual não se trataria do tranquilo império da maioria, mas do intranquilo domínio da minoria sobre o resto.

A respeito, frisava Tocqueville: “(…) a República não seria o reino da maioria, como se julgou até agora, mas sim o reino daqueles que melhor a representam. Não é o povo que dirige os governos deste tipo, mas aqueles que sabem o que é melhor para ele: feliz distinção, que permite agir em nome das nações sem as consultar nem pedir o seu aval e espezinhando-as” (Tocqueville, Da Democracia na América, ob. cit., pg. 446).

Essa seria a versão de República, patrimonialista e positivista, que herdamos no Brasil e na qual lutamos para sobreviver, defendendo a escassa liberdade que ainda nos resta.

*Artigo publicado originalmente no site do autor.

























A ESQUERDA NÃO QUER ACABAR COM A POBREZA... QUER ACABAR COM A RIQUEZA

 PROF.CLÁUDIOBRANCHIERI/FACEBOOK

A ESQUERDA NÃO QUER ACABAR COM A POBREZA... QUER ACABAR COM A RIQUEZA



NINE PÕE EM DÚVIDA CARATER DE DELEGADOS E POLICIAIS CIVIS

 DEL_LEANDRO/THREADS


NINE PÕE EM DÚVIDA CARATER DE DELEGADOS E POLICIAIS CIVIS



Mendonça Fica Mais Poderoso Após Derrotar Gilmar

 andrémarsiglia/youtube


Mendonça Fica Mais Poderoso Após Derrotar Gilmar

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https://www.youtube.com/watch?v=8qx3S5jSWQo

O Brasil está vendo?

 soberaniaviva/threads


JBS demite 1.700 trabalhadores de uma vez e chama de "estratégia de crescimento". Enquanto isso, carne fica mais cara pro consumidor e o lucro sobe pro topo. Isso não é crise de mercado, é seleção natural corporativa. O Brasil está vendo? 



NÃO GANHOU nem um JOINHA do TRUMP

 rubinhonunes/youtube




MENDONÇA REBATE GILMAR MENDES e afirma que caso Master possui "contornos de máfia"

 gazetadopovo/youtube




O MISTÉRIO DO MOURÃO

 PAULOLOPES/FACEBOOK


O MISTÉRIO DO MOURÃO



Mendonça Dá Surra em Gilmar e Lava a Alma do Brasil: Assista!

 deltandallagnol/youtube


Mendonça Dá Surra em Gilmar e Lava a Alma do Brasil: Assista!


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terça-feira, 16 de junho de 2026

Devemos sempre respeitar a opinião alheia?

   Gabriel Wilhelms 


Existe um lugar-comum nos diferentes debates da vida de que precisamos sempre respeitar a opinião alheia, mesmo que dela divirjamos. Há também uma provocação, que disso deriva, de que haveria uma contradição entre defender a liberdade de expressão e não demonstrar o respeito que se reputa devido às ideias e argumentos alheios. Comecemos pelo primeiro ponto, para obedecer a hierarquia da coisa.

Penso que um bom teste para verificar a veracidade de uma ideia é observar se ela é aplicável ou não no mundo real. Em se tratando de “sugestões” sobre como devemos nos comportar, o que podemos fazer é convidar o “conselheiro” a refletir sobre se ele estaria mesmo disposto a seguir seu próprio conselho.

Então você declara, não sem certa soberba moral, que devemos respeitar as opiniões alheias; talvez você faça isso como uma tentativa de apaziguar uma discussão acalorada ou até mesmo (muito comum) como uma forma de se defender de uma ofensiva retórica de um interlocutor que, por uma razão ou outra, lhe parece intratável. Pois bem, imagine então que um personagem insuspeito, posto que não carrega uma suástica no braço, se une à sua trupe de amigos, em uma mesa de bar e, em dado momento, depois de umas tantas doses, declara que Hitler estava certo e que é uma pena que não tenha logrado exterminar todos os judeus (poderia ser um neonazista confesso ou um simpatizante do Hamas, tanto faz). Você respeitaria tal opinião? Mudemos o rolê. Agora o diálogo é menos descontraído, já que se comenta a notícia de um estupro; em dado momento, alguém sugere que a vítima, uma moça de uns vinte e poucos anos, atacada quando saía de uma casa noturna, é culpada por seu próprio infortúnio, já que usava roupas curtas. Continuas a manter a serenidade diante de tal comentário? Um último exemplo, para não extrapolar a paciência do leitor. Você acabou de reencontrar um velho casal de amigos que já não via há muito tempo; de imediato, eles compartilham a novidade da gravidez, lembrando-se também de lhe mostrar a foto do Enzo, que você conheceu quando era um bebê e que já está com seis anos. Convidas seus amigos a tomar um café, para colocar o papo em dia, papo que, naturalmente, inclui a maternidade/paternidade. Qual sua surpresa quando estes pais dedicadíssimos dizem, com orgulho, que não vacinarão a criança vindoura, tal como nunca vacinaram o jovem Enzo (tanto faz se se tratam de hippies anti-indústrias farmacêuticas ou alt-right negacionistas). Ainda está convicto(a) de que, quando compartilhar a notícia do encontro com seu marido/esposa mais tarde, irá relatar tudo casualmente, reforçando o respeito à opinião antivacina dos amigos, e em nenhum momento os chamará de idiotas?

Resta evidente que a retórica de respeito incircunstancial à opinião alheia morre na praia diante da primeira bobagem proferida, o que significa, tão somente, que há sangue humano correndo por nossas veias e não de baratas. A priori, não há nada de “intolerante” em ficar irritado diante do proferimento de certas sandices. A face em brasa, o tom de voz elevado, talvez agudizado, as veias saltadas no pescoço, o coração acelerado, as pupilas dilatadas, o suor banhando a testa etc, tudo isso, desde que não se converta em violência (aí, sim, intolerância), é do jogo, do debate, da divergência, da democracia — parlamentos, aliás, só são “emocionalmente estáveis” quando são fantoches de ditaduras e existem apenas para corroborar, pois, em parlamentos democráticos, os ânimos se exaltam.

E aí temos o segundo ponto. Responda a um argumento com um pouco mais de acidez — às vezes, mero sarcasmo — e pode ser que algum inteligentinho apareça para dizer que você não está respeitando a liberdade de expressão. Pior ainda quando o ponto debatido é justamente a liberdade de expressão, hipótese na qual ele pode tentar apontar uma dita contradição de sua parte. Assinala-se aqui uma distinção fundamental, que foge à atenção e compreensão de muitos. Discordar de alguém, ou até mesmo xingar uma pessoa por sua opinião (sem recorrer à violência, evidentemente), pode soar desagradável para alguns, mas não cerceia a livre expressão dessa pessoa de nenhuma forma.  Se, digamos, alguém te chama de idiota por pensar ou dizer tal coisa, você continua sendo livre para pensar e dizer essa coisa. Nem aquele que te chamou de idiota tem, necessariamente, o desejo de te impedir de dizer o que pensa nem ele poderia lhe impor o silêncio, ainda que desejasse. Ser xingado não só não contradiz a liberdade de expressão como é um corolário dela: seu interlocutor tem tanto direito de te chamar de idiota quanto você tem de expressar o que pensa. Se você pensa, como os entusiastas da cultura woke pensam, que você tem o direito de não ser “ofendido”, o que desejas é o avesso da liberdade de expressão, que é sempre uma via de mão dupla — se ninguém pode te “ofender”, então você também não pode ofender ninguém e, aí, boa sorte para tecer a mais singela crítica, que sempre pode ser recebida como ofensa por gente melindrada – ou cínica.

Recordemos o exemplo do parlamento. Quem deseja total estabilidade emocional nos debates (não estou falando do churrasco de família, quando essa estabilidade é mesmo preferível e falar de política é quase sempre um erro) quer uma apatia que não é compatível com a democracia. O que proponho é uma solução muito simples, ainda que mais sofisticada: o importante não é respeitar a opinião alheia, mas respeitar o direito de expressão da opinião alheia. Se, neste ponto, você pensa que as duas coisas são equivalentes, convido-o a reler o parágrafo anterior. A diferença não é nada sútil.

Quantos ditos progressistas há por aí, arautos da moderação, que bradam o quanto são tolerantes, que respeitam as opiniões alheias e essa coisa toda, mas que, neste exato momento, estão a defender a proscrição não só de ideias (o que já é uma temeridade) mas de grupos inteiros do mercado de ideias com o embuste dos “discursos de ódio”? Quantos há que subscrevem o banimento de palavras e expressões consideradas inadmissíveis pela seita woke (nem a nega maluca escapou)? Quantos, aquiescendo com aquela baboseira de que piadas matam, estão a aplaudir a perseguição a humoristas adeptos do humor negro? Quantos vivem a justificar os abusos da nossa suprema corte, que, no momento em que escrevo este artigo, acaba de impor censura prévia a mais uma revista? Quantos advogam que o Estado deveria se tornar o fiador da verdade e promover a censura da dita desinformação, ignorando, se ingênuos, ou celebrando, se autoritários, que inevitavelmente isso está e seguirá sendo usado para calar os que criticam os “donos do poder”?

Não se permita aliciar pelas víboras de fala mansa, que dizem respeitar a opinião alheia, mas que te baniriam das redes sociais, do debate e vida públicos, que até mesmo te mandariam para a prisão, por crime não outro que o de opinião, se pudessem. Não nos iludamos com as palavras macias nem nos assustemos com a veia saltada. Os verdadeiros moderados não são aqueles que meramente dizem respeitar a opinião alheia, mas aqueles que de fato respeitam e defendem o direito de expressão, não apenas de seus pares, mas daqueles que podem até desprezar, bem como das ideias que julgam as mais absurdas. O sujeito verbalmente exaltado não é, por causa disso, um intolerante. Ele pode assumir a defesa da expressão, mesmo de seus desafetos, com a mesma intensidade com que manifesta sua discordância. É com o sujeito que se diz moderado, esse charlatão ignóbil, que se regozija com a censura para os outros (até as peças do jogo mudarem de posição e ele se converter em vítima), que você deve se preocupar.

Não há magnanimidade alguma em vislumbrar um mundo cor-de-rosa, onde só se pode falar coisas “agradáveis”, onde a melodia deve sempre ser consonante e nunca destoar da harmonia oficial dos pseudoprogressitas. A grandeza moral está em aceitar o desagradável como legítima expressão, em não se espantar com a dissonância da harmonia, em contemplar que até mesmo o ruído e a distorção, se não belos para você, o são para outrem. De que vale falar em termos como “direito de existir” se a existência do outro como ser pensante, e de seu discurso como expressão do ser, não lhe parecem dignos de defesa?

Para finalizar, repito a fórmula, que deve ficar encravada na nossa mente se quisermos separar os moderados dos charlatões: o importante não é respeitar a opinião alheia, mas respeitar o direito de expressão da opinião alheia. De outra forma: o que importa não é papagaiar bom mocismo, mas defender a liberdade de expressão.








publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/devemos-sempre-respeitar-a-opiniao-alheia/

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