Marco Antônio Villa
O Globo
Para o PT a negociação só interessa quando os opositores já entram derrotados e têm de aceitar as imposições petistas
A presidente Dilma começou seu governo, em 2011, aparentando relativa
independência frente ao seu criador, o ex-presidente Lula. Disse que
daria à sua gestão um perfil administrativo e que não transigiria com a
corrupção. Representava à época o figurino de gerentona e faxineira. Era
tudo uma farsa, mera encenação para consumo dos ingênuos — e não
faltaram os que acreditaram que a criatura era não só diferente do
criador, como até, se fosse preciso, romperia politicamente com ele. Em
quatro anos deixou um país com crescimento zero, um governo paralisado e
marcado por escândalos de corrupção.
Agora o figurino que está tentando vestir é o da presidente que deseja
dialogar com os partidos e a sociedade. Mais uma farsa. Todo mundo sabe
que Dilma não gosta de política. Nunca gostou. Na juventude transformou
oposição à ditadura em confronto militar — com trágico resultado. Quando
chefiou a Casa Civil do presidente Lula foi elogiada pelo estilo de
durona. Era a mãe do PAC, uma tocadora de obras. A coordenação política
governamental era tarefa do próprio Lula. Quando assumiu a Presidência,
Dilma fez questão de demonstrar diversas vezes o absoluto desinteresse —
até mais, enfado — pelas tarefas políticas. Ela não gosta de ouvir.
Decide por vontade própria.
No discurso de comemoração da vitória, a presidente já deu sinais de
como pretende governar nos próximos quatro anos. E insistiu na proposta
de reforma política petista que, entre outras coisas, despreza o papel
constitucional do Congresso. O governo elabora as mudanças e busca, via
plebiscito, o apoio popular. Para o PT a negociação só interessa quando
os opositores já entram derrotados e tem de aceitar as imposições
petistas.
Dilma liderou a campanha eleitoral mais suja da história. No primeiro
turno usou da mentira para triturar a candidatura de Marina Silva.
Guardou para a fase final da campanha os ataques à honra de Aécio Neves.
E tudo sem qualquer problema de consciência. Assim como Lula, Dilma
passou a ter como princípio não ter princípio. O importante era ganhar.
Quem fez o que ela fez na campanha tem condições morais de dialogar com a
oposição?
Dificilmente a reforma política — ou qualquer outra reforma proposta
pelo governo — vai ocupar espaço na agenda política. O escândalo do
petrolão é de tal monta que poderá ter um (inicialmente) efeito
destrutivo e saneador (caso as apurações forem até as últimas
consequências). O encaminhamento das investigações comandadas pelo juiz
Sérgio Moro já desnudou que o assalto dos marginais do poder à Petrobras
é o maior caso de corrupção da história do Brasil. E vai atingir os
três poderes da República chegando até, segundo depoimento do doleiro
Alberto Youssef, o Palácio do Planalto.
A oposição acabou sendo arrastada a exercer o seu papel pelo eleitorado.
A crise de identidade foi resolvida ainda durante a campanha eleitoral.
Diferentemente das duas últimas eleições presidenciais, desta vez
tivemos uma campanha mais politizada e com participação popular.
Fracassou a interpretação de que as manifestações de junho de 2013
tinham sepultado a “velha política.” Pelo contrário, basta recordar as
discussões nas redes sociais, o acompanhamento de toda a campanha, a
excelente audiência dos debates televisivos, principalmente no segundo
turno, e a permanência do interesse pela política após o 26 de outubro.
O cenário econômico é péssimo. Nem o doutor Pangloss diria que as coisas
vão bem. O quadriênio Dilma conseguiu desorganizar as contas públicas,
estourar a meta de inflação, colocar em risco a saúde das empresas e dos
bancos estatais e paralisar a economia do país. E qualquer processo de
negociação política é muito mais difícil nessa situação, pois o governo
teria de ceder. E ceder faz parte da política, e Dilma odeia a política.
Na atual conjuntura aceitar o aceno do governo é jogar na lata de lixo
50 milhões de votos. De votos oposicionistas. De eleitores que estão
indignados com o — usando a expressão do ministro Celso de Mello citada
no julgamento do mensalão — projeto criminoso de poder petista. Não há
desejo sincero de diálogo. As palavras de Dilma não correspondem aos
fatos. O que dizer de uma presidente que demonizava a adversária
imputando a pecha de defensora dos banqueiros e — dias após à eleição —
aumenta a taxa de juros e convida um banqueiro para o Ministério da
Fazenda? É esperteza ou falta de caráter?
O PT venceu a eleição presidencial mas está longe de caminhar para ter o
controle dos três poderes — sonho acalentado pelo partido. Perdeu 20%
das cadeiras da Câmara dos Deputados e no Senado manteve o mesmo número
de assentos. Tudo indica que não terá a presidência de nenhuma das duas
Casas no próximo biênio. E a melhoria qualitativa da bancada
oposicionista deve criar situações embaraçosas para o governo — e não
faltam temas para explorar.
Por outro lado, a composição do Executivo federal terá de ser ainda mais
partilhada com os partidos que dão sustentação ao governo,
enfraquecendo o projeto petista. E se for aprovada a PEC da bengala
ainda este ano, a presidente Dilma perderá a oportunidade de nomear,
devido à expulsória, cinco novos ministros para o STF, acabando com o
sonho petista — e verdadeiro pesadelo nacional — de transformar aquela
Corte em um puxadinho do Palácio do Planalto.
Já estamos em 2015, um ano de 14 meses. Ano agitado, o que é bom para a
democracia. E tudo que é bom para a democracia é ruim para o PT. Vamos
ter muitas surpresas. O projeto autoritário petista caminha para a
derrota política: são os paradoxos da História.
Marco Antonio Villa é historiador
FONTE ROTA2014





0 comments:
Postar um comentário