José Casado
O Globo
Governo e Petrobras demoraram 220 dias para cumprir exigência básica da legislação do Brasil e dos EUA: investigação independente sobre a corrupção na estatal
Jason Coomer lidera uma banca de advocacia em Austin, Texas. Como outros
advogados americanos, ele está à caça de pessoas no Brasil que queiram
ganhar dinheiro com denúncia anônima sobre pagamento de propinas na
Petrobras.
Coomer explica na internet: “Quando funcionários do governo violam a
lei, aceitando subornos para concessões de petróleo e contratos de
compras, há base para ações legais (nos EUA) com grandes recompensas aos
denunciantes"(internationalwhistleblower.com/brazilbribewhistleblowers.htm).
Um ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, revelou em delação
premiada, no Brasil, traficâncias empresariais e partidárias que
resultavam em subornos de até 3% sobre o valor dos contratos de bens e
serviços.
Como a estatal e principais fornecedores atuam no mercado americano,
sujeitam-se às leis anticorrupção. Sabe-se que os negócios da Petrobras
estão sob investigação do Departamento de Justiça e da Comissão de
Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês).
Nos EUA, a delação anônima é premiada com até 30% do valor das multas,
habitualmente milionárias, impostas às empresas pelos organismos de
fiscalização. A Comissão de Valores Mobiliários mantém um programa de
incentivo, o “SEC Whistleblower". A palavra “whistleblower” define quem
“toca o apito" numa corporação pública ou privada, divulgando
informações confidenciais.
Três mil pessoas foram premiadas nas investigações da SEC durante o ano
fiscal de 2013, encerrado no último 1º de outubro. Delas, 779 atuaram no
anonimato, via advogado.
Parte da confusão que a Petrobras passou a enfrentar nos EUA tem origem
na indolência demonstrada pelo governo Dilma Rousseff e pela direção da
empresa. Exemplo:
demoraram 220 dias, desde a prisão do ex-diretor, para cumprir uma
exigência básica das leis do Brasil e dos Estados Unidos — a abertura de
investigação independente sobre responsabilidades dos dirigentes em
negócios suspeitos dos últimos dez anos.
Remancharam, até a estatal receber ultimato do auditor fiscal, Price
Waterhouse, que optou por não se associar aos riscos jurídicos.
A contratação de investigadores externos só foi anunciada no domingo
eleitoral (27), com discrição. O comunicado está permeado pela
autoindulgência dos diretores da estatal quando informam sobre seu
“dever de diligência" no “contexto” de duas leis americanas. Na prática,
levaram sete meses para decidir cumprir uma lei promulgada há 80 anos
(o Securities Exchange Act), complementada por outra 37 anos atrás (o
Foreign Corrupt Practices Act).
Até então, o governo e a direção da estatal contentavam-se com a
letárgica revisão interna dos contratos da Refinaria de Abreu e Lima
(PE) e do Comperj (RJ), conduzida pelo diretor José Carlos Consenza. Ele
foi à CPMI do Senado, na semana passada. Apresentou 271 negativas em
três horas de depoimento.
Desde 2012, Consenza comanda o projeto da refinaria pernambucana.
Presidiu 33 reuniões, quase uma por semana, entre março e novembro do
ano passado. Nelas foram aprovados 63 aditivos no valor dos contratos de
bens e serviços, quase oito por mês. O custo aumentou em US$ 377
milhões (R$ 1, 7 bilhão). Ninguém questionou — registram as atas.
FONTE ROTA2014





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