SERGIO FAUSTO - O ESTADO DE S.PAULO
Já no dia seguinte
ao pleito o ex-presidente Lula pôs seu bloco na rua com vista a 2018.
Depois de dizer o diabo na eleição, ele ressurge conciliador em vídeos
postados na internet, nos quais se dirige fundamentalmente às "classes
médias" (velhas e novas) para recompor uma interlocução que se
deteriorou nos últimos quatro anos. Dirige-se também à militância de seu
partido, aconselhando-a a não se deixar levar pela "campanha de ódio
contra o PT", um recado aos jovens radicalizados que emporcalharam a
sede da Editora Abril. Enfim, um primor de astúcia política e desfaçatez
(o ex-presidente chega a invocar a si próprio como exemplo de político
que não se vale de ofensas para combater os partidos adversários).
Lula
sabe que o discurso do "nós somos pelos pobres e eles pelos ricos" não o
levará à vitória em 2018. Se o País retomar o crescimento, as novas
"classes médias" voltarão a se expandir, com ainda maiores expectativas
de ascensão social, e o número de pessoas realmente pobres se reduzirá a
um contingente menos expressivo eleitoralmente. Se o crescimento
continuar rastejando, as novas "classes médias" estarão frustradas em
suas expectativas de maior ascensão ou iradas com a condição de "novos
pobres", prontos a castigar o governo de turno.
Os desajustes
produzidos pela "nova matriz econômica" são tantos que o cenário mais
provável aponta para a continuidade do crescimento medíocre com inflação
incômoda. A diferença está em que, de agora em diante, haverá aumento
do desemprego. Acabou o vento de cauda da economia internacional e se
esgotaram os motores do consumo público e privado, que puxaram o
crescimento brasileiro nos últimos anos. Sobrou uma agenda de problemas
provavelmente maior que a capacidade do "novo" governo de solucioná-los,
agravados por uma crise política latente. Tem razão Lula quando diz:
"Mais quatro anos como estes e estaremos perdidos" - frase citada na
imprensa. A questão é que não será nada fácil tornar substancialmente
melhor o próximo período presidencial.
Fiar-se nessa previsão,
porém, é o maior erro que poderá cometer a oposição. O PSDB fez sua
melhor campanha desde que deixou o poder, em 2002. O campo das oposições
ampliou-se, com o PSB e a firme posição assumida por Marina Silva.
Nunca o PT esteve tão perto de ser derrotado, nos últimos 12 anos. Mas a
força política das oposições ainda é uma incógnita. Entre outras
coisas, ela dependerá da articulação de um discurso que permita
disputar, com vantagem, corações e mentes das classes médias baixas e
intermediárias, que compõem o grosso do eleitorado. O mesmo contingente
eleitoral em que o PT perdeu terreno nesta eleição e para o qual Lula
começou a acenar mal terminada a apuração. Trata-se de pessoas e
famílias que vivem tensionadas entre o medo de retroceder e a aspiração
de ascender socialmente. Estão integradas ao mercado, mas não podem
dispensar serviços públicos, como o fazem, em maior medida, as classes
de renda mais alta. Nas novas classes médias, os jovens têm mais
educação que seus pais. Muitos se endividaram para cursar o ensino
superior privado. Terão de pagar a dívida em meio às incertezas de um
mercado de trabalho bem mais apertado do que até aqui.
A oposição
precisa falar para esse eleitor. Ele não tem dono. Não é movido por
fúrias ideológicas, votou majoritariamente no PT nas duas eleições
anteriores, mas nesta deu sinais de estar mudando de posição. O desafio é
ampliar e consolidar esse movimento. Confrontar a propagação de
inverdades é o primeiro passo nessa direção. Exemplo típico é a
afirmação - repetida diversas vezes por Lula nos vídeos pós-eleitorais -
de que antes do PT os "pobres estavam fora do orçamento do governo
federal". Ora, quem pôs os pobres no orçamento federal - mais bem dito,
quem fincou os alicerces dos direitos sociais para todos - foi a
Constituição de 1988, ao estabelecer a saúde como direito universal e
definir a educação fundamental como dever do Estado, além de prever a
Lei Orgânica da Assistência Social. Tais conquistas continuariam letra
morta não fosse o Plano Real, que debelou a hiperinflação. Quem pôs em
marcha os programas para torná-las viáveis foi o governo FHC. Antes de
chegar ao poder o mérito do PT, apesar de votar contra todas essas
medidas, consistiu em organizar movimentos de reivindicação de direitos
sociais e deslocar a competição política para a esquerda.
Tão ou
mais importante que pôr os pingos nos is é elaborar um discurso político
que supere a dicotomia entre o "econômico" (o mercado, essa entidade
mal afamada no Brasil) e o "social" (produto da ação de um Estado
benfeitor). Falta ainda articular um discurso que, sem ser populista,
não seja tecnocrático; sem ser "de confronto", seja político, no
sentindo de explicitar conflitos distributivos que se dão pela alocação
de recursos públicos. Por que a campanha de Aécio Neves não politizou o
tema da "bolsa empresário", por exemplo?
A tarefa das oposições é
escrever uma partitura que convença o eleitor médio de que um Estado
fiscalmente equilibrado, ativo, mas não discricionário, um mercado mais
livre e mais bem regulado e uma sociedade civil autônoma são não apenas a
melhor combinação possível para a realização de suas expectativas de
progresso individual e familiar, mas também o caminho certo para um País
mais rico e mais justo. Nessa partitura o meio ambiente deve ser uma
nota dominante. Para dizer o óbvio, o "ambiental" é constitutivo do
"social" e do "econômico". Agora num sentido mais radical do que jamais
foi na história da humanidade, já que a natureza, em desarranjo
provocado pelo homem, ameaça transformar definitivamente as condições de
vida no planeta.
O mandato recebido das urnas é inquestionável. A
hora não é de deploráveis passeatas. É da disputa de projetos, com
respeito à democracia, patrimônio comum de todos nós.
fonte avarandablogspot





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