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09:35
ANDRADEJRJOR
DEMÉTRIO MAGNOLI O GLOBO
Dilma e Lula sabiam de
tudo sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, teria declarado o
doleiro Alberto Youssef na moldura da delação premiada. A notícia
bombástica, publicada por Veja na antevéspera do segundo turno, não
apareceu nos telejornais da Globo daquela sexta, mas ganhou manchete da
Folha de S.Paulo no dia seguinte. Você pode interpretar as diferenças de
comportamento entre os três veículos sob as lentes da disputa
partidária, mas apenas se apreciar teorias conspiratórias ou estiver a
serviço de uma agenda política.
Na Folha, um jornalista enveredou
pela trilha minada, atribuindo o silêncio da Globo ao “medo” do
governo. A resposta, assinada por Ali Kamel, diretor de Jornalismo da
emissora, transferiu a polêmica para o campo da ética jornalística: “A
Globo (...) não faz política, faz jornalismo. (...) só repercute
denúncias de outros veículos se puder confirmá-las por meios próprios”. O
princípio parece ter orientado a própria Folha quando publicou a
denúncia de Youssef junto com a explicação de que a confirmara com suas
fontes. A revista e o jornal não estavam noticiando que Dilma e Lula
sabiam do desvio de somas astronômicas da estatal para o PT, o PMDB e o
PP. Contudo, empenhavam a sua reputação na informação de que Youssef
declarara isso às autoridades judiciais. Fizeram jornalismo ou política?
Naquele
sábado, véspera da eleição, militantes da União da Juventude Socialista
(UJS), um tentáculo do PCdoB, promoveram atos de vandalismo diante da
sede da Editora Abril, acusando a revista de conspirar contra a
candidatura de Dilma Rousseff. À noite, os telejornais da Globo
noticiaram o evento e o contextualizaram. “O ataque ao prédio da Editora
Abril, um ataque à liberdade de imprensa, não poderia ser ignorado”,
argumentou Kamel, para concluir: “E, ao ser noticiado, era preciso
explicar que ele fora motivado por uma reportagem, sem endossá-la”. Na
celebração da vitória de Dilma, militantes petistas entoaram palavras de
ordem contra a Globo. Dias depois, Lula qualificou a edição de Vejacomo
“um panfleto da campanha do Aécio”, mas não se referiu à Folha. É
política contra política ou política contra jornalismo?
A
expressão “guerra midiática” alcançou estatuto oficial na Venezuela de
Hugo Chávez. O ex-presidente “bolivariano” chegou a promover um encontro
latino-americano destinado a consagrar a tese de que a imprensa é um
instrumento de potências estrangeiras ou de elites nacionais contra
governos “populares”. Na Argentina, no Equador e na Bolívia, a tese
sustenta campanhas estatais contra a liberdade de imprensa. No Brasil,
desde o escândalo do mensalão, foi abraçada por setores do PT e
encampada por Franklin Martins, que trocou a posição de comentarista
político da Globo pela de ministro das Comunicações de Lula. Em seu
primeiro mandato, Dilma afastou-se do rumo esboçado nos anos anteriores,
congelando as propostas de “controle social da mídia” que se
articulavam sob o comando do ministro. Hoje, contudo, no rastro dos
vazamentos do escândalo na Petrobras, multiplicam-se os indícios de
ressurreição do projeto engavetado. O tácito respaldo de Lula às
arruaças da UJS não é um raio no céu claro.
O colunista Janio de
Freitas, da Folha, definiu a reportagem de Veja (e, talvez, a
confirmação da mesma Folha...) como uma “investida originada na imprensa
para interferir na disputa eleitoral”, sugerindo paralelos entre a
publicação da denúncia e o golpe militar de 1964. A senha do “golpismo
midiático”, utilizada pelo PT na hora do mensalão, disseminou-se pela
rede de blogueiros patrocinados pelas estatais. Mas as acusações à
revista revelaram-se inconsistentes. O depoimento de Youssef aconteceu
na terça, apenas três dias antes da sua publicação: era notícia nova.
Veja não operava segundo um critério partidário: como em eleições
anteriores, a revista organizara com larga antecedência um programa de
circulação antecipada. A imprensa não tem o direito ético de sonegar
informações relevantes em função do calendário eleitoral. Nem o de
julgar o interesse público de uma notícia na balança de suas hipotéticas
consequências políticas.
Segundo a tese chavista, a “mídia” é
uma entidade monolítica, que opera como “partido da burguesia”. O
cenário descortinado a partir da reportagem de Veja não se encaixa nessa
interpretação caricatural. Na sua réplica ao jornalista da Folha, Kamel
esclareceu que, “na sexta”, a Globo “não confirmou com suas fontes o
sentido do que fora publicado por Veja” e, ainda, que as fontes da
emissora “classificaram de distorcida” a manchete da edição de sábado da
Folha”. O “não confirmou” não significa que as fontes da Globo
desmentiram as da Veja, mas a palavra “distorcida” sugere algo mais. À
primeira vista, a apuração da Globo indicaria que as fontes da emissora
interpretam como de segunda mão as informações da Veja e da Folha. A
revista e o jornal teriam se baseado em fontes com acesso às gravações,
mas não nas próprias gravações.
O jornalismo livre não produz
discursos monocórdicos, como fazem as agências estatais e as assessorias
de imprensa. Veja e Folha arriscaram sua credibilidade, pois acreditam
nas suas fontes. A Globo, que também acredita nas suas, diferentes,
preferiu adotar postura mais cética. Nenhum dos veículos, porém,
questionou o princípio jornalístico de que a missão da imprensa é dar
notícias de interesse público, mesmo se oriundas de vazamentos
judiciais: nas democracias, a proteção do segredo de Justiça não é
responsabilidade de jornalistas, mas de policiais e juízes.
Sob o
influxo da tentação autoritária de “controle social da mídia”, o
episódio converteu-se em nova plataforma de ataque contra os princípios
do jornalismo. Não fosse isso, estaríamos discutindo o que, de fato,
interessa: a excessiva amplitude do instituto do segredo de Justiça no
sistema judicial brasileiro
fonte avarandablogspot
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