Rosiska Darcy de Oliveira O Globo
A violência virtual que devastou as relações entre as pessoas durante a
campanha eleitoral acendeu um sinal vermelho. O legado é de
perplexidade. Novas aflições somaram-se ao inventário de questões sobre a
democracia contemporânea: a internet está ampliando a democracia? Ou
revelando suas zonas de sombra? Ou as duas coisas?
Essa violência não teve origem na internet. Vem de longe, são os
resquícios de uma atitude sectária em que o adversário é inimigo. Há
tempos sobe a temperatura dos pertencimentos tribais. Um jogo de futebol
pode oferecer, em carne e osso, o mesmo espetáculo de boçalidade
contagiosa. Uma torcida organizada é uma tribo em pé de guerra. Partidos
políticos também podem ser.
Como é da natureza da internet ser um potente amplificador, o ódio que
caiu na rede fez-se epidêmico. Nos choques de opinião a própria opinião
se perdeu. Sobraram cacos de insultos, lixo de calúnias, destroços de um
estilo black bloc virtual. Quem queria discutir ideias foi se
dispersando e saindo de cena como os manifestantes das ruas.
Se a internet, o que é verdade, é um rebatimento do mundo real, se os
ódios e as crueldades que veicula são trazidos por quem a utiliza, esse
rebatimento se dá como se estivéssemos no começo dos tempos, antes que
séculos de civilização construíssem regras que domesticaram a fera que
nasce conosco. Espelho de circo, deformante, o que a mais moderna
tecnologia está espelhando somos nós, sim, mas na idade da pedra.
A violência digital alimenta-se da cumplicidade entre a identidade
impalpável e a impunidade. A população do mundo virtual, porque
incorpórea, pode ser ou não ser, ser muitos, quantas múltiplas vidas
adote, ser alguém que não se é. A apropriação e a multiplicação das
identidades propiciam a eclosão de delírios. Permitem não ser
responsável pelo que se diz. Na vida real agredir alguém exige suportar o
sofrimento e a reação do outro. No ciberespaço tudo é indolor e sem
riscos. Vigora o direito ao crime sem autor.
Mesmo se o Brasil já produziu um aplaudido marco regulatório da
internet, que consumiu cinco anos de debates, consultas e audiências
públicas, a capacidade de fazer cumprir essa lei ainda é reduzida. O que
é crime na vida real também é crime na internet. A realidade das
punições é outra história. As rotas de fuga são inéditas, os
esconderijos também. O mundo virtual ainda é um mundo desgovernado, sem
superego e sem tabu.
Chegamos a essa terra de ninguém como se fora um continente encantado
onde a possibilidade de informação e de expressão seria sem limites e
sem dono. Logo os monstros ocultos no anonimato foram saindo das sombras
e dele fizeram uma casa mal assombrada.
Apareceram os que assaltam contas bancárias, os que roubam reputações,
os pedófilos e os terroristas. E as empresas que, violando nossa
intimidade com um olhar orwelliano, surrupiam nossos dados e nos
revendem no mercado de qualquer coisa.
Apareceram agora os donos da verdade, os profetas da intolerância que,
qualquer que seja sua cor política, são, por definição, autoritários. O
site do PT traz um exemplo lapidar desse pensamento autoritário. Convoca
a “militância às armas” para combater com argumentos “a ignorância” de
quem discorda de seu credo. Como se fôssemos 51 milhões de ignorantes a
serem convertidos pela “militância” que, pelo visto, nada tem a aprender
e se prepara para uma cruzada. A retórica guerreira não arrefeceu.
Quando virá o auto da fé?
Se a democracia, por um lado, se consolidou — quem temia o desinteresse
foi surpreendido pela participação — por outro lado a banalização da
violência interpessoal e da intolerância política que se retroalimentam e
que a internet espelhou está se alastrando.
Não desaparecerá por si mesma. A rede que se propunha aproximar as pessoas, ao contrário afastou-as.
O vírus da violência, ora mais, ora menos agressivo, está circulando na
sociedade. E a imunidade baixou muito nessas eleições. Saído não se sabe
de que baú de velharias apareceu em uma manifestação na Avenida
Paulista um cartaz falando em golpe militar, palavras malditas que há
quarenta anos não ouvíamos.
A oposição, pela voz de Aécio Neves, repeliu qualquer proximidade com
esses fantasmas de um passado trágico, traçando um cordão sanitário que
de pronto esteriliza qualquer contágio.
O ódio e a violência são corrosivos. A democracia contemporânea se
fortalece e se afirma no trabalho que a sociedade faz sobre si mesma,
defendendo a liberdade e combatendo em todos os espaços, reais ou
virtuais, seus espasmos de selvageria.
Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
fonte rota2014





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