por Alfredo Attié
Com Blog Ricardo Setti
Nunca fui fã do ministro Gilmar Mendes, do STF. Mas sua afirmação de
politização do Supremo está muito longe de estar errada. Eu diria que é o
reconhecimento puro e simples de uma obviedade.
Cada governo escolhe quem deseja para ocupar o cargo de ministro do
Supremo Tribunal Federal. E sem nenhum controle. Nos Estados Unidos é
mais ou menos assim, com a notável diferença de que há controle,
exercido com seriedade pelo Senado. Lá, o presidente indica e tem de
levar em consideração o que o Senado fará. Daí que há uma certa
moderação do partidarismo, mas que não o afasta de nenhuma maneira. A
Suprema Corte atual, por exemplo, é republicana e tem sido um grande
obstáculo para o governo democrata de Obama.
Aqui, contudo, o Senado apenas realiza um bate-papo, sem levar em
consideração sua função constitucional. O governo nomeia e – como se
afirma, na gíria do dia a dia – emplaca o ministro.
A par disso, essa ideia muito tola de que não há politização – já vi
até, para o meu espanto, gente abalizada da esquerda tentar cobrar
apartidarismo dos magistrados do Supremo – não corresponde sequer à
visão leiga, popular do tribunal. Por exemplo, Joaquim Barbosa é deus
para os não-petistas e diabo para os petistas. O oposto se pode dizer de
Ricardo Lewandowski, que é deus para os petistas e diabo para os não
petistas.
Digo isso sem fazer crítica nenhuma – a não ser aos que desejam fazer as
pessoas acreditarem numa inumana e artificial neutralidade dos que
exercem o poder, aí incluído o poder judicial (si terrible parmi les hommes, como dizia um espírito pioneiro).
Quanto à separação de poderes, nunca foi afirmada por ninguém – a não
ser por quem não leu a origem e as vicissitudes da teoria constitucional
e política – e não existe em lugar algum. Nos Estados Unidos, por
exemplo, há os checks and balances. No
Brasil, há as oligarquias políticas, do passado e do presente. O Estado
brasileiro é objeto de conquista, apropriação e colonização.
Nos Estados Unidos, há cidadãos. No Brasil súditos. Nos Estados Unidos,
há os partidários dessa ou daquela ideologia, desse ou daquele partido
político. No Brasil, há a claque e os claqueurs, e sobretudo, os que macaqueiam o termo “reforma política” sem saber nem do que se trata.
Ora, qualquer mudança legislativa ou constitucional é reforma, por
definição. Basta propor mudanças e expô-las à discussão democrática. Não
há necessidade de fingir que se trata de panaceia. Falar em reforma
disso e daquilo parece mais um ato de desespero, de quem não consegue
agir e é eleito para agir.
Como se trata de reforma “política”, por óbvio, cada um, cada facção,
cada grupo (para não dizer cada partido – ainda um enigma, em nosso
país, que passou sob ditadura a era da decadência do sistema puramente
de representação – e criou uma Constituição atrasada, no seu tempo) tem a
sua própria ideia do que sejam as mudanças – segundo seus interesses,
suas paixões (se ainda remanescem) e razões (cada vez mais escondidas e
gastas).
A pretensa reforma política é, em verdade, uma debate político a se
travar entre os cidadãos. Não é imposição, muito menos engodo de
consulta “popular”. A verdadeira reforma, que é revolução, somente virá
com a educação do povo (negada pelos governantes e pelas oligarquias
atuais – exatamente como faziam as antigas).
Povo educado não escolhe errado, pois debate com seriedade, sem ofensas
pessoais e mentiras. E não se deixa enganar pelas mentiras e ofensas.
Quem muda, de fato, é o povo. Quem muda, de direito, somos nós.
*Alfredo Attié é doutor em Filosofia pela USP e Juiz do Tribunal de Justiça de São Paulo
fonte rota2014





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