João Pereira Coutinho FOLHA DE SÃO PAULO
Que delícia: tenho passado os últimos tempos na companhia de Quintus
Tullius Cicero. O nome talvez acenda uma luz na cabeça do leitor.
Cuidado: é a luz errada.
Quintus era o irmão mais novo do famoso Marcus Cicero. E em 64 a.C.,
quando Marcus se candidatou ao lugar de cônsul (o mais importante cargo
no "cursus honorum" da República Romana), Quintus decidiu escrever um
pequeno manual –pelo menos, a maioria dos especialistas atribui-lhe a
autoria– em que explicava ao irmão como ter sucesso em política.
O manual dá pelo nome latino de "Commentariolum Petitionis" e existe
tradução inglesa de Philip Freeman intitulada "How to Win an Election"
(como vencer uma eleição, Princeton University Press, 99 págs.).
Começa em tom suave: o caçula elogia a inteligência, a oratória e a
integridade de Marcus. Mas depois acrescenta, como um Maquiavel "avant
la lettre", que a política não trata de verdades. Trata de aparências.
Quem ganha a batalha das aparências, ganha a batalha pelo poder.
Essa guerra começa logo no estudo dos adversários. Não das suas
"propostas" (só amadores perdem tempo com as propostas dos outros), mas
das suas fraquezas mundanas.
No caso de Marcus Cicero, ele teria que explorar as fraquezas de um
adversário como Antonius (que teve a propriedade confiscada por dívidas;
que foi expulso do Senado; que até comprou uma escrava para satisfazer
os seus apetites, informa Quintus); e as fraquezas de Catilina (que
cresceu em luxúrias com a própria irmã; que assassinou o cunhado; e que
também tinha uma queda por rapazinhos).
Fazer chegar esses escândalos à opinião pública é o primeiro dever de um candidato responsável.
Mas a política não vive apenas de "campanhas negativas", avisa Quintus. É
preciso uma "campanha positiva" –e essa campanha começa em casa.
O candidato deve ter o apoio da família, dos amigos, dos vizinhos, dos
clientes, dos antigos escravos e dos atuais servos. "Os rumores que se
tornam públicos", esclarece Quintus, "começam na família e nos amigos".
E, depois da família e dos amigos, é preciso o apoio dos desconhecidos.
Como? Prometendo, prometendo. O candidato vencedor é aquele que promete
tudo a toda a gente. Ou, melhor dizendo, é aquele que promete o que
diferentes públicos querem escutar.
Claro que é humanamente impossível satisfazer o mundo inteiro quando se
chega ao poder. Mas esse não é o ponto, escreve Quintus, levemente
exasperado.
O ponto é que "o povo prefere uma mentira graciosa a uma recusa
imediata". Por outras palavras: um político que proclame, com toda a
honestidade, que não pode prometer o que não tem a certeza de cumprir, é
um candidato acabado.
Depois, quando finalmente ascende ao poder, o político poderá sempre
dizer que as circunstâncias mudaram e que as promessas de ontem,
infelizmente, não podem ser cumpridas hoje. Talvez amanhã.
Finalmente, é importante ter o apoio dos poderosos. E "poderosos", aqui,
significa múltiplas coisas: aristocratas, comerciantes ricos, artistas,
jovens ilustres –há várias formas de poder.
E o importante, conclui Quintus, é lembrar a alguns desses poderosos os
favores que lhes fizemos; e aos outros, que ainda não estão em dívida
para conosco, declarar que seremos nós a estar em dívida para com eles.
Nada funciona tão bem como apelar para a ambição alheia.
Escusado será dizer que os conselhos de Quintus tiveram sucesso: Marcus
seria eleito cônsul; dois anos depois, o próprio Quintus seria pretor
(uma espécie de administrador judiciário) e, posteriormente, governador
da atual Turquia. O sucesso político dos irmãos Cicero só teria fim com a
queda da República e a emergência do Império: foram ambos condenados à
morte.
E hoje? Hoje, hipocrisias à parte, não há político de sucesso que não
siga os conselhos de Quintus: na forma como destrata os adversários;
como usa e abusa da família para compor um quadro de respeitabilidade
moral; como faz promessas e mais promessas, sem a mais vaga intenção de
as cumprir; e como tece relações de dependência e favores mútuos com os
poderosos do seu tempo.
O livrinho de Quintus é hilariante e arrepiante. E difícil de engolir.
Razão tinha o poeta: os seres humanos nunca suportaram demasiada
realidade.
FONTE ROTA2014





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