Antônio Imbassahy FOLHA DE SÃO PAULO
O país mal acordou do resultado das urnas e o Banco Central decidiu pelo
aumento da taxa de juros, contrariando o discurso marqueteiro da
presidente Dilma durante a campanha. Longe de causar espanto, o fato
mostra o quanto o país se viu envolto em uma nuvem de dissimulações,
mentiras e falsas promessas durante a disputa eleitoral.
No vale-tudo da campanha, o PT demonizou a oposição associando-a ao fim
dos programas sociais, à retirada do prato de comida do povo pelas mãos
de banqueiros vorazes, ao sucateamento dos bancos públicos e a outras
perversidades.
Estamos agora diante da dura realidade. Crescimento medíocre, inflação
alta, indústria paralisada, contas represadas que começam a ser
desovadas, a Petrobras nas águas profundas da corrupção.
São muitas as mazelas e há setores do próprio governo falando em ajuste
fiscal "violentíssimo" em 2015, como noticiou o jornal "Valor" no dia
30/10.
Certamente, há um descompasso entre esse Brasil real e o país edulcorado
da campanha petista. Em algum momento, no entanto, eles terão de se
encontrar.
Nessa hora, é bom lembrar o chamado à boa política feito por Aécio Neves
ao longo de sua campanha. O candidato fez uma pregação em tudo oposta à
conduzida pela presidente da República.
No lugar da intransigência ao debate, da contabilidade criativa, do
pouco caso com a inflação, do mau uso das empresas públicas e da
tolerância com o crescimento medíocre, Aécio propôs diálogo maduro com a
sociedade, transparência nos compromissos, controle das contas
públicas, reformas estruturantes, estabilidade macroeconômica, zelo
pelas empresas do Estado, fortalecimento das políticas sociais e uma
visão de futuro para o país.
Uma pauta ambiciosa, sem dúvida, mas à altura do país que todos sonhamos
construir. E exequível, pela seriedade com que foi elaborada e pelo
conjunto de forças mobilizadas em sua arquitetura.
O programa de governo de Aécio Neves nasceu de discussões amplas e da
soma de experiências de dezenas de pessoas nas esferas pública, privada e
da sociedade em geral. O que vimos foi o exercício da política em sua
essência, com o reconhecimento de que as questões que dizem respeito à
comunidade merecem ser debatidas por todos e não apenas servir aos
interesses de um grupo encastelado no poder.
As ideias, propostas e ações elencadas no programa do PSDB são uma
amostra vigorosa de nossas potencialidades. O Brasil é um país em
constante transformação e aperfeiçoamento. Mas há ciclos de paralisia e
retrocesso que precisam ser superados, para que o país reencontre a sua
vocação desenvolvimentista.
As urnas revelaram uma nação dividida em sua escolha final, mas toda ela
ávida por mudanças. A sociedade brasileira quer bem mais do que vem
recebendo. Promover as reformas indispensáveis à correção de rumos vai
exigir algo além dos discursos inflamados dos últimos meses.
Vencida a agenda eleitoral que galvanizou corações e mentes, o país clama por uma agenda de boa governança.
Em sua cruzada cívica, Aécio Neves mostrou que há uma forma diferente de
se pensar a condução do país, muito mais audaciosa e responsável. Sua
campanha emocionou, contagiou e mobilizou o Brasil, mas o maior legado
de sua participação talvez tenha sido o resgate da política como o bem
maior da democracia.
A política, em sua concepção mais genuína, afirma-se no enfrentamento
cotidiano das contradições, diferenças e expectativas de vários grupos
sociais. É o diálogo no mais alto nível, sem o qual não há ambiente
democrático que se sustente. Esse ensinamento merecia ser revivido com a
força e a dignidade que Aécio Neves lhe dispensou. Por isso, ele sai
dessa campanha na companhia invejável de 51 milhões de brasileiros e um
patrimônio de credibilidade admirável.
A voz de Aécio ecoou por todo o Brasil e não será esquecida, pois o
próprio senador já avisou que "não iremos nos dispersar". A boa política
agradece.
FONTE ROTA2014





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