editorial do Estadão
Em
duas falas em Brisbane, na Austrália - um discurso na abertura da
reunião do Brics, que precedeu a do G-20, e numa entrevista antes de
embarcar de volta -, a presidente Dilma Rousseff emitiu sinais
inquietantes de que viajara também para os antípodas da realidade. No
léxico dos anos 1970, quando ela integrava organizações de resistência
armada à ditadura, se diria que estava "alienada", embora não
estritamente no sentido clínico do termo. Chame-se hoje como se queira o
estado de espírito que a presidente deixa transparecer em seus
pronunciamentos, o fato é que eles parecem demonstrar um descompromisso
com as coisas como são, substituído por um enlace mental com um mundo à
parte de todo peculiar.
No
primeiro episódio, ao se dirigir aos chefes de Estado da Rússia, Índia,
China e África do Sul - sócios, como o Brasil, desse bizarro clube
cujos três últimos países na ordem da sigla estão mais voltados para os
Estados Unidos e a Europa do que para os dois restantes -, Dilma desfiou
o costumeiro rosário de queixas sobre o papel das economias
desenvolvidas na ordem mundial, culpando-as pela piora das contas
externas brasileiras. "É preciso que os países avançados recomponham sua
demanda interna aos níveis pré-crise ao invés (sic) de tentar resolver
seus problemas com o aumento das exportações", como se eles tivessem o
dever de traçar suas diretrizes com a régua e o compasso da presidente
sul-americana.
Para
variar, como estão fartos de ouvir os concidadãos, tornou a martelar a
versão de que "o Brasil (leia-se 'o governo') está fazendo sua parte"
para a recuperação da economia global. Segundo o seu tortuoso
raciocínio, prova disso seria o déficit das transações correntes do País
com o exterior. Ao consumirem mais do que produzem, os brasileiros
estão "importando crescimento" de outras nações, para o bem da
recuperação internacional. Exímia praticante do jogo do contente, a
Poliana do Planalto faz a sua parte para pôr de ponta-cabeça a indigesta
verdade de que o causador do descompasso entre oferta e demanda é o seu
governo - por incompetência e deformação ideológica e não para fomentar
o progresso alheio, o que já seria absurdo.
A
obra dilmista da desconstrução da realidade culminou com os fantasiosos
comentários sobre os desdobramentos do colossal assalto à Petrobrás - a
prisão de uma vintena de presidentes e executivos das nove maiores
empreiteiras nacionais, além de um ex-diretor da estatal. "Esse não é,
tenho certeza, o primeiro escândalo, mas é o primeiro escândalo
investigado", disparou. Se ela se referia à Petrobrás, fez uma acusação
leviana a governos anteriores aos do PT, de que uma chefe de governo
devia se abster, se não por decência, pelo menos em respeito ao cargo
que ocupa. Se falava do País, como parece mais provável, refugiou-se na
ficção para não ter de encarar o caso mais investigado da história da
República, no maior processo enfrentado pelo Supremo Tribunal Federal
(STF) em seus 186 anos.
Trata-se,
evidentemente, do mensalão, a lambança concebida e levada a efeito por
seus companheiros de partido para arrimar na Câmara dos Deputados os
interesses do governo de seu patrono Lula. Paradoxalmente, se o vexame
não tivesse sido exaustivamente investigado e não tivesse sido o seu
principal arquiteto, José Dirceu, punido desde logo na esfera política,
com a cassação de seu mandato parlamentar, Dilma não teria tido a sorte
de ser chamada a substituí-lo na Casa Civil, em 2005, e de se tornar
candidata à Presidência daí a cinco anos. Ainda em Brisbane, ela disse
que, embora nem todas as investigações sobre a Petrobrás possam ser
dadas como concluídas, devem "mudar o País para sempre". O que começou a
mudar o Brasil, tomara que para sempre, foi a exposição das vísceras da
obsessão petista em se perpetuar no poder.
Um
ditado clássico ensina que, diante de uma realidade adversa, sábio é
quem, tendo fracassado em mudá-la, se resigna a conviver com ela. O
ditado não diz que nome se deve dar a quem, nas mesmas circunstâncias,
fabrica uma realidade paralela para escapar da servidão dos fatos.
FONTE ROTA2014
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