J.R. Guzzo
O lado ruim da vitória de Dilma Rousseff nestas eleições, para não ficar
gastando latim depois da missa, é que Dilma Rousseff ganhou. O lado bom
é que agora está garantido, sem margem de erro, que ela ficará no cargo
só mais quatro anos; no dia 1º de janeiro de 2019 terá de ir embora.
É um alívio. Desde o seu primeiro dia na Presidência sempre houve a
possibilidade angustiante de que continuasse lá para um segundo
mandato.
Agora não há mais essa aflição. Ao contrário, cada dia de seu governo, a
partir de janeiro próximo, será um dia a menos. Não se trata de ver a
vida em cor-de-rosa; todo otimismo, quando se pensa um pouco, é uma
forma de impostura, pois faz promessas sem garantia de entrega. Mas, no
caso, o segundo mandato de Dilma será realmente o último – não
é promessa, é o que manda a lei. Eis aí uma das vantagens da certeza:
acaba com as esperanças, é verdade, mas também acaba com as dúvidas.
Desde o último domingo, foi-se a esperança de que Dilma devolvesse já
agora a cadeira de presidente.
Em compensação, foi-se a dúvida sobre o montante ainda a saldar. Tudo
considerado, a conta provavelmente está de bom tamanho – ou, numa
adaptação livre da filosofia política do deputado Tiririca, muito melhor
não fica.
Louvado seja o Senhor por essas pequenas graças. É claro que todo mundo
tem o direito de esperar da vida pública bem mais do que uma simples
notificação sobre o montante exato dos “restos a pagar”. Mas o que se
vai fazer? É o que temos no momento.
O Brasil, por decisão da metade e mais um pouco dos seus eleitores, foi
mantido sob o comando de pessoas moralmente primitivas, que acabam de
ser premiadas por levar a atividade política à fronteira do crime – e
não têm nenhuma razão, portanto, para mudar de conduta. É perfeitamente
possível que Dilma, o ex-presidente Lula e o PT tentem impor a partir de
agora a ideia de que já houve o “plebiscito” entre o país do bem e o
país do mal de que tanto falaram durante a campanha eleitoral.
O país do bem, que consideram ser o deles, ganhou, e com isso deixa de
ser legítimo discordar de suas decisões ou querer um Brasil diferente do
seu. Dilma, é verdade, só pode ficar outros quatro anos, mas já está
resolvido no comitê central dos vencedores que em 2018 Lula voltará para
mais oito, e depois disso talvez nem seja preciso fazer eleição
nenhuma.
Acontece que as coisas não têm de ser obrigatoriamente assim – não
enquanto a outra metade dos brasileiros acreditar que continua tendo
direitos políticos e civis, e que não está condenada a aceitar esse país
do futuro pronto.
Dilma anunciou que ia “fazer o diabo” para ganhar a eleição. Fez e
ganhou; pode dar parabéns a si mesma, pois em toda a sua vida pública
talvez nunca tenha cumprido com tanto rigor uma promessa. Mas não pode
querer que o cidadão de vida limpa se torne cúmplice da fraude que ela
própria, seu patrono e seu partido montaram para ganhar a eleição. Sua
vitória não obriga ninguém a adotar uma moral parecida com a sua.
Não transforma o errado em certo, nem faz com que seja uma pessoa melhor
do que é. Também não muda os fatos. O zero de crescimento da economia
em 2014 continuou sendo zero depois da contagem final dos votos. As
provas de corrupção na Petrobras, já registradas pela máquina
judiciária, não podem ser apagadas. Eleições servem unicamente para
escolher quem vai governar.
Não resolvem problemas, nem conferem aos ganhadores virtudes que não têm
– e obviamente não querem dizer que os perdedores estejam errados, ou
devam alguma penitência.
Dilma, Lula e o PT pregam que os não eleitores de Dilma são “nazistas”,
ou um bando de “Herodes” babando para matar o Menino Jesus. Foi a sua
obra-prima na campanha – e um demonstrativo perfeito de quantos
escrúpulos têm. Lula e redondezas inventaram que o adversário era
alcoólatra, drogado e vadio. Falsificaram até o dicionário, para colar
nele a acusação de “agredir mulheres”.
Ninguém precisa achar-se um Herodes só porque preferiu votar em Aécio.
Justamente ao contrário, os 51 milhões de brasileiros que fizeram essa
escolha continuam com o direito integral de dormir com a consciência em
paz. É por aí que o jogo tem de seguir.
FONTE ROTA2014





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