por Fernando Gabeira O GLOBO
"Eu não sou água pra me tratares assim. Só na hora da sede é que procuras por mim"
São versos de uma canção de amor desfeito. Mas revelam a maneira
cotidiana como vemos a água num país que tem um quarto dos recursos
hídricos do planeta: basta procurá-la na hora da sede.
Um motorista de táxi de São Paulo aproveitou o trânsito lento para me
contar como foi a reunião do condomínio onde mora. No final, perguntou
se não estava me chateando. Despedi-me sem dizer a ele que, ao
contrário, estava me inspirando. Ver o tema da água invadindo as
conversas, mudando hábitos, era presenciar o início de uma pequena
revolução cultural vivida pela Califórnia, que reformulou suas leis, ou
mesmo por Israel, que transformou a escassez de água em produção
tecnológica que lhe rende muitas divisas.
Há oito anos, fui convidado pelo Greenpeace para falar na Holanda sobre
os temas que poderiam inspirar suas campanhas. Éramos eu e um americano.
Propus água, ele propôs as bombas sujas que o terrorismo estava
produzindo. Senti que havia mais interesse pela bomba suja. Durante
muito tempo, minha ênfase na questão da água foi enfadonha como uma
reunião de condomínio. Com a seca, até as reuniões de condomínio são
emocionantes. Em São Paulo, tomar um banho coloca questões éticas que
sempre existiram, mas agora ganham um sentido de urgência. Estou
consumindo mais do que devo?
É a primeira grande seca que vivo na região. No início dos 1980, viajei
para o Nordeste para documentar a seca no sertão de Irauçuba, no Ceará.
Viajei com o Mário Ferreira, e sua câmera Ikegami não aguentava o calor
seco: os controles eletrônicos enlouqueciam com frequência. No Sudeste
nem todos se deram conta da seca, algo impossível no sertão. Ela é mais
branda, no entanto arrasou rios como o Piracicaba, secou nascentes como a
do São Francisco e alterou o cotidiano de São Paulo. Nunca tinha visto
os paulistas na rua festejando a chegada da chuva.
Apesar das consequências sociais e econômicas, a seca foi vivenciada de
uma forma um pouco blasé nas eleições de 2014. Imaginem que o Congresso
brasileiro não fez ainda uma única e miserável audiência para tratar do
assunto. Parecem acreditar que isso passa com a chegada das chuvas, que é
perder tempo tratar do assunto. A ideia de um país com água abundante
ainda domina o imaginário. De fato temos muita água, mas o problema é
sua distribuição ao longo do país. Temos boas leis sobre recursos
hídricos e um excelente instrumento de gestão: o comitê de bacia. Uma
das leis determina o pagamento da água tirada dos rios pelas empresas e
agronegócio, destinando o dinheiro para os comitês de bacia.
Mesmo com um mapa indicando o caminho, avançamos pouco. Nas reuniões de
que participei do Comitê de Bacia do Piracicaba, sempre esteve muito
claro que o rio estava sobrecarregado. Suas águas eram usadas por São
Paulo, Campinas, duas cidades imensas, além das outras menores da
região. Hoje, compreendo que essas previsões, feitas com tanta
antecedência, entram por um ouvido e saem por outro.
Costumamos dizer que a água traz um potencial de conflitos para o século
XX1 como o petróleo trouxe para o século XX. Mas e daí? Agora que a
seca atinge algumas das áreas mais populosas do Brasil é hora de uma
mudança que passa pelos hábitos cotidianos. Mas não se esgota neles. Com
a queda dos reservatórios, talvez tenhamos que combinar economia de
água e energia simultaneamente. Já tivemos uma experiência de economizar
energia, no fim do governo Fernando Henrique. A sociedade respondeu
bem. O governo pelo menos se abriu. Foi criado um gabinete de crise, e
várias vezes, mesmo sendo de oposição, fui lá trocar ideias com Pedro
Parente, designado para cuidar da crise. O apagão de 2001 foi mais
dramático, mas a crise atual, leio, custou quatro vezes mais ao país:
R$105 bilhões. Um debate nacional sobre a crise da água e, no caso
brasileiro, sua enorme repercussão na energia, é mais do que urgente. O
governo estava na luta eleitoral e, vencedor, dedica-se agora às
escaramuças da partilha do poder. Passamos tanto tempo discutindo se o
país estava dividido, e nem nos demos conta de que secou a nascente do
rio da unidade nacional.
Estou partindo para Itu, uma cidade do interior de São Paulo atingida
pela seca. Dizem que os carros-pipas circulam com escoltas armadas, e as
pessoas passam noites nas filas para receber um pouco de água. É um
documento sobre a sobrevivência urbana na seca. Mas não basta para
colocar a seca na agenda nacional. E, com governo em fase de toma lá da
cá com os os partidos aliados, meu medo é que a queda das chuvas, mesmo
que modestas, mergulhe o tema, de novo, no limbo da memória.
Nesse caso, será preciso esperar uma nova crise. E se consolar com um
poema de Elizabeth Bishop sobre a beleza da chuva caindo em nosso
telhado. Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas
as pedras, no Brasil, às vezes são duras demais. E a água, agora
sabemos, anda um pouco escassa.
FONTE ROTA2014





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