editorial de O Globo
Nos 12 anos de inquilinato no Palácio do Planalto, houve momentos em que
o PT cedeu a tentações autoritárias, superadas, felizmente, pelo jogo
próprio da política e a ação das instituições.
No primeiro governo Lula, a latente preocupação de petistas com a
liberdade de expressão e de imprensa em particular — na frente de
esquerda que compõe o partido há facções autoritárias — inspirou, no
Ministério da Cultura, por exemplo, a criação de uma agência (Ancinav)
para controlar o conteúdo da produção audiovisual brasileira. Ou seja,
censura e dirigismo.
À mesma época, surgiu, de idêntica fonte inspiradora ideológica, o
Conselho Nacional de Jornalismo, um ente paraestatal desenhado para
coagir os profissionais de imprensa. A agência e o conselho, diante do
justificável ruído que criaram, tomaram o caminho da gaveta, por decisão
sensata de Lula.
Mas a índole autoritária de frações do petismo é indomável. E sempre
será assim, devido às heranças históricas de parte do PT. E isso, mais
uma vez, ficou visível no primeiro governo Dilma, na criação dos
chamados “conselhos populares”, para atuarem junto à administração
direta e mesmo próximos a estatais. Além disso, foi instituída a
“Política Nacional de Participação Social”, e todo um sistema de
conselhos — já existem vários — ficaria subordinado, não por acaso, ao
então ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência Gilberto
Carvalho.
Trata-se de poderoso instrumento de “democracia direta”, coerente com a
oposição que o PT faz à democracia representativa, um dos regimes mais
estáveis.
O Planalto pode até desejar alterar as fronteiras da democracia
brasileira, mas não por decreto-lei. Pois foi numa penada da presidente
Dilma, pelo DL 8.243, que o governo adulterou a democracia
representativa no país. Lideranças no Congresso alertaram o Planalto que
a iniciativa não prosperaria.
E, de fato, um decreto de origem no Legislativo tratou de derrubar a
ousadia do Planalto, no final de outubro, na Câmara, logo após a
reeleição de Dilma. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL),
avisou que acontecerá o mesmo na Casa.
O problema não está na criação em si de comissões, tampouco em
mecanismos que facilitem a participação mais ativa da sociedade em
decisões de governo. O avanço da internet está aí para facilitar essa
interferência positiva do eleitor em temas tópicos. Os Estados Unidos
são exemplo de plebiscitos bem conduzidos.
O decreto 8.243 tem outro objetivo: povoar o Estado de comissões a serem
formadas por representantes de “movimentos sociais”, todos de alguma
forma ligados ao PT. Daí Gilberto Carvalho, o petista mais próximo desse
universo, ter sido escolhido para executar a tal política de
“participação social”.
Na essência, o 8.243 é um Cavalo de Troia que contrabandeia para a ordem
jurídica do país o aparelhamento e a subordinação do Estado a
interesses partidários — do PT.
FONTE ROTA2014





0 comments:
Postar um comentário