Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -
Fofo, inofensivo, adorado por todos, o Rei da Folia está sendo
destronado: de mansinho, à vista de todos. Quem assume o lugar de Momo é
a criatura eletrônica, divina, esguia, inefável, inebriante, indizível,
absolutamente pelada, algo assexuada, poderosa e etérea.
Globeleza, descendente das cabrochas, é símbolo da apropriação do
carnaval pela Rede Globo. Justiça seja feita – não faltam ao grupo
empresarial competência, imaginação, recursos e audácia. Mas ao obter a
exclusividade da cobertura dos desfiles das escolas de samba do Rio de
Janeiro – ponto alto do carnaval brasileiro –, a maior rede televisiva
do país integrou-a à sua grade de programas tal como fez com as
transmissões de futebol em dias úteis que só começam quando acaba o
capítulo da novela das 9.
Nosso Carnaval agora é plim-plim, platinado – mesmo padrão de qualidade (e mesmos delays), mesmo esmero e mesmíssima aposta na infantilização da distinta audiência.
No domingo de Carnaval (15/2), o desfile das escolas só começou depois do Fantástico.
Dia seguinte, segunda-feira, os telespectadores de todo o Brasil que
pretendiam assistir ao desfile integral, ao vivo, tiveram que se
contentar com as escolas que desfilaram depois da exibição da novela e
do abominável reality show. Significa que as escolas que
desfilaram antes foram exibidas depois, de madrugada e na manhã
seguinte, gravadas. Ou, quem sabe, editadas.
Alguma coisa está errada quando a maior festa popular do país é
manhosamente privatizada, convertida em ativo de um portentoso grupo
empresarial e a sua cobertura sujeita a interesses alheios ao
jornalismo. É possível que dentro do organograma da rede a cobertura do
carnaval esteja fora do âmbito da Central Globo de Jornalismo. Problema
do organograma, ou da maneira com que foi concebido.
Problema doméstico
A cobertura de um evento público, oficial e patrocinado pelo erário,
deve seguir obrigatoriamente os paradigmas jornalísticos e não a lógica
dos departamentos comercial e de marketing.
Se as autoridades que concederam à Rede Globo a exclusividade para
cobrir o desfile carioca não parecem ter a necessária disposição cívica
para reclamar, problema delas – são parceiros de uma concessão que
deveria ser acompanhada e zelada como patrimônio nacional. E se os
veículos concorrentes – na mídia impressa, audiovisual ou digital –
engolem a sutil trambicagem, convém lembrar que a inconsequente Maria
Antonieta só se deu conta das mudanças que ocorriam à sua volta momentos
antes de perder a cabeça.
A submissão e o servilismo com que o grosso da mídia pega carona na
popularidade das atrações da Globo atende pelo nome de oligopólio. É
nome feio, não condiz com as normas republicanas e uma imprensa adulta.
Sugere algo assemelhado a impeachment, pena que o especialista no
assunto esteja olhando em outra direção.
Os desfiles no sambódromo do Rio pareciam ambientados num colossal
Projac (os estúdios globais em Jacarepaguá): as beldades e rainhas das
diferentes baterias, alas e escolas são “da casa” – começaram estrelando
comerciais consagrados nas telinhas da Globo, hoje brilham nos elencos
das intermináveis telenovelas e, nesta condição, obrigadas a participar
de, no mínimo, uma escola de samba (alguns pularam em várias). Chegou-se
à suprema combinação do real com o surreal ao sobrepor a trama da
novela das 9 ao clima carnavalesco reinante no país: o desfile da escola
de samba que homenageava o protagonista de Império, por casualidade, aconteceu na noite da Quarta-Feira de Cinzas.
Personagens que na véspera estavam na Sapucaí, 24 horas depois estavam
no estúdio que fingia Sapucaí, com adereços e figurinos diferentes, a
mesma trilha sonora e cenas do desfile real enfiadas no desfile
falsificado. Simplesmente genial: faltou pouco para que a justaposição
do mundo da fantasia com o mundo de mentirinha se transformasse em
pastiche. Chegaremos lá.
Parênteses além da fenomenologia: a ideia de resgatar Fátima Bernardes
para o jornalismo merece aplausos. Trata-se de uma profissional
qualificada, ótima entrevistadora, capaz de narrar acontecimentos sem
depender do texto que corre no teleprompter. Mas se hoje a ex-apresentadora do Jornal Nacional
está estrelando comerciais, não pode participar de qualquer cobertura
jornalística. Mesmo da forma discreta e elegante escolhida para comentar
os desfiles do sambódromo carioca.
Não importa que o seu programa matinal esteja fora da Central Globo de
Jornalismo. De novo, isso é problema organizacional doméstico.
Jornalismo, em qualquer departamento ou editoria, é jornalismo – tem
regras, princípios, deveres. O que importa – e muito! – é que ao admitir
a participação de um profissional em comerciais de TV e anúncios, fica
interditada automaticamente sua participação em qualquer missão
jornalística. É livre o caminho da volta, inadmissível a duplicidade.
Sem compostura
A transfiguração de Momo em Globeleza faz parte do processo de
mediatização e simplificação que, ao correr solto e livre, sem reparos
ou contrapesos, desanda e termina mal. O empenho em ressuscitar a todo
custo o Carnaval de rua e esticar o antigo tríduo para uma e até duas
semanas segue a mesma lógica do pé-na-jaca e do vai-levando que
jornalistas e comunicadores com as melhores intenções entendem como
alegria, descontração e inocência sem perceber seus efeitos colaterais e
deletérios.
O que é verdadeiramente novo nem sempre é novidade. E o que é
apresentado como atualidade muitas vezes são velharias recicladas. Desta
confusão e do despreparo das chefias para encarar problemas menos
óbvios nasce a atual obsessão pelos modismos.
Este foi o Carnaval do Selfie, nunca se apelou tanto para obter algum
retorno. O narcisismo nunca foi tão descaradamente explorado. Dona da
fama, mesmo de 15 minutos, a mídia sabe seduzir os anônimos. Jornais,
portais, emissoras de TV abertas ou pagas, rádios em horário nobre ou
plebeu, perderam completamente a compostura suplicando qualquer
participação do público. Mensagens, tuítes, torpedos, whatsapps,
autofotos, vídeos – desde que tratassem de carnaval, folia, euforia.
Este tipo de alegria tem algo de funesto. Rima com anestesia.
A campeã
Não é a primeira vez que enredos de uma escola de samba são financiados por empresas (públicas ou privadas), lobbies
(ostensivos ou disfarçados), governos, caudilhos, ditaduras ou
repúblicas. Neste Carnaval de 2015, dois países patrocinaram enredos: a
Suíça – primeira república federativa do mundo – pagou uma soma não
revelada à Unidos da Tijuca para louvar seus chocolates, relógios, neve,
neutralidade etc., etc. A Guiné Equatorial, ditadura de 35 anos, deu 10
milhões de reais à Beija-Flor para cantar a pujança da africanidade. No
dia em que desfilou (domingo à noite), jornais, portais e a TV
Globeleza não deram muita atenção ao polêmico subsídio manchado de
sangue, corrupção e miséria. Só lembraram de discuti-lo quando foi
anunciado o cobiçado primeiro lugar à estranha ave predadora fantasiada
de beija-flor.
Doping é isso: privação do senso moral.
fonte tribunadaimprensaonline





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