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09:50
ANDRADEJRJOR
EDITORIAL O ESTADÃO
Em março de 2009, o
Supremo Tribunal Federal (STF) pôs fim a uma longa batalha judicial a
respeito da demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol, em Roraima. A
mais alta Corte do País determinou que a demarcação da reserva deveria
ser contínua e que os não índios deveriam desocupar imediatamente o
local. Quase seis anos depois, os efeitos da decisão do STF no Estado de
Roraima são notórios. Conforme reportagem do Estado, a produção
agrícola caiu, aumentou o funcionalismo público e cresceram os repasses
federais. Ou seja, a região enfraqueceu-se economicamente e está mais
dependente da União, trilhando o caminho inverso do que era de esperar.
Alvo
de disputa desde os anos 70, a terra indígena Raposa-Serra do Sol foi
declarada em 1998 de posse permanente indígena por meio de portaria do
Ministério da Justiça, o que desencadeou diversos processos judiciais
questionando a decisão. Em 2005, o presidente Lula homologou novamente a
reserva, mas a contenda jurídica não cessou. Seria finalizada pelo STF
apenas em 2009, quando se estabeleceu que a reserva deveria ser
contínua, determinando a saída imediata dos agricultores não indígenas.
Ficava assim definido que a população indígena da área - em torno de 20
mil pessoas, na época - teria direito ao usufruto exclusivo das riquezas
naturais e das utilidades existentes na reserva, uma área com
aproximadamente 1,7 milhão de hectares e perímetro de mil km.
Como
era previsível, o Estado de Roraima, que atualmente tem metade da sua
área destinada a reservas indígenas, vem sofrendo as consequências da
demarcação da Reserva Raposa-Serra do Sol. Com a expulsão dos
agricultores, a exportação agrícola do Estado caiu pela metade. Em 2006,
a produção agrícola totalizava US$ 16,4 milhões. Em 2013, o valor já
não ultrapassava US$ 8 milhões. Essa queda não deixa de ser um reflexo
da diminuição da área dedicada à agricultura. Por exemplo, em 2009, 22
mil hectares de terra eram utilizados para a plantação de arroz. Em
2010, eram apenas 9 mil hectares.
Com a diminuição da sua
capacidade produtiva, o Estado de Roraima ficou ainda mais dependente do
governo federal, necessitando de maiores repasses. Em 2009, os repasses
da União foram de R$ 1,8 bilhão. Em 2013, totalizaram R$ 2,4 bilhões.
Com
a demarcação, a situação econômica e social de muitas pessoas - índias e
não índias - se tornou precária. Não poucos índios se tornaram
mendigos. Para alguns comerciantes, a solução foi migrar para a Guiana,
como forma de escapar de entraves burocráticos em Roraima. Segundo
comerciantes brasileiros instalados na Guiana, ouvidos pela reportagem
do Estado, a demarcação da reserva aumentou as exigências burocráticas;
por exemplo, a apresentação de documentos de posse de terras para obter
crédito e empréstimos no banco. Um servidor público relata também que,
"com a saída dos arrozeiros, a cidade perdeu economia. E o contrabando
(de gasolina, oriunda da Venezuela) virou meio de vida aqui".
Algumas
ONGs internacionais, que tiveram participação expressiva no processo
judicial da demarcação de terras contínuas da Raposa-Serra do Sol,
continuam atuantes na área e batalhando pela não integração dos índios,
já que entendem ser a integração um processo radicalmente desigual. No
entanto, para o antropólogo Edward Luz, ex-consultor da Funai, a
proposta de muitas das ONGs é um retorno ao passado e, com isso, "povos
indígenas brasileiros são impedidos de produzir, explorar as riquezas de
suas terras, e passam a viver na miséria. (...) Isso sem falarmos das
mulheres, que são submetidas a abusos de toda ordem sem que os homens
sejam punidos".
Os desafios da reserva indígena Raposa-Serra do
Sol são inúmeros. E levantam sérias dúvidas a respeito da capacidade do
Estado, seja em qual esfera for, para resolvê-los. O respeito aos índios
vai muito além da demarcação de terras exclusivas, e não
necessariamente passa por demarcá-las sempre. Casos complexos
dificilmente são resolvidos com soluções únicas predefinidas.
fonte avarandblogspot
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