editorial do Estadão
Os números são preocupantes. Cerca de 25 milhões de cidadãos brasileiros
aptos a irem às urnas deixaram de votar nos candidatos a prefeito e
vereador no primeiro turno das eleições municipais, seja por não terem
comparecido às secções eleitorais, apesar da obrigatoriedade do voto – o
que configura abstenção –, seja por terem votado em branco ou,
principalmente, anulado o voto. Em São Paulo, por exemplo, a abstenção
de 1,94 milhão dos 8,8 milhões de eleitores registrados, somada aos
367,5 mil votos em branco e 788 mil nulos, resultou em quase 3,1 milhões
de não-votos, praticamente o mesmo número de sufrágios que elegeu João
Doria.
Em cinco das capitais, onde de modo geral a ausência dos eleitores foi
mais expressiva, a soma aos votos brancos e nulos ultrapassou os 21%. O
índice mais alto foi registrado no Rio de Janeiro, 24,28%, seguido por
Porto Alegre, 22,51%; São Paulo, 21,84%; Belo Horizonte, 21,66%; e
Salvador, 21,25%. A capital paulista, porém, encabeça a lista dos
não-votos em números absolutos.
O fenômeno da abstenção somado aos votos brancos e nulos é um indício
claro da insatisfação e da falta de confiança dos brasileiros nos
governantes e na chamada classe política. Há dois fatores aparentemente
predominantes na criação desse estado de espírito: o desencanto e a
desilusão com um partido cujo grande líder, Lula, chegou a ter um índice
de aprovação popular superior a 80% no momento em que deixou a
Presidência da República e a indignação e o desalento diante da
revelação da corrupção generalizada na gestão da coisa pública, cujas
investigações não têm poupado figuras relevantes de praticamente nenhuma
legenda partidária.
A decepção com o desastre econômico provocado pela soberba, pelo
sectarismo ideológico e pela incompetência política e administrativa do
governo Dilma Rousseff foi claramente manifestada pelos brasileiros com a
fragorosa derrota imposta ao PT. Durante os dois mandatos de Lula, uma
conjuntura econômica internacional favorável havia abastecido os cofres
públicos com recursos suficientes para financiar uma gastança populista
que se tornou insustentável quando a “nova matriz econômica” sentiu-se,
irresponsavelmente, capaz de moldar à sua feição o mercado interno e
desdenhar do externo. Foi o começo do fim da ilusão do paraíso
lulopetista, que Dilma Rousseff se encarregou de acelerar com sua
inacreditável inabilidade política e incapacidade gerencial.
O descrédito em relação à política e aos políticos, portanto, pode ser
debitado ao vexame da aventura populista do lulopetismo, mas também à
descoberta, propiciada pela Operação Lava Jato e congêneres, de que os
autoproclamados pais da Pátria chefiavam uma quadrilha que se
locupletava com dinheiro público.
O PT havia se tornado eleitoralmente competitivo com a insistente
promessa, repetida ao longo de seus primeiros 20 anos de existência, de
passar o País a limpo e livrá-lo de tudo de errado que faziam “eles”, os
não petistas. No momento em que as investigações policiais demonstraram
que o rei estava nu, que até os “paladinos das causas populares” metiam
a mão no dinheiro do povo exatamente como as velhas raposas às quais se
haviam aliado, é natural que muitas pessoas de boa-fé, desiludidas,
tenham optado por esquecer que os políticos existem, preferindo cuidar
apenas da própria vida, como se fosse possível haver vida em comunidade
sem política. Esse é mais um desserviço prestado ao País pelos petistas,
que no fundo só valorizam o exercício de liberdades democráticas – como
votar e se manifestar nas ruas – por parte de cidadãos “confiáveis”,
aqueles que a nomenklatura partidária consegue manter sob controle por
meio de entidades e organizações sociais dependentes do Estado.
A alarmante incidência do não-voto neste primeiro turno do pleito
municipal deve ser interpretada como uma advertência aos políticos
brasileiros, como declarou o presidente Michel Temer: “A abstenção foi
muito significativa. Portanto, é um recado que se dá à classe política
brasileira para que reformule eventuais costumes inadequados”. Com longa
experiência na política, Temer sabe do que está falando. Como chefe do
governo, cabe-lhe a responsabilidade de um papel importante na
identificação e correção de “costumes inadequados”.
extraídaderota2014blogspot





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