por Vinicius Torres Freire Folha de São Paulo
Quando Collor foi afastado da Presidência, devido à abertura do processo
de impeachment, FHC recebeu uma ligação espantosa. "Venha para a casa
do Itamar [Franco, o vice], ele não quer tomar posse", dizia Roberto
Freire, hoje no PPS.
FHC abalou-se para lá, um tumulto de parlamentares, fofocas sobre
ministeriáveis e assessores a redigir decretos. Itamar estava deitado,
vestido, na cama do quarto. "De roupa? Que coisa feia, parece que o
cadáver nem esfriou", disse FHC. Enfim, o futuro presidente do Real iria
tomar posse, sim. Apenas se apartava da excitação, mostrava a seu modo
peculiar que não "estava ávido" pelo poder.
FHC contou a historieta ao final de um debate sobre a crise em seu
instituto, iFHC, com o cientista político Sérgio Abranches e o
economista Armínio Fraga, na noite de ontem. Seguindo os debatedores,
FHC disse que o "Estado faliu", dada a rigidez de gastos, em parte
devida à Carta de 88, a incompetências e ao encantamento da sociedade
com o gasto público que parecia sem limite.
O ex-presidente fazia referência indireta às preferências tripartidas de
seu partido em relação à crise: Aécio Neves (novas eleições), Geraldo
Alckmin (candidato em 2018) e José Serra (talvez com o PMDB num
impeachment e em 2018). Em política, há hora de "saber esperar" e
"calar", pois a crise vai "levar tempo".
"Estamos sendo movidos por Lava Jato e crise econômica." Como então
organizar um acordo, se não se sabe quem vai sobrar? Há um impasse, pois
é difícil, mas não impossível, que Dilma Rousseff retome o controle
(para Abranches, o governo não tem recursos, dinheiro, para reverter a
impopularidade, nem discurso que dê um sentido aos sacrifícios impostos
pela política econômica).
Quando a percepção da crise econômica for mais geral e profunda, talvez o
impasse se resolva, mas por ora não há nem projeto nem lideranças de um
bloco de poder qualquer para enfrentar os "custos altíssimos" da
solução da crise, diz FHC.
Abranches e Fraga disseram que soluções "tecnocráticas" para a crise
brasileira estão na mesa (reforma política profunda, constitucional, e
nova política econômica), ainda que sujeitas a debates. O problema é
político, de falta de lideranças.
Para Armínio "tudo está imbricado na crise política". Mas "não fazer
nada" é "empurrar para o buraco", uma crise "profunda inexorável": "do
jeito que está, o país não vai crescer".
Não se trata de crise cíclica, mas de algo gestado em uma década, desde
quando Lula 1 abandonou o plano de longo prazo de arrumação das contas
públicas, apresentado por sua equipe econômica e bombardeado pela então
ministra Dilma Rousseff. É preciso um plano radical de reformas de longo
prazo, até para dar algum alívio ao presente: fim de gastos
obrigatórios, revisão de todos os programas do Orçamento, austeridade-já
e reformas micro.
Segundo Abranches, o sistema político não está funcionando. Estão sem
rumo ou controle as negociação entre Executivo e Congresso, não há
controle da agenda parlamentar que vota qualquer coisa atirando para
qualquer lado. Reformas políticas sérias agora estariam fora de questão.
Urgente é haver lideranças que proponham um "acordo", uma "trégua",
pactuada por "políticos profissionais".
extraídaderota2014blogspot





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