editorial de O Globo
A crise fiscal expõe a que ponto chegou o aparato estatal, cujas despesas equivalem a 40% do PIB, e mesmo assim ainda ostenta um déficit elevado
A crise fiscal — ainda em seu início, pois apenas na segunda-feira o
governo apresentou um conjunto de medidas para tentar equilibrar a
proposta de Orçamento para 2016 — cumpre até agora dois papéis
relevantes. Um, comprovar quão ruinosas são as políticas
“desenvolvimentistas”, por explodirem as contas públicas em nome de um
crescimento econômico nunca atingido; e o outro, projetar luz sobre o
Estado, despido à frente da sociedade com seu gigantismo em várias
áreas, carências em outras, gastos desmesurados, castas. Um enorme
aparato que, como previsto desde a promulgação da Carta de 1988,
ultrapassou a capacidade de o país pagar seu custo.
Ao optarem por um Estado tutor e interventor, com missões múltiplas —
entre outras, dar saúde e educação gratuitas e de boa qualidade, acabar
com a pobreza —, os constituintes da redemocratização lançaram as
fundações de um aparato de “bem-estar” que talvez só pudesse ser
financiado sem maiores dificuldades por uma economia capitalista já
desenvolvida.
Mas não havia no Brasil sequer renda para isso, intuía o então
presidente José Sarney e alertava o ministro da Fazenda da época,
Maílson da Nóbrega. Era claro na década de 90 que o Brasil da
Constituição de 88 já não cabia no PIB.
Foi chave para este desnudamento do Estado o primeiro governo Dilma
radicalizar o estatismo e dirigismo, ao criar o “orçamento paralelo” do
Tesouro dentro do BNDES, distribuir incentivos tributários sem maiores
cuidados, e assim por diante. Seguia a cartilha ruinosa do “novo marco
macroeconômico”. Chegou-se, então, ao ponto em que uma das oito
economias do mundo gasta cerca de 40% do seu PIB, acumula um déficit
nominal (incluindo juros) de 5%, padece de uma inflação próxima dos 10% e
se encontra atolada numa recessão. Parâmetros de UTI.
Para cumprir missões beneméritas da Carta de 88, engessaram-se por meio
legal cerca de 90% do Orçamento (gastos com Previdência, Saúde,
Educação, folha de servidores e diversos programas sociais). E ainda
atrelaram boa parte desta gigantesca conta aos reajustes do salário
mínimo. Armou-se uma destruidora bomba-relógio com nova data para
explodir: quando o novo mínimo entrar em vigor em 2016. Nesse momento,
despesas ditas sociais crescerão 0,2% do PIB, calcula-se, mesmo com as
receitas em baixa.
Por óbvio, sem reformas profundas não haverá saída para esta confusão
fiscal. O pacote de segunda sequer arranha a questão. A crise, ao menos,
dá chance para o enfrentamento de questões centrais, hoje à vista de
todos.
extraídaderota2014blogspot





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