por Alexandre Schwartsman Folha de São Paulo
Nunca fora um grande atleta, mas Brasílio se sentia ainda mais fraco.
Não conseguia sustentar o ritmo das passadas e seus tempos na corrida
começaram a subir visivelmente. Preocupado, foi procurar a nova médica,
que recentemente se instalara nas vizinhanças, em busca de diagnóstico e
tratamento.
Dra. Vilma chamou uma junta de especialistas de sua confiança, em
especial o Dr. Bellezza, e decretaram que a queda de desempenho de
Brasílio tinha uma causa simples: desnutrição.
O remédio era a dieta do Dr. Bellezza: sete refeições ao dia, ricas em
carboidratos e gordura, regadas a doses generosas de refrigerantes e
finalizadas com sobremesas variadas.
Não era uma opinião compartilhada por todos os especialistas. Boa parte
deles considerava que Brasílio já andava meio gordinho e que o problema,
na verdade, resultava de insuficiência cardíaca.
Brasílio, porém, nunca gostara de dietas muito rígidas e lembrava bem
como, uns anos antes, havia sofrido de desnutrição por conta de uma
piora na qualidade da comida importada, que lhe causara fraqueza
considerável.
Não havia, é bom que se diga, nenhuma indicação que a comida importada
tivesse sofrido qualquer deterioração visível nesta ocasião, apesar dos
alertas estridentes do Dr. Pombini a respeito.
Seja como for, Brasílio embarcou na onda. Com as sete refeições do Dr.
Bellezza passou a se sentir muito feliz. Sempre gostara de massas,
churrascos, doces, refrigerantes e a sensação de consumi-los por ordem
médica, sem culpa, era inigualável.
Não houve, porém, qualquer melhora em sua performance. Pelo contrário,
os tempos continuaram a piorar, agora acompanhados de fortes dores
musculares.
Voltou à Dra. Vilma que, aconselhada pela junta, não apenas manteve o
diagnóstico, como reforçou a dose: agora eram nove refeições e os
refrigerantes, antes opcionais, passaram a ser obrigatórios.
O desempenho piorou ainda mais e Brasílio chegou a cogitar consultar
outro médico, mas a perspectiva de perder a feijoada de quartas e
sábados, a picanha nossa de cada dia, os doces à vontade, assim como a
alegria advinda da sensação da barriga permanentemente cheia falaram
mais alto e ele manteve a Dra. Vilma.
Até que, certo dia, sofreu um colapso. Já não se tratava sequer dos seus
tempos na corrida: sua temperatura havia subido, seu peso havia
ultrapassado todas as medidas razoáveis (apesar das tentativas da equipe
da Dra. Vilma de alterar o funcionamento da balança e do termômetro) e o
seguro-saúde passou a cobrar prêmios elevadíssimos.
Veio o novo diagnóstico: era mesmo insuficiência cardíaca.
Dra. Vilma colocou a culpa na comida importada (!), mas, mesmo assim,
mudou sua equipe, agora chefiada pelo Dr. Manoel Cohen, que tentou
enquadrar Brasílio numa dieta severa. Cortaram o refrigerante, mas não
conseguiram fazê-lo largar dos carboidratos, nem da gordura.
Brasílio segue prostrado e os prêmios da seguradora explodiram. Ainda
assim, Dr. Bellezza e seus asseclas culpam a dieta, mal-e-mal adotada
desde o começo do ano, pelos problemas do paciente, aferrados ao
diagnóstico de desnutrição, apesar da barriga saliente, e a Dra. Vilma
ainda resiste aos conselhos do Dr. Cohen.
Enquanto os charlatões vociferam, Brasílio agoniza, numa maca imunda do Sistema Único de Saúde.
extraídaderota2014blogspot





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