editorial da Folha de São Paulo
Mesmo quem segue de perto a Operação Lava Jato haverá de perder a conta
em algum momento –se é que já não a perdeu. Tantas são as fases em que
se desdobra a investigação da Polícia Federal sobre as propinas em
contratos da Petrobras que a memória de seus detalhes naturalmente se
perde no colossal conjunto do escândalo.
Tendo recebido o nome de Radioatividade, a mais recente etapa,
desencadeada na terça-feira (28), é a 16ª da série, não havendo quem
possa prever quantas mais virão.
Um aspecto, contudo, diferencia este capítulo dos que o precederam. Pela
primeira vez, as lentes escrutinadoras se voltam para o setor elétrico.
Estão sob suspeita, entre outras, as obras de construção da usina
nuclear de Angra 3, estimadas em R$ 15 bilhões.
Do valor dos contratos, terá sido cobrado 1% em benefício de dirigentes
da Eletronuclear. O presidente licenciado da estatal, o almirante da
reserva Othon Luiz Pinheiro da Silva, teve sua prisão temporária
decretada.
Se o almirante –que nos anos 1970 e 1980 dirigiu o programa secreto de
enriquecimento de urânio da Marinha– aparece pela primeira vez na
crônica aberta pelo petrolão, o mesmo não se pode dizer de outras peças
da negociata elétrica.
Lá estão, sem surpresa, empreiteiras como Andrade Gutierrez, Odebrecht,
Camargo Corrêa e UTC. Veio de dirigentes destas duas últimas empresas,
já presos e em conformidade com o acordo de delação premiada, a denúncia
das irregularidades na Eletronuclear.
Também as obras da hidrelétrica de Belo Monte e as relações das
empreiteiras com a Eletrobras foram citadas por Dalton Avancini,
ex-presidente da Camargo Corrêa, e Ricardo Pessoa, dono da UTC.
Siga-se a linha pontilhada dos depoimentos, das acusações e dos
contratos e o círculo se completa com o nome do ex-ministro de Minas e
Energia, Edison Lobão, e com seu partido onipresente e incansável, o
PMDB.
Avancini afirma que a Camargo Corrêa pagou R$ 10 milhões ao
peemedebista, senador pelo Maranhão; da parte da UTC, Ricardo Pessoa
acrescenta que também no âmbito do Tribunal de Contas da União correram
gratificações de modo a que se aprovasse Angra 3.
Novas frentes de investigação se descerram, portanto, num universo cujas fronteiras ninguém se arrisca a delimitar.
Não são tantas, é verdade, as empreiteiras com o porte necessário para
atividades desse nível. Mas se multiplicam os políticos que, dentro do
PMDB, do PT e de outros partidos, ocupam a outra ponta do esquema –e as
ações da Justiça a esse respeito seguem ritmo bem mais lento. É tempo de
vê-los diante das autoridades a se explicar sobre seus atos.
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário