por Marco Antonio Villa
Os efeitos judiciais do processo do petrolão vão atingir em cheio o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto
Já escreveu o filósofo João Cruz Costa que o Brasil tem a sua própria
história das ideias. Desde o processo independentista foram elaborados
diversos projetos para o país. Alguns — menos ousados — optaram por
discutir e apresentar propostas de questões mais imediatas. Mesmo sendo
um país da periferia, temos um pensamento político e econômico. Mas,
cabe reconhecer, que nem sempre fomos muito originais. No século XX,
especialmente a partir dos anos 1930, o principal embate ideológico foi
entre os marxistas e liberais. Na maioria das vezes, os dois campos
produziram pastiches adaptando a fórceps a especificidade brasileira aos
cânones ideológicos ocidentais. Consequentemente, a qualidade e a
originalidade da produção e do debate político-econômico foram ruins,
não passando da recitação de slogans vazios.
Durante decênios assistimos a um embate entre dois modelos que o Brasil
deveria seguir: o socialista (tendo na União Soviética a principal
matriz) ou o capitalista (a referência maior era os Estados Unidos). Foi
produzida ampla literatura — geralmente de qualidade sofrível. Nenhum
dos dois lados conseguiu identificar que o Brasil teve uma história
muito distinta. O desenvolvimento de um capitalismo tardio na periferia
deu ao nosso pais tarefas e problemas a serem enfrentados que não eram
os mesmos dos modelos apregoados pelos repetidores do liberalismo ou do
marxismo.
O Estado forjado pela Revolução de 1930 passou a ter decisiva presença
na economia devido a uma necessidade histórica. Não havia capitais
privados para o enfrentamento das tarefas indispensáveis ao
desenvolvimento nacional. Sem isso, o Brasil continuaria um país de
segunda classe. O problema foi que, de um lado, os marxistas idealizaram
este processo fechando os olhos para, entre outros problemas, o
empreguismo e a corrupção. Por outro lado, os liberais demonizaram o
intervencionismo estatal como se não houvesse distinções radicais entre a
formação histórica brasileira e a estadunidense. Apesar do oportunismo
marxista, isto não alterou em nada a ação repressiva estatal contra eles
próprios. Também em relação aos liberais, seus pregoeiros silenciaram
(quando não apoiaram) as ditaduras (tanto a militar como a do Estado
Novo, ambas sob forte influência do positivismo).
Este processo de esquizofrenia política foi se acentuando no fim do
século passado. A queda do Muro de Berlim poderia ter conduzido a uma
revisão do pensamento marxista (e seus assemelhados) e do liberalismo.
Mas não. O primarismo analítico permaneceu. Os marxistas mantiveram o
antigo inimigo (o imperialismo americano) e adaptaram sua visão de mundo
tendo no velho caudilhismo latino-americano — agora recauchutado — o
pilar principal de atuação política. No caso brasileiro — como o
caudilhismo clássico nunca foi um elemento dominante — restou dar a Lula
este papel, com nuances, claro, dada a distinção entre a formação
social brasileira e a América Latina de colonização espanhola. Já os
liberais adotaram como referência as ações desenvolvidas nos Estados
Unidos e na Inglaterra nos governos Reagan e Thatcher, como se o
capitalismo tupiniquim fosse similar ao daqueles países.
Em meio a este terreno coalhado de néscios, pensar o Brasil na complexa
conjuntura que vivemos não é tarefa fácil. Um bom caminho é retomar a
nossa história das ideias, ler nossos clássicos, aqueles que pensaram de
forma original o Brasil. E desafios não faltam. O que fazer com a
Petrobras? Novamente temos de romper o círculo de ferro das soluções
primárias. A questão central é entender o que aconteceu com a ex-maior
empresa brasileira. Não cabe dizer que tudo o que está ocorrendo não
passa de uma conspiração externa e, portanto, deixar tudo como está. Ou
afirmar como solução mágica a privatização da empresa fazendo coro com o
marido traído que resolveu trocar o sofá da sala. São dois meios de
pensar que reforçam a adoção de soluções simples e, geralmente,
absolutamente equivocadas. Cabe entender histórica e politicamente como a
Petrobras chegou a essa situação e quais os caminhos para retirá-la das
mãos dos marginais do poder e seu projeto criminoso antirrepublicano e
antinacional.
Da mesma forma, teremos de encontrar os meios para combater a
administração Dilma. Tudo indica que viveremos uma presidência sob crise
permanente. O governo nem bem começou e já ocorreu um atrito entre a
presidente e seu ministro do Planejamento. E é só o primeiro. A bacharel
— que durante anos se apresentou como “doutora” em Economia — chegou
até a recusar um convite para um banca de doutorado dizendo “não ter
tempo para essas bobagens” — vai querer dar seus pitacos, principalmente
com o agravamento da situação econômica. E, também nesta questão, temos
de fugir da velha polaridade.
A crise política é inevitável. Os efeitos judiciais do processo do
petrolão vão atingir em cheio o Congresso Nacional e o Palácio do
Planalto. Teremos, efetivamente, o grande teste das nossas instituições —
o impeachment, em 1992, não passou de um ensaiozinho: chutar cachorro
morto, todo mundo chuta. As antigas formas de pensar vão, como de
hábito, recitar suas ladainhas, eivadas de estrangeirismo, preconceito e
autoritarismo. O desafio vai ser o de encontrar uma saída democrática,
original e de acordo com a nossa formação histórica. Pode ser o tão
esperado momento de ruptura que estamos aguardando desde 15 de novembro
de 1889, quando a República foi anunciada, mas até hoje aguarda,
ansiosamente, ser proclamada.
fonte rota2014





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