por Rodrigo Constantino
O Globo
A presidente virou ‘neoliberal’ do lado direito, mas continua desenvolvimentista do lado esquerdo? Qual lado falará mais alto? Quanto tempo Levy aguenta no cargo?
Começo o ano novo repleto de dúvidas, as quais gostaria de compartilhar
com os leitores em busca de uma reflexão conjunta que possa lançar luz
sobre tantas questões sem respostas. Parto da premissa de que a
presidente Dilma está com boas intenções e realmente deseja o melhor
para o país. Não é, portanto, implicância pessoal ou algo do tipo. É só
que palavras e atos parecem não bater direito.
Por exemplo: a economia está ou não desajustada? Perco noites de sono
martelando essa pergunta em minha cabeça. Lembro-me muito bem de quando
criticava a gestão econômica do primeiro mandato, apontando a
insustentabilidade das medidas do governo, seu foco de curto prazo, o
claro risco de fomentarem a inflação mesmo sem crescimento econômico.
Mas era acusado de pessimista pelos defensores de Dilma. A própria
presidente disse com todas as letras que nenhum ajuste era necessário,
que estava tudo em ordem, que havia apenas um pequeno problema
conjuntural causado pela crise internacional (do qual os demais
emergentes parecem não ter tomado conhecimento). Agora a presidente
promete ajustes indolores, um oximoro, uma nova ilusão. Mas então a
economia está mesmo desajustada? Não era, afinal, pessimismo apontar
para o declínio da atividade e a ascensão do índice de inflação?
Outra dúvida que me angustia é o grau de compromisso da presidente com
tais ajustes “indolores”. É para cortar na carne? Por isso um
“fiscalista” ortodoxo como Joaquim Levy assumiu a pasta da Fazenda? Mas
essa mensagem é transmitida aos investidores simultaneamente ao maior
Ministério de que se tem notícia no mundo, com tanta gente que a
presidente seria incapaz de elencar um a um todos os nomes? A presidente
virou “neoliberal” do lado direito, mas continua desenvolvimentista do
lado esquerdo? Qual lado falará mais alto? Quanto tempo Levy aguenta no
cargo?
Por falar em ministérios, eis outra dúvida cruel que me atormenta: qual o
critério usado para a escolha dos nomes? A presidente Dilma não ia
combater o fisiologismo presente na raiz de nossa corrupção? E como
exatamente isso se alinha ao ato de colocar pessoas que nada entendem de
suas respectivas áreas, sendo o único critério aparente a filiação
partidária? Como esses ministros poderão fazer algo de bom para o país?
Por que tanto interesse nos ministérios? Seria apenas para usar os
recursos públicos para seus fundos partidários ou enriquecimento
pessoal?
Em seu discurso de posse, Dilma disse que a educação será a “prioridade
das prioridades”. Deixando de lado o fato de que ela não caiu de
paraquedas no governo agora, e que faz parte de um partido que está no
poder há 12 anos, período no qual o Brasil foi mal nos rankings
internacionais de educação, resta perguntar: a prioridade com o setor
foi demonstrada com a indicação de Cid Gomes para o ministério? É isso
mesmo?
O ex-ministro Gilberto Carvalho, homem da confiança de Lula no Planalto,
disse, ao deixar o cargo, que os petistas não são ladrões, e que a sua
quadrilha é a dos pobres. Ainda há pobres no PT? Então por que os
petistas só usam o hospital privado mais caro do país?
Por que vemos os figurões do partido levando uma vida que nem os nababos
capitalistas, tão atacados em seus discursos, sonhariam em levar?
Outra coisa: “ladrão” é o termo certo para designar aqueles que montaram
o maior sistema de corrupção já visto na História deste país? Não seria
suave demais? Ao chamarmos assim gente que desviou bilhões da maior
estatal brasileira, não estaríamos colocando no mesmo saco mafiosos e
batedores de carteira? Haveria algum termo melhor para identificar quem
aparelhou toda a máquina estatal em benefício próprio e de um projeto de
poder, usando os pobres como massa de manobra a ser explorada pelo
populismo indecente típico dos coronéis nordestinos?
Como o leitor pode ver, são muitas dúvidas que tiram minha tranquilidade
neste começo de ano. E tem muito mais. Por exemplo: alguém ainda leva a
sério o discurso de que o PT se preocupa com os mais pobres? Quem o faz
tem problemas cognitivos ou é de caráter mesmo? Por que o silêncio
constrangedor de todos os eleitores de Dilma quanto ao evidente
estelionato eleitoral em curso?
“Julga um homem por suas perguntas mais do que por suas respostas”,
dizia Voltaire. Por isso, quis abrir 2015 fazendo perguntas, e não
oferecendo respostas. Talvez o leitor possa me ajudar a elucidar tais
questões. Mas, entre tantas dúvidas, uma realmente me enche de
perplexidade: como um partido como o PT está no poder há 12 anos? Seria o
brasileiro um masoquista?
fonte rota2014





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