por Mário César Flores
Nosso PIB cresce menos que os do Chile, Peru, Colômbia, Paraguai e
Bolívia, muito menos que os da China e Índia! Na América do Sul só
crescem menos os da Argentina e Venezuela, países na contramão da
economia global. No contexto do PIB mambembe: gastos públicos elevados,
maquiados por "mágicas" que pretendem equilibrar receita e despesa - de
que é exemplo a legalização do desrespeito à Lei de Responsabilidade
Fiscal no episódio do superávit de 2014 -, inflação renitente e juros
altos, tributação pesada, infraestrutura insatisfatória, se não caótica,
risco de crise de energia, produtividade medíocre, indústria recuando
na composição do PIB, comércio externo em declínio, desvalorização do
real, obsessão consumista, e por aí vai... Somem-se a esse cenário os
problemas nacionais e transfronteiriços a que o Brasil não está imune:
meio ambiente, clima, aquecimento global, uso de recursos naturais,
biodiversidade, poluição...
Crise dessa gravidade exige condução competente. Nossa sistemática política é capaz de atender à exigência?
A modelagem inicial da política brasileira aconteceu ao tempo do
latifúndio escravocrata, naturalmente propenso ao patrimonialismo
patriarcal-autoritário. No Império e na Primeira República suas práticas
ditas democráticas eram contaminadas e comprometidas pelo "voto do
cabresto patriarcal rural", controlado pelo poder de turno. Ajustados à
época, resquícios dessa herança cultural permanecem vivos, com os
"coronéis rurais" pré-1930 substituídos por caciques urbanos (inclusive
populistas e sindicalistas) distribuídos em ene (?) partidos, a maioria
deles pautada pelo pragmatismo que facilite o acesso à participação no
poder. Com o "voto do cabresto patriarcal rural" substituído pelo "voto
do cabresto populista e assistencialista urbano", parte ponderável da
grande massa mantida na esperança e à mercê do salvador. A presença
dessa sistemática cultural na configuração do poder político ameaça
estender-se no tempo porque, na "democracia da aritmética eleitoral"
viciada pela publicidade ilusória, quando não inescrupulosa, o eleitor
de cultura cívica vulnerável à ilusão propicia a vitória do fascínio
messiânico-populista nas eleições, em tese, democráticas.
Um quadro político como o esboçado não ajuda a reduzir (quando não
agrava) o risco de grave crise econômica. Tampouco ajuda a reduzir
(quando não agrava) nossa precária situação social - ensino fundamental e
médio medíocres e universidades de razoável instrução profissional e
praticamente nula cultura cívica e geral, atendimento caótico nos
serviços de saúde de responsabilidade pública, criminalidade e delitos
de toda ordem praticados por todas as camadas da pirâmide social,
comumente na esperança da impunidade decorrente da pusilanimidade da lei
e das limitações da polícia e da Justiça.
Resultado: ao invés de políticas e projetos de desenvolvimento, hoje
necessariamente temperados pela social-democracia, que resolvessem
nossos problemas fundamentais e evitassem a crise caótica, vivemos um
arremedo de neoterceiro-mundismo inibidor da integração saudável com o
mundo desenvolvido, combinado com a prática de políticas e projetos
populista-eleitoreiros que comprometem o equilíbrio fiscal e outros de
fato convenientes, que se estendem no tempo e cujos contratos são
onerados sistematicamente por aditivos que exponenciam os custos, por
preparo e condução deficientes e nem sempre virtuosas (sejamos
complacentes...), haja vista a avalanche de escândalos que se sucedem.
Poderemos evoluir para um modelo político eficiente e probo, com poucos
partidos ideológica e pragmaticamente consistentes, responsáveis e
balizados por ideias construtivas, poderemos evoluir para o fim desse
modelo ilógico de dezenas de partidos amorfos, aglutinados em coligações
inspiradas no poder e seu usufruto, com o partido protagônico vivendo a
síndrome patológica do Partido Revolucionário Institucional (PRI)
mexicano, messiânico e pretendente à perpetuação no poder? Será que isso
pode ocorrer num horizonte de tempo curto e dentro do balizamento da
ordem democrática, sem traumas violentos? O momento político não
estimula otimismo e o corolário dessa esperança frágil é a incerteza
quanto ao encaminhamento correto da crise nacional.
Mas qualquer regime político que não produz poder político de qualidade,
em particular o democrático, não é seguro. Mais dia, menos dia suas
insuficiências estimulam no povo a esperança no salvacionismo de regime
forte, já latente na alma cultural brasileira - à semelhança do ocaso
catastrófico da República de Weimar, exemplo radical que felizmente a
índole folgazã do povo brasileiro o faz inviável aqui. Entretanto, não
estamos livres de um acerto entre o grande capital e o populismo (o
macroescândalo da Petrobrás já sugere a hipótese) camuflado de
democracia pela eleição (viciada...), em que o suposto messianismo
salvador manobra os meandros tolerantes da dinâmica democrática para
instituir suas medidas de conteúdo democrático no mínimo discutível - a
exemplo do "controle social da mídia" - e conduzir soluções que não
solucionam, se não agravam, o risco de crise nacional traumática.
A gravíssima crise de há 120 anos, nos 1890, foi controlada pela
política austera do ministro da Fazenda Joaquim Murtinho. O Joaquim Levy
chamado a resolver a não menos grave crise atual terá da presidente
Dilma o apoio que Murtinho teve do presidente Campos Sales, para
resistir às pressões contrárias à austeridade necessária, nos setores
público e privado? A nova equipe econômica resistirá à pressão popular
e, sobretudo, à congressual de inspiração patrimonialista ou
paroquial-eleitoreira? Haverá associação de condutas entre Executivo e
Legislativo, ou dissociação similar ao ocorrido no governo Collor?
O alerta está acionado e a luz amarela, acesa. Passará a verde? Ou vermelha?
A ver... E torcer.
fonte rota2014





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