por Fernando Gabeira O ESTADO DE SÃO PAULO
O
chamado ajuste fiscal foi um ajuste no cinto das viúvas, dos
desempregados e dos pescadores. O governo reduziu brutalmente seu
alcance, sob o argumento de que a realidade é pior do que imaginava. Ou o
governo não tinha uma ideia precisa da realidade ou contou mais uma
mentirinha para embalar o País. A tática de Dilma é esta. Ela não muda
jamais. Apenas conta uma nova mentirinha para ganhar tempo. Foi assim
nas eleições, foi assim com o ajuste fiscal.
Sempre
que as coisas complicam, Dilma chama o marqueteiro João Santana para
buscar uma saída. A próxima tese a ser desenvolvida no programa do PT,
certamente ao som das caçarolas, é a de que o Brasil foi pior no
passado. Essa brecha é excelente como orientação aos ministros. No caso
do crescimento da dengue, poderiam fazer um programa mostrando que a
gripe espanhola foi muito pior, ou a peste bubônica, por exemplo.
Uma
das razões que condenam o ajuste fiscal de Dilma é o seu isolamento
político. Quanto mais isolada, mais gastará para sair da marca do
pênalti. Um exemplo: as emendas parlamentares. Em épocas normais, o
governo as libera a conta-gotas. No auge da crise, está liberando geral,
para evitar novas derrotas no Congresso. E vai empregar em massa
quadros de segundo e de terceiro escalões.
O
destino de Dilma, que precisa gastar para sobreviver e morre um pouco
mais quando gasta, é parecido com o de um personagem de Balzac no livro
que se chamou aqui A Pele de Onagro. A cada desejo que um talismã mágico
realiza, a pele se contrai e a morte do dono do talismã se aproxima.
Isso
é uma interpretação pessoal de um dos elos entre política e economia.
Num cenário de triunfo do populismo, sobraria algum caminho demagógico
para trilhar. Mas o Brasil iria para o espaço, não necessariamente para
Plutão ou o Kepler-452b, mas para a Grécia em ruína.
Não
é golpismo pensar no Brasil sem Dilma. Na verdade, é uma das tarefas
dos que procuram uma saída no horizonte. Uma saída que só pode ser
constitucional. O que há de golpismo em pedir impeachment de um
presidente? Está previsto em lei.
A
democracia é tão elástica que absorve até projetos que mudem a lei,
como, por exemplo, a legalização da maconha e a união gay. Se não é
proibido tentar, democraticamente, alterar uma lei, por que o seria
utilizar uma lei que já existe?
Toda
essa gritaria sobre golpismo é um mecanismo para intimidar. Agora
decidiram, além de intimidar, comover a plateia. Lula disse que os
petistas são perseguidos como os judeus no nazismo, os cristãos em Roma,
os italianos no fascismo.
Curitiba
não é Dachau ou Auschwitz. E em Roma os cristãos eram entregues ao leão
na arena. Num único momento eu me lembrei do leão, um cara de bigode da
Receita Federal que disse que havia arrecadado parte do imposto que as
empreiteiras devem no petrolão e esperava arrecadar mais. Cristãos estão
sendo trucidados no Oriente Médio. E um dos seus algozes é o Estado
Islâmico, com quem Dilma queria dialogar.
Ao
recusar um encontro com Dilma, a oposição mostrou que não gosta mais de
apanhar. Já é um passo. Muito pequeno, entretanto, para o árduo período
de transição até 2018, quando esperamos, simultaneamente, um
abrandamento da crise e novas eleições.
Essa
transição não se fará excluindo partidos políticos. Mas é preciso
encontrar uma fórmula em que tenham peso também forças sociais não
diretamente envolvidas com o processo eleitoral.
A
transição é dura. Possivelmente, os líderes da oposição temem consertar
todos os estragos feitos pelo PT, que usaria este período para propor
de novo o paraíso. Eles temem, creio, um cenário perverso: o PT
desorganiza a máquina econômica, se afasta durante o conserto e volta,
triunfalmente, para arrasá-la de novo.
É
um cenário que ignora o aprendizado do povo brasileiro e supõe que ele
vá se comportar sempre da mesma maneira, independentemente de sua
experiência histórica.
São
essas dificuldades do Brasil pós-Dilma Rousseff que inibem a oposição e
outros atores democráticos. A opção de deixá-la sangrando, fazer com
que pague por seus erros, tem a força da inércia.
O
fiasco do ajuste fiscal indica o horizonte de crise que se estende até,
pelo menos, 2017. Para quem está desempregado, a crise adia suas
esperanças; para quem teme o desemprego, aprofunda sua angústia; para
quem tem sonhos de progredir no próprio emprego, a saída é se conformar.
São dois caminhos claros para a escolha nacional: com ou sem Dilma.
Naturalmente,
há os que ainda acham o governo bom e gostariam de vê-lo continuar. São
poucos, segundo as pesquisas. Mas, ainda assim, é muito grande o número
de pessoas que acham que o governo deve prosseguir, apesar de tudo. Ou
por um discutível respeito à lei ou pelo prazer de ver o PT se queimando
nos incêndios que o próprio partido provocou.
Existem
frentes, relativamente autônomas, impulsionando uma saída. Uma dessas
frentes é o Tribunal de Contas da União (TCU), que julgará as pedaladas
fiscais. Outra é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que julgará as
denúncias sobre a campanha de Dilma.
As
anotações de Marcelo Odebrecht falam em avisar ao Edinho, tesoureiro de
Dilma, que as contas na Suíça poderiam chegar à campanha dela. As
contas na Suíça foram, parcialmente, reveladas.
Tudo
isso já não depende tanto de interferência, apenas de atenção. O
problema é pensar um caminho até 2018 com um enfoque na economia.
A
tendência, além do aumento do desemprego e das tensões sociais, é
também da multiplicação de ruínas, por falta de investimento. O projeto
de Dilma, assim como o de Lula, era o de um crescimento impulsionado
pelo poderoso Estado brasileiro, hoje falido.
No
fundo, aquelas pontes fantasmas do Tocantins que ligam o nada a lugar
nenhum são a antevisão de alguns esqueletos com os quais vamos conviver
nos próximos anos.
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