Opinião J. R. Guzzo: Publicado na versão impressa de VEJA
Nunca antes, na história
deste país, tal filosofia de vida prosperou tanto. O resultado é a
criação de um ambiente em que o grau de sucesso dos políticos é medido
pela distância que os separa do xadrez. Estar “blindado” — ou seja, não
se sentir ameaçado por provas efetivas de má conduta — tornou-se a
prioridade das prioridades, e um sinal superior de competência. Vitória,
na política brasileira de hoje, é isso. É um problema, pois aí se abre
um amplo portal de entrada para o tráfego de posturas que normalmente
matariam de vergonha qualquer cidadão interessado em manter o seu bom
nome — e que hoje são tratadas como a coisa mais normal do mundo. A
pergunta, na vida pública do Brasil de 2015, deixou de ser: “Está certo
fazer isso?”. Passou a ser outra: “Fazer isso vai me causar problemas
com o Código Penal?”. Se não vai, ou se for difícil a Justiça provar que
vai, tudo bem — vamos em frente.
É o caminho mais prático, como dito no
início — ao mesmo tempo, é o motivo pelo qual as biografias a ser
deixadas pelos que mandam hoje no governo parecem condenadas, cada vez
mais, a ficar abaixo da linha da pobreza. Há pouco tempo, numa
reportagem publicada na Folha de S.Paulo, a jornalista Estelita
Carazzai produziu um desses trabalhos que não costumam ganhar prêmios,
nem mexem com o movimento de rotação da Terra, mas que demonstram com
impecável precisão a vida como ela realmente é nos lugares onde as
coisas realmente se decidem. A reportagem reproduz mensagens trocadas na
noite do segundo turno da eleição presidencial de 2014, e que são
investigadas pela Operação Lava-Jato.
“Dilminha ganhou!!!!!”, escreve ali para
um colega empreiteiro, com todos esses cinco pontos de exclamação, o
executivo Léo Pinheiro, então presidente da OAS e no momento em prisão
domiciliar. Ele anexa também a imagem de uma represa vazia, com um
recado para a oposição: “Favor chorar aqui”. Numa mensagem enviada
antes, ele diz: “Aécio despencando! Boa notícia”. As mensagens que
recebe são do mesmo tom. “Desemprego em baixa. Muito bom… Vai dar 10% na
urna de diferença, no mínimo”, escreve para ele o vice-presidente da
OAS, Cesar Mata Pires Filho. Um outro companheiro lhe diz: “Mais que
nunca, Super Ministro da Infraestrutura, Leozinho”. Léo responde:
“Rsrsrsrs”.
Não há desculpa possível para uma coisa dessas — a
fotografia em altíssima definição dos verdadeiros sentimentos que as
empreiteiras têm em relação ao atual governo. A reação da máquina
oficial é um perfeito sinal dos tempos. “E daí?”, foi sua pergunta
básica. “Dilma não tem culpa se as construtoras de obras públicas gostam
dela.” Ninguém é responsável, claro, pelo que os outros escrevem. Mas
fica a questão que realmente importa: por que essa gente toda que está
na cadeia ou usando tornozeleira, por ter participado comprovadamente dos mais agressivos atos de corrupção da história nacional, gosta tanto assim da presidente Dilma?
Gosta e paga: sua campanha de 2014 gastou 320 milhões de reais,
na maior parte fornecidos pelos empreiteiros — e o fato de que também
doaram para a oposição só torna as coisas piores, ao deixar provado que
não pagam por acharem um lado melhor que o outro para os interesses do
país, mas apenas porque querem comprar os dois. A reportagem citada
acima joga luz sobre o lado mais escuro da política brasileira de hoje.
Estará reproduzida, palavra por palavra, em qualquer biografia séria a
ser escrita sobre Dilma Rousseff e seu governo.
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