editorial da Folha de São Paulo
Não se pode dizer que a prisão de José Dirceu tenha sido uma surpresa. O
próprio ex-ministro já a dava como certa –e desde o início de julho
buscava impedi-la por meio de habeas corpus preventivos, afinal
rejeitados pela Justiça. Nem por isso o novo encarceramento do petista
deixou de provocar mudanças súbitas no panorama político.
A primeira e mais óbvia implicação dessa 17ª fase da Operação Lava Jato
diz respeito ao PT. Com horário reservado na quinta-feira (6) para
propaganda em rede nacional de rádio e televisão, a direção partidária
planejava reduzir os danos já infligidos à conspurcada legenda. Se a
missão era difícil, agora se tornou impossível.
Dirceu, como se sabe, nunca foi um Zé Ninguém na agremiação. Mesmo tendo
sido preso em decorrência do mensalão e cumprindo o restante da pena em
regime domiciliar, jamais perdeu ascendência sobre correligionários. No
ano passado, 3.972 pessoas lhe doaram quase R$ 1 milhão para que
pagasse multa imposta pela Justiça.
Embora tenha divulgado nota negando participação em "qualquer esquema de
corrupção", pareceria ridículo se o PT, a esta altura, pretendesse se
dissociar de Dirceu –um ícone do petismo.
De um lado, há o ultraje. Para os investigadores, o ex-ministro da Casa
Civil no primeiro governo Lula foi um dos responsáveis por criar o
sistema de desvios na Petrobras.
De outro, há a desfaçatez. Segundo o juiz federal Sergio Moro, existem
boas razões para crer que o petista recebeu propina antes, durante e até
depois do julgamento do mensalão, quando já se encontrava atrás das
grades.
Sua nova prisão, determinada por Sergio Moro em caráter preventivo, tem a
finalidade de "interromper o ciclo delitivo", dentro de um contexto de
"criminalidade desenvolvida de forma habitual, profissional e
sofisticada".
Mais uma vez, portanto, desloca-se o foco do escândalo para o PT,
resultando em alívio momentâneo para o PMDB. O principal sócio do
governo Dilma Rousseff (PT) via-se pressionado, nas últimas semanas,
pelas suspeitas que incidem sobre alguns de seus líderes.
Pesava especialmente a expectativa de que o procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, viesse a denunciar em breve o deputado Eduardo
Cunha (PMDB-RJ). Um lobista disse que, em 2011, pagou US$ 5 milhões ao
hoje presidente da Câmara no intuito de garantir um contrato com a
Petrobras.
Nada impede, naturalmente, que a acusação seja formalizada pela PGR nos
próximos dias. Com José Dirceu preso, Eduardo Cunha não poderá insistir
na esdrúxula tese de que as investigações têm sido conduzidas com
propósitos políticos.
Melhor assim. Quando se trata de combater a corrupção no país, a Justiça
precisa ser implacável com todos os partidos. Sem exceção.
extraídaderota2014blogspot





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