editorial da Folha de São Paulo
Incapaz de persuadir o Legislativo a agir com responsabilidade diante da
crise econômica que hoje deixa o país prostrado, a presidente Dilma
Rousseff (PT) decidiu recorrer aos governadores estaduais. Em reunião
realizada na quinta-feira (30), pediu ajuda para impedir a aprovação de
propostas que elevem os gastos públicos.
A presidente lembrou que assumiu sozinha o desgaste de vetar iniciativas
populistas que onerariam o Tesouro, como o reajuste de até 78,6% aos
servidores do Judiciário.
Advertiu seus convidados, porém, de que aumentos de despesas na esfera
federal teriam impacto nos Estados, devido ao efeito cascata. Daí a
necessidade de "enfrentar os problemas juntos".
Os problemas, bem entendido, têm nome e sobrenome: são os deputados
federais e os senadores da República. Desde o início do ano, os
parlamentares têm batido recordes de impostura e patifaria no trato das
contas públicas.
Esse comportamento irracional resulta do esgarçamento das relações entre
Executivo e Legislativo. Em um regime presidencialista, o chefe do
governo submete uma agenda nacional aos congressistas, que é aprovada ou
rejeitada após debates ponderados. Neste ano, esse padrão de
relacionamento entrou em colapso.
Em parte devido aos avanços da Operação Lava Jato, em parte buscando se
descolar de uma mandatária mais que impopular, os presidentes da Câmara e
do Senado travam guerra aberta com o Planalto.
Dilma Rousseff, por sua vez, conseguiu a proeza de compor um ministério
cujas legendas votam contra seu governo nos momentos decisivos. Aliás,
se nem mesmo o PT tem sido fiel à presidente, o que esperar dos demais
aliados?
Dado esse cenário, alguns segmentos da oposição apostam no malfadado
"quanto pior, melhor", na esperança de que o agravamento da crise
apresse o fim da administração petista. A quem interessa, contudo, uma
nação quebrada?
Não se trata, em hipótese alguma, de diluir a culpa pelo atual desastre.
Esta cabe exclusivamente à presidente Dilma. É imperativo, todavia, que
seus adversários entendam que leis mal concebidas não afetarão apenas
este governo; todo o país restará prejudicado.
Daí a importância de que os governadores, incluindo os de partidos
oposicionistas, percebam a urgência de barrar a chamada pauta-bomba do
Congresso. A dificuldade é que, historicamente, os mandatários estaduais
têm influência limitada sobre os parlamentares.
Recorde-se, por exemplo, abril de 2003: o então presidente Lula e os 27
governadores foram à sede do Legislativo entregar propostas de reforma
tributária e previdenciária. Esta última avançou, mas a primeira
permanece emperrada –e figurou como um dos tópicos da reunião desta
semana no Planalto.
Nada garante que, hoje, os governadores conseguirão devolver um pouco de
racionalidade aos parlamentares de seus Estados. Mas o país agradeceria
se tivessem sucesso nessa empreitada.
extraídaderota2014blogspot





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