por Ruth de Aquino ÉPOCA
Devo, não nego. Pagarei quando puder. E com a ajuda de vocês.
Governadores, prefeitos, deputados, senadores. Mas apelo sobretudo a
você. Você pai ou mãe de família, que perdeu seu poder de consumo,
perdeu o emprego, perdeu salário e crédito, perdeu conforto e esperança,
perdeu economias, perdeu sua lojinha, sua microempresa, seu
apartamento, seu carro. Perdeu até as estribeiras, porque se sente
intimidado por gangues das ruas e dos palácios.
Você precisa vestir minha camisa, que é a camisa do Brasil, agora em
tamanho menor devido à dieta argentina. Você tem de acreditar, mesmo que
o PT tenha provado ser um mau pagador de promessas. Eu e o Guido no ano
passado pedalamos a mesma bicicleta, aquela de dois lugares, para
atropelar todas as contas que atravessavam nosso caminho glorioso. Mesmo
assim você precisa se sacrificar.
Você precisa nos ajudar a manter bem altos os lucros dos bancos, porque
eles sempre se dão bem, já reparou? Com a ajuda de cortes, câmbio e
juros, os grandes tiveram lucros históricos. Você precisa aceitar calado
a redução do salário, você precisa cuidar de seu rombo particular.
Porque o meu rombo no primeiro semestre foi inédito na história, um deficit de R$ 1,6 bilhão de janeiro a junho. Um rombão, tudo é aumentativo por aqui, mensalão, petrolão, eletrolão.
Você precisa reunir a família, assim como eu reuni os meus parentes
próximos e distantes, os governadores dos Estados. Para explicar que a
gastança e o desperdício têm de parar. E, claro, eles entenderam que, se
eu for atingida, eles vão junto. Como se não bastasse o Brasil perder
selo internacional de bom pagador, ganhará o selo de mau gastador.
Você precisa sobretudo comprar nossa “pauta-bomba”, que é a seguinte:
cortaremos na carne, na sua carne, entendeu? Não falo de churrasco de
fim de semana, esse já era. Falo de cortes mais nobres. Cortes de gastos
públicos, que eu e o Levy prometemos. Vamos cortar no sal grosso: no
PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Saúde e na Educação.
Morô? Não, esse verbo não, lembra o sobrenome daquele juiz que não larga
o meu pé nem o de meus companheiros empreiteiros. Juiz posudo, metido a
italiano da gema, com ternos bem cortados e essa obsessão de lavar tudo
a jato, como se a água e meu governo fossem acabar amanhã.
Você sabe que tem gordura nos hospitais e nas escolas, não? Gordura no
chão, nos corredores, nas salas de cirurgia e de aula. Ah, você deixa
esses itens do orçamento doméstico para cortar por último? Você preserva
ao máximo a saúde e a educação de sua família e prefere cortar primeiro
os supérfluos? Entendi: é porque você valoriza a vida e o futuro deles e
a oportunidade real de crescimento digno e sustentável.
Por isso a classe média não vai para a frente, cai no cheque especial,
paga juros escorchantes no cartão de crédito. E a gente (nós e os
intelectuais do PT) tem ojeriza a esse pessoal conservador, não afeito a
riscos, enfim, uma classe média reacionária. Não é uma categoria
politizada. Além de ser gigante, difícil de ser manobrada, a classe
média cultua a ideologia do bem-estar da família. E ponto.
Você também sabe que a gente gosta de dar esmola aos pobres e de adular
os ricos. É a tal governabilidade, uma receita infalível. Posar de mãe
de miseráveis e se locupletar com os grandes projetos. Vimos agora que o
nuclear entrou na dança premiada. Minha geladeira vive abarrotada de
energéticos para aguentar o tranco de nossa House of Cards.
Graças a Deus que lá também, no Congresso, acabou a mamata. E também a
proteção que dávamos ao ex-PMDB comportado de Sarney. Agora o Congresso
quer me derrubar, prefere o diretor da escola, aquele que parece uma
esfinge e não diz nada, você sabe quem é, só espera mais um passo meu em
falso. Bota falso nisso. Agosto começou e deveria ser menor. Vou
arrumar umas viagens internacionais.
Já nos livramos da Catta Preta, a advogada de delatores que se mudará
para Miami por medo. Você também tem medo, não? É a lógica de gangues
que impera no país. Viu as cenas no Brás, em São Paulo, com cidadãos,
muitos idosos, cercados e roubados por abutres? Você se sente ameaçado
por taxas e impostos, por assaltantes, golpistas e policiais, por
empresas de serviço, todo mundo tascando um pedacinho seu? Tente um
pacto, como eu.
Esqueçam minhas pedaladas fiscais, me ajudem a aprovar minhas contas no
TCU, não deixem que a Caixa e o Banco do Brasil cobrem de mim mais de R$
1 bilhão em taxas dos programas sociais. Reclamem menos da inflação de
hoje porque ela tende a piorar amanhã. Não critiquem inaugurações de
clínicas sem médicos ou fechamento de escolas sem professores. Não somos
um governo-bomba.
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