Opinião Valentina de Botas:
Em 25 anos de existência do muro de Berlim, mais de cem pessoas morreram tentando fugir daquele paraíso imposto aos alemães orientais.No desespero de quem arriscou tudo pela liberdade ou libertação, o pior não era morrer para quem não se sentia vivo. Acredito que ninguém fez o trajeto inverso, afinal, o homem é bicho que só é gente se for livre.
Talvez a voluntária direção contrária fosse inédita até o florescimento dos humoristas a favor que, de livre e bem paga vontade ou por primitivas convicções ou pela soma de tudo, trancam-se em um obscuro território mental da república dona das divinas tetas, gozando da cara do país que esperou tanto por liberdade, e pariram o aberrante humor a favor em cópula com o desavergonhada e politicamente correto.
Então, porque Lula foi operário por algumas horas, é nordestino que envergonha qualquer brasileiro decente; e porque a presidência é ocupada por uma mulher nada sapiens, qualquer piada com eles era demófoba ou misógina. Só rindo. No peculiar mau humor paranoico e de dentro de suas mentiras transparentes e verdades secretas, os autoritários têm pavor do humor independente.
O humor politicamente correto, além de não prestar como humor, tem de decidir quem decidirá o acerto e o erro. Tentação autoritária de um humor encolhido, todo certinho, cheio de prosopopeias, uma coisa murcha e morta abocanhada por uma boca desdentada. Tem graça só para os caras mamando o leite bom na república imbecil e imbecilizante em que ironia tem de vir com manual de instrução.
O que houve com o Brasil?, que diabos, meu Deus do céu! Lembrando que inclusive o diabo e Deus (e falo como cristã, mas poderia não ser e ter o direito à mesma opinião) podem ser engraçados se tratados pelo humor munido de tudo o que ele precisa: cornos profanos e dentes. E há o humor canalha, sórdido, chulo – outra porcaria. Diverte só aos perversos.
Mas eu também sei ser careta: aos abusos, que se responda com a lei, que eventuais ofendidos recorram a ela por reparos morais e o que mais couber. O vigor dos chargistas que dignificam a linhagem de Millôr prova que, mesmo que rir talvez não seja um remédio, é muito mais divertido.
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