por Guilherme Fiuza O Globo
Com essa mania de prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia mesmo provocar uma recessão
O PIB brasileiro despencou por causa da Operação Lava-Jato, explicou
Dilma Rousseff. A presidente informou que a investigação do petrolão
reduziu em pelo menos um ponto o crescimento nacional. Ou seja: o Brasil
não deveria ter interferido no ir e vir dos pixulecos.
O esquema estava funcionando bem, com mais de dez anos de crescimento
sólido. É claro que a moralização ia estragar tudo. Com essa mania de
prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia
mesmo provocar uma recessão.
Deve ter sido sobre isso que Dilma foi conversar escondido com Lewandowski em Portugal.
A presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Federal hão
de salvar o Brasil de Sérgio Moro — mas é melhor mesmo tratar disso
clandestinamente, porque esses juízes éticos são vingativos. Pouco
depois da reunião republicana na cidade do Porto, Lewandowski resolveu
dar sua opinião isenta sobre a conjuntura econômica: afirmou que a crise
brasileira provém da bolha americana de 2008.
Os brasileiros jamais entenderiam que diabos aconteceu com seu PIB se
não fossem os esclarecimentos oportunos de Dilma e Lewandowski. Agora, é
só esperar a crise de 2008 passar e torcer para a Lava-Jato parar de
arrochar os pixulecos.
Mas se você continua achando que o país está no buraco porque foi
depenado pelos companheiros, esqueça. Num texto que está fazendo o maior
sucesso por aí, os respeitáveis economistas Mansueto Almeida, Marcos
Lisboa e Samuel Pessoa dizem que o problema não é esse. O trio recua
duas décadas e meia para mostrar o histórico de hipertrofia do Estado e
descontrole fiscal. Os autores são amados pelos tucanos, mas nem João
Santana prestaria um serviço tão valioso ao PT.
Após 12 anos de pilhagem desenfreada dos cofres públicos pelo sistema
que engendrou o mensalão, o petrolão, as pedaladas fiscais e grande
elenco de manobras parasitárias, os três consagrados economistas estão
preocupados com o ano de 1991. Foi ali que as despesas públicas passaram
a crescer demais, apontam eles. O resto foi bola de neve. Imaginem
Guido Mantega lendo esse texto... Nem 20 anos de psicanálise quebrariam
tão bem o seu galho. Pode até voltar a frequentar restaurantes.
No quadro continental, o Brasil aparece sozinho com a Venezuela no
buraco da recessão. Isso depois de receber sólidos alicerces de
crescimento nas décadas de 1990 (estabilização monetária) e de 2000
(enxurrada de capital para os emergentes). O PT jogou fora esse ciclo
virtuoso, mantendo a taxa de investimento em níveis vexaminosos — e
agora, com a revelação do sequestro da Petrobras, sabe-se bem onde os
companheiros estavam investindo o dinheiro público. Isto para não falar
nas triangulações obscenas entre Tesouro, BNDES e estatais para maquiar
déficits recordes.
Um longo e devastador estupro das contas públicas, que, na autópsia
feita por Mansueto, Lisboa e Samuel, virou uma gripe. Dilma, Lula,
Mantega, Dirceu, Delúbio, Vaccari e companhia podem dormir com o texto
do trio na cabeceira: as obras completas do bando não são nem uma
marolinha na crise fiscal brasileira.
Naturalmente, o mercado e outras criaturas do mundo real não cantam essa
cantiga. Uma das principais agências de risco acaba de colocar o Brasil
em perspectiva negativa — mais um sinal de desconfiança diante da rave
dos aloprados no Planalto. Ou não: talvez a Standard & Poor’s também
ache que a Lava-Jato faz mal ao PIB.
A alegação de que a catástrofe fiscal brasileira seria a mesma sem as
peripécias do PT no poder, feita por economistas notáveis, é o melhor
presente que os delinquentes da estrelinha poderiam receber. O Brasil
não liga muito para corrupção, e a chapa está quente para o governo
petista por causa da ruína econômica que os companheiros plantaram. Mas
se os acadêmicos que encantam os tucanos aparecem dizendo que a
bomba-relógio não tem dono, Dilma pode continuar pedalando à vontade — e
dizendo que a bicicleta é do Fernando Henrique.
O paper de Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa sustenta que a
explosão da carga tributária vem de antes do reinado petista. É fato.
Só que o aumento de impostos no Plano Real, por exemplo, foi parte de um
ajuste fiscal que permitiu a estabilização da moeda — e melhorou a vida
dos brasileiros. Já o aumento de impostos no presente serve a um ajuste
fiscal mambembe para bancar a farra companheira — que piorou a vida dos
brasileiros. Um detalhe.
Outro detalhe: o PT atropelou a meta fiscal, criada pelo governo
anterior, fazendo o superávit primário dançar conforme as suas
malandragens contábeis. Se o jogo é calcular o tamanho do tombo no
futuro próximo, como não botar na conta esse coeficiente perdulário —
mais uma exclusividade petista?
Está todo mundo de cabelo em pé com a radiografia do trio de
economistas, menos Dilma e seus companheiros. Tudo o que eles precisavam
era ter as melhores cabeças do país dizendo que seu governo vampiresco é
igual aos outros. Assim, a mulher sapiens poderá continuar por aí, numa boa, dobrando metas que não existem.
extraídaderota2014blogspot





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