por Ronaldo Caiado Folha de São Paulo
Enquanto todos os setores padecem com os efeitos da crise criada pelo
governo, a produção no campo ainda resiste. Enfrentou o primeiro
trimestre de 2015 com um expressivo crescimento de 4%, o que ajudou a
evitar uma queda ainda maior em nosso PIB. Mas até quando a agropecuária
vai conseguir aguentar essa tormenta em nossa economia?
As condições não ajudam: o aumento nas taxas de juros dificulta –e
muito– a oferta de crédito para a produção; o câmbio oscilando
compromete a compra de fertilizantes, defensivos, além de prejudicar o
planejamento do agricultor; a inflação próxima de dois dígitos lembra a
época em que o que se financiava no plantio não se pagava na colheita;
as deficiências logísticas e de elevação da carga tributária, problemas
agravados pela crise, inviabilizam a perspectiva de ampliação na área de
cultivo. Não há setor que resista.
Mas o governo federal atrapalha em outras frentes. Ainda em julho, a
presidente Dilma Rousseff tinha em mãos uma medida provisória (MP
670/2015) que poderia aliviar a pressão sobre o aumento dos custos do
produtor rural. A desone- ração do PIS e da Cofins incidentes sobre o
óleo diesel, que iria redu- zir o preço desse insumo utiliza- do no
campo, bem como o preço do frete, foi vetada. Um verdadeiro abraço de
afogado ao único setor em que ainda há algum fôlego. O diesel aumentou
no último semestre 14% e ajudou a empurrar a já elevada inflação.
O meio rural não quer caridade do governo, quer inteligência para
fortalecer a única parcela de nossa economia que ainda cresce apesar das
barbeiragens da presidente. Como já se faz na cidade, por exemplo, com
as indústrias automobilísticas e de linha branca, por meio de subsídios,
isenções e redução no IPI na tentativa de conter a crise e segurar o
consumo interno.
Entre 2012 e 2015, segundo a Receita Federal, medidas que favoreceram
setores como o automotivo –sediado quase em sua totalidade no Sudeste–
permitiram uma isenção de R$ 10,4 bilhões em tributos federais, além da
desoneração da folha de pagamento. Com isso, teriam sido criadas 5.000
vagas no setor. Ou seja, criamos empregos ao custo médio de R$ 2 milhões
por vaga.
Ora, se formos usar do argumento em defesa da geração de riquezas e da
colaboração social ao país, por que não aplicá-lo à produção no campo,
que ainda dá sinais de crescimento em 2015? Ou a regra só vale para as
indústrias do ABC paulista, reduto histórico do PT?
Outro fator que coloca em xeque o fôlego do setor rural vem na tarifa de
energia elétrica e seu racionamento disfarçado de "bandeira vermelha".
Com a implantação da sobretaxa, atividades que dependem desse insumo
acumulam aumentos significativos do custo de operação, atingindo valores
que variam de 50 a 127%, a depender da região. A principal afetada é a
agricultura irrigada, tecnologia mais acessível e eficiente no
incremento da produtividade. Cabe registrar que esse aumento na tarifa é
fruto da conjunção de um regime pluvial adverso e da interferência
desastrosa da presidente no setor com sua MP 579/12, aquela que reduziu
de forma artificial a conta de luz e quebrou o setor.
Infelizmente, não dá para ser otimista. A meta fiscal já foi para o
espaço, e o rebaixamento da nota de crédito do país implicará mais
custos na captação de recursos também para o setor agropecuário. Ações
que reduzam o custo Brasil deveriam ser priorizadas a fim de defender a
competitividade do único setor que ainda resiste às intempéries do
governo. A tormenta dá sinais de que vai continuar por algum tempo, e
todo fôlego tem limite.
extraídaderota2014blogspot





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