editorial da Folha de São Paulo
Com todo seu impacto político, a prisão de João Vaccari Neto não terá
surpreendido os que acompanharam seu depoimento na CPI da Petrobras, há
uma semana.
O então tesoureiro do PT foi incapaz de um desempenho convincente.
Insistiu na tese de que eram legais os donativos de empreiteiras a seu
partido, sem dar maiores explicações sobre contatos que mantinha com a
outra ponta do esquema –a saber, a direção da Petrobras.
Da estatal petrolífera provinham, entretanto, os recursos que, em
porcentagens bem medidas, a partir de contratos bem acertados, viriam a
abastecer o caixa do PT. É o que asseguraram participantes do esquema
beneficiados pelo instituto da delação premiada; cinco deles mencionaram
o papel de Vaccari na absorção do dinheiro.
Acusações desse tipo, ainda que graves e convergentes, não bastariam
para decretar a prisão preventiva do tesoureiro, segundo afirmou o juiz
federal Sergio Moro, em despacho sobre o caso.
Acrescentam-se, todavia, outras evidências, com destaque para os
repasses realizados por uma empreiteira à Gráfica Atitude, já punida por
ter feito propaganda ilegal em favor da campanha presidencial de Dilma
Rousseff (PT) em 2010.
Somadas as circunstâncias, o magistrado considerou que a detenção de
Vaccari se impunha para evitar a reiteração de seu comportamento. "Em um
contexto de criminalidade desenvolvida de forma habitual, profissional e
sofisticada", observa Sergio Moro, justifica-se a prisão preventiva
"para interromper o ciclo delitivo".
Não significa condenação, e o devido processo legal ainda demorará para concluir-se na Lava Jato.
A ideia do "ciclo delitivo", entretanto, merece ser retida por seu
potencial simbólico. Não se aplica apenas ou principalmente às
atividades de Vaccari.
Há outro ciclo, e outra reiteração, no fato de se tratar do segundo
tesoureiro do PT a ser posto atrás das grades. Depois de Delúbio Soares,
celebrizado no mensalão, o PT ostentou no mesmo cargo um militante mais
articulado –e fez questão de mantê-lo em suas funções até quando já era
tarde demais.
Chega a ser espantoso que o partido não tenha dado sinais de nenhum
aprendizado, nenhuma cautela, nenhuma revisão de atitudes desde o
escândalo anterior.
Ou melhor, a legenda parece ter aprendido algo sobre arrecadação. Nos
anos de 2007 e 2009, o PT amealhou R$ 8,9 milhões e R$ 11,2 milhões,
respectivamente.
Depois da chegada de Vaccari, igualmente em anos não eleitorais, a soma
se elevou para R$ 50,7 milhões (em 2011) e R$ 79,8 milhões (em 2013).
Uma proeza de gestão, sem dúvida, cujos obscuros fundamentos se revelam implacavelmente.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





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