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21:20
ANDRADEJRJOR
ALBERTO DINES GAZETA DO POVO

No país da piada pronta,
angústias e aflições são crimes de lesa-pátria, daí as gozações em
torno do suspense armado antes da divulgação da lista de parlamentares e
políticos citados na Operação Lava Jato e prometida há semanas por
Rodrigo Janot, procurador-geral da República.
Paráfrase óbvia,
quase obrigatória e quase homônima, relaciona-se com o título da peça
Esperando Godot (1952), do irlandês francófono Samuel Beckett, marco do
teatro do absurdo que poucos viram, menos ainda entenderam e todos usam
abundantemente.
Godot promete e não chega, a espera é, em si, o
não evento central, acionador de contrassensos, ilógica e disparates.
Janot, ao contrário, está sempre presente, atento, figura de proa na
arquitetura republicana, cargo máximo do Ministério Público, hoje
considerado em muitas partes do mundo como o verdadeiro Quarto Poder.
Justifica-se
a demora: denota cuidado, zelo, senso de responsabilidade. A lista é
transcendental mesmo antes de conhecidos os nomes que a integram, todos
aptos a serem denunciados e depois julgados pelo STF. As pressões são
enormes; apesar do segredo que envolve a seleção dos implicados nos
processos investigados pela Polícia Federal, alguns nomes escaparam para
o noticiário.
A nominata é naturalmente explosiva: pode alterar a
composição do governo, seu esquema de apoio, a escolha dos candidatos à
sucessão presidencial e, sobretudo, inúmeras biografias. Algumas
armazenadas em sites de busca, outras já publicadas.
A residência
de Janot foi arrombada em janeiro, o governo preocupa-se com a sua
segurança e a tensão da campanha eleitoral, longe de arrefecer com a
posse dos eleitos, aumentou assustadoramente. Sucedem-se brigas entre
militantes, o jogo sujo oriundo das torcidas organizadas começa a
comprometer o sagrado direito de expressão, a convivência entre
contrários e a paz social.
Em represália a um estúpido ato de
hostilidade contra o ex-ministro Guido Mantega no lobby de um hospital
paulistano onde a sua mulher se trata de um câncer, o ex-presidente Lula
convocou a militância a reagir às provocações: pretendia baixar a
fervura, só a aumentou. Essa fervura não baixará com veemências
dirigidas a ativistas políticos; o momento pede atos de estadistas
voltados para sossegar uma sociedade ressentida e perplexa.
A
espera por Janot serve para desativar animosidades num ambiente
perigosamente volátil, onde tudo funciona como pretexto para
radicalizações. Mas serve igualmente para exacerbá-las. Não foi prudente
a ideia de convocar um grandioso ato público em defesa da Petrobras
para a sexta-feira, 13 de março – exatos 51 anos depois do comício na
Central do Brasil, fatídico gatilho para a quartelada que empurrou o
país para a trágica ditadura militar.
A estatal brasileira não
está ameaçada pelos trustes internacionais nem pelo imperialismo ianque;
seus algozes são gente nossa, partidos e prepostos brasileiros que
“tascaram” (para usar a linguagem de João Pedro Stédile) um patrimônio
nacional que conseguiu sobreviver e prosperar ao longo de 63 anos a
despeito das drásticas mudanças de governo.
Esperando Godot é uma
vivência pessimista sobre impasses, dolorosas expectativas,
desesperança, filha dos horrores da 2.ª Guerra Mundial e da pérfida
Guerra Fria que a sucedeu.
Esperando Janot pode ser uma aposta no
aperfeiçoamento das instituições democráticas. Sobretudo, na nossa
capacidade de julgar e punir com isenção.
EXTRAÍDADAVARANDABLOGSPOT
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