por Ives Gandra Martins Folha de São Paulo
Já me referi, mais de uma vez, ao jantar que Ruy Fragoso, Paulo Bekin e
eu tivemos com a juíza da Suprema Corte americana, Sandra O'Connor, à
época do pedido de impeachment contra o presidente Bill Clinton
(1993-2001).
Perguntei-lhe como votaria, se o processo fosse levado à Suprema Corte,
após deliberação do Congresso. Ela respondeu-me com espantosa rapidez:
"Meu voto será pelo impeachment", acrescentando: "Ele mentiu para o povo
americano e um presidente não pode mentir".
Ficou provado depois que, com efeito, Clinton mentira, ao dizer que não
mantivera relações com Monica Lewinsky. É de se lembrar que o pedido de
impeachment foi rejeitado por mínima maioria.
No Brasil, se analisarmos o comportamento verbal da presidente Dilma Rousseff, parece que nem sempre a verdade teve preferência.
Durante a campanha de 2014, alardeou que a situação brasileira era
maravilhosa, que o candidato de oposição iria buscar um ajuste
recessivo, que, em seu segundo mandato, teria como meta a pátria
educadora e que jamais tanto se fizera para o desenvolvimento econômico e
social como em seu governo, com as contas públicas superiormente
administradas, em face de sua ilibada idoneidade.
Tão logo eleita, Dilma revelou ao país que tudo o que dissera não
correspondia à realidade: o Brasil estava falido e não poderia mais
financiar o ensino universitário como antes–muitos alunos não puderam
cursar as universidades e muitas escolas, em todos os níveis, foram
fechadas por falta de financiamento.
Descobriu-se também que o governo disfarçara os furos orçamentários com
as "pedaladas fiscais", empréstimos ilegais dos bancos públicos, e que
um duro ajuste fiscal sobre a sociedade seria inevitável, pois Dilma não
poderia reduzir as despesas com "os amigos do rei" de sua esclerosada
administração.
À evidência, a mentira do presidente Clinton ao povo americano foi
infinitamente menor que aquelas da presidente Dilma ao povo brasileiro,
pois a ilusão vendida para eleger-se custou um preço elevadíssimo à
nação.
A título apenas exemplificativo, enumero: congelamento de combustível e
de energia elétrica, cujos preços explodiram em 2015; alta inflação; PIB
negativo; altíssima taxa de desemprego; fuga de investimentos do país;
retirada do Brasil do grau de investimento internacional pela mais
importante agência de rating mundial; destruição da maior empresa
estatal, que perdeu 70% de seu valor, assolada por uma onda fantástica
de corrupção.
Apesar de repetidas vezes Dilma, o ex-presidente Lula e alguns aliados
terem sido citados nas delações premiadas feitas na Operação Lava Jato, o
digno procurador-geral da República, Rodrigo Janot, houve por bem
investigar em profundidade o principal adversário do governo, Eduardo
Cunha, muito embora o Tribunal Superior Eleitoral, por 5 votos a 2,
tenha pedido à Polícia Federal que apurasse se a campanha do PT foi ou
não irrigada por recursos vindos do saque à Petrobras.
Sobre tais investigações, todavia, não me manifesto, pois ainda em
curso, embora esteja plenamente convencido de que o governo Dilma foi
omisso, negligente, imprudente, imperito (são hipóteses de culpa grave,
segundo decisões do STJ), tornando-se aquele em que houve o maior nível
de corrupção da história mundial, segundo a imprensa internacional.
Tais considerações, entretanto, eu as faço apenas para mostrar a
concepção democrática de uma juíza da Suprema Corte americana, para a
qual um presidente, por representar a nação e seu povo, tem que se
revestir de tal dignidade, não pode mentir, mesmo em assuntos de
natureza privada.
Tal concepção conflita dramaticamente com a tolerância demonstrada pelos
políticos brasileiros –não pelo povo, que reduziu a credibilidade de
Dilma a menos de 10%_, para quem a "hipocrisia" é a "maior virtude" para
conquistar o poder.
extraídaderota2014blogspot





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