por Vinicius Torres Freire Folha de São Paulo
Fora da porta da cadeia, o Brasil parou. Das elites políticas e
econômicas ao povo, o país vive em estado de estupor. Quem tem poder
parece insensível à degradação; "a rua" parece incapaz de reações. O
imobilismo encomenda para 2016 uma crise tão grande como a de 2015,
provavelmente maior no que diz respeito ao desemprego e aos salários.
Estamos à espera do quê? De revolta? Ou vamos deslizar calados para um
oceano de desgraça, tal como a lama da mineradora, aquela tristeza
revoltante que escorreu do rio para o mar, sem que se fizessem muito
mais do que muxoxos, além das indignações particulares?
Ontem soubemos de mais degradação do trabalho, pela nova pesquisa do
IBGE, a Pnad Contínua. Pelos indícios, 2016 será pior. Nem seria
razoável esperar que viesse a ser diferente, pois o mercado de trabalho
reage com defasagem a outras pioras da economia. Mas as elites
governantes não demonstram nem preocupação de atenuar o drama.
O número de pessoas empregadas na melhor das hipóteses deverá ficar
estagnado em 2015. No trimestre encerrado em setembro, era 0,2% menor
que no período equivalente do ano passado. Como a Pnad Contínua é
recente, com dados desde 2012, não é possível fazer comparações com
outros períodos de desgraça. Uma pesquisa algo similar, a Pnad anual,
mostra que não houve regressão do número de ocupados pelo menos desde
2001, ao contrário (não é preciso lembrar que houve crise ruim até
2003).
A mesma Pnad anual mostra que o salário médio cresceu em média 4,5% de
2005 a 2013, os "anos dourados" dos governos petistas nesse quesito.
Pela Pnad Contínua, o salário médio ainda cresceu 3,3% em 2013, 1,1% em
2014 e por ora está estagnado em 2015.
O número de pessoas que procura trabalho mas não encontra cresceu mais
de 33%, na média nacional. Nos maiores Estados, onde vivem 80% dos
brasileiros, a população desempregada cresce entre 20% e 50%, grave
mesmo em regiões onde a crise ainda é menos forte.
Mais gente procura trabalho por causa de baixas de salário ou desemprego
na família: a inflação come os rendimentos, os empregos novos pagam
menos. O desemprego cresce mais entre os mais jovens, vários à margem do
mercado de trabalho quando os dias eram melhores. Entre os jovens
adultos (18 a 24 anos), a taxa de desemprego passou de 14% em 2014 para
quase 20% neste ano.
Não há sinais de esperança. A crise é mais acelerada nas regiões
metropolitanas maiores e no Sudeste, que dominam a economia e devem
arrastar o restante do país. Se por mais não fosse, o tamanho da
produção no ano (do PIB) que vem vai diminuir de novo em 2016.
O trabalho se torna mais precário (mais gente faz bicos). A taxa
nacional de desemprego subiu de 6,8% em 2014 para 8,9% neste ano. Esta é
a média. Em Salvador, o desemprego, habitualmente mais alto, já foi a
mais de 16%. A taxa média nacional deve chegar a 10% em 2016, segundo
estimativas de economistas mais ponderados e certeiros.
Pode ser pior: não há governo, não há decisão do Congresso, não há
propriamente política econômica e a elite política prepara-se para tirar
férias e voltar a sua guerrinha particular sórdida depois do Carnaval.
extraídaderota2014blogspot
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