Jorge Maranhão O ESTADO DE SÃO PAULO
Da crise econômica e política em que já estamos mergulhados, e da crise
social que se avizinha, o fundamental para vislumbrar uma saída é
admitirmos a grande crise moral em que sempre estivemos metidos. A
propósito, lembrei-me de uma parábola dessas que circulam na internet
defendendo os valores morais da tradição judaica. Valores que
fundamentam sua intrínseca cultura de democracia e cidadania, construída
até mesmo a despeito da soberania sobre uma territorialidade. Uma piada
quase parábola que acredito possa ilustrar muito bem o momento que
vivemos no País.
A narrativa dá conta de um velho senhor judeu, o Tio Bóris, que estava
saindo da antiga União Soviética, aproveitando um indulto
recém-concedido pelo governo. Quando Tio Bóris se dirigia à alfândega,
foi parado por um policial que, na revista de sua bagagem, lhe perguntou
o que era aquela estátua reluzente que ele trazia em meio a seus
pertences. Ao que Tio Bóris respondeu que era de Stalin, o grande líder,
e que ele a carregava sempre consigo para nunca se esquecer de
reverenciá-lo. E assim o judeu foi liberado para sair do país.
Chegando a Israel, Tio Bóris foi parado de novo na alfândega de
Tel-Aviv. E, para sua surpresa, novamente lhe perguntaram o que era
aquela reluzente estátua. Ao que o velho tornou a responder que era uma
estátua de Stalin, mudando apenas os atributos de grande líder para
cruel tirano, causador de muita miséria e desgraça ao povo judeu. Diante
da confirmação de suas próprias crenças, o policial liberou
imediatamente a entrada no país. Chegando finalmente à casa de seus
parentes e desfazendo as malas no quarto, entra um dos pequenos
sobrinhos e pergunta, curioso, de quem era aquela estátua. Ao que Tio
Bóris responde: "Ora, meu sobrinho, não importa de quem seja. O que
importa é de que é feita, 12 quilos de ouro maciço! O que dá para
vivermos o resto de nossos dias".
Pois é, quem só enxerga mais uma piada de judeu nessa história perde a
oportunidade de entender a dimensão da crise moral em que o Brasil está
metido. A crise moral que tornou inviável o ideal da política,
condenando-a a uma prática mercadeja comprometedora da paz social. Com
governantes que não cumprem o que prometem em suas campanhas, com a
maior cara de pau. Que não honram a palavra e ainda nos afrontam com a
cega negação da dura realidade econômica e política em que afundaram o
País. Tentam nos fazer de idiotas pela renitente insistência em nos
impingir apenas o seu desejo do que a realidade seja.
O recente pronunciamento da presidente Dilma, escondida atrás das
câmeras da TV, causou a indignação de muitos cidadãos justamente pelo
descompasso entre o seu relato e a realidade por que passa o País.
Culpar uma discutível crise internacional pela concreta crise brasileira
é, no mínimo, autoengano. Para muitos, pura mentira. Quando mesmo a
pobre Bolívia, aqui do lado, cresceu mais que o Brasil no ano passado.
Para este ano a Colômbia projeta um crescimento de pelo menos 4% do seu
PIB, enquanto nós, se tudo der certo, ficaremos num zero absoluto de
crescimento. Mas como esta dura realidade não vem ao caso para partidos
de esquerda, mas sempre o seu próprio projeto de se manter no poder a
qualquer custo, o que prevalece é sempre o símbolo e nunca a matéria
real da vida e dos fatos. É sempre o expediente maroto da
desqualificação argumentativa dos opositores reduzindo-os a elites
brancas e golpistas, como se quase metade do eleitorado de novembro
último, somados aos que engrossam os índices crescentes de
impopularidade do governo segundo pesquisas recentes, não pudessem
manifestar suas opiniões sobre outra visão da realidade. E retirar o
crédito a um governo que não sabe o que é honra, contrato e dignidade.
Pois a realidade é a primeira coisa que o cidadão sente ao despertar e
se informar sobre o valor das coisas concretas, no dia a dia do custo de
vida, e não no blá, blá, blá de governantes que não respeitam a própria
palavra empenhada. Primeira realidade do mundo sensível, muito
diferente da segunda realidade romântico-quixotesca, o velho vício da
visão distópica esquerdista de santificar um ideal de homem e demonizar o
mercado real. E seguir procurando chifres em cabeças de cavalos e
dragões que cospem fogo no lugar de moinhos de vento. Tal qual a
desfaçatez de pôr a culpa da crise energética na estiagem de São Pedro, e
não nas escolhas deliberadas de políticas públicas equivocadas. Ignorar
a gigantesca crise moral que vivemos chega a ser uma risível afronta.
Ou simples má-fé, como a de querer ver nas denúncias das
petrorroubalheiras um ataque à paradigmática Petrobrás. Na melhor das
hipóteses, um deboche para com a cidadania. Na pior, mais uma vez, uma
mentira delirante e inflamável de quem não se impõe respeito nem limites
e acredita que apaga incêndio com mais gasolina.
E é exatamente neste ponto que a fábula se encaixa no Brasil de hoje. E
tem muito a ensinar a nossos tolos governantes. Os dois policiais que
pararam Tio Bóris só conseguiam enxergar o que a estátua representava:
um líder político carismático, não importando se deificado para uns ou
demonizado para outros. Simples crenças, utópicas ou distópicas não
importa, mas sempre acima dos cidadãos concretos levando a vida na
precariedade de suas trocas cotidianas, nos limites tangíveis das praças
e dos mercados. Símbolos ideológicos que, quando colocados acima dos
valores morais ou mesmo dos valores das coisas, acabam por lhes tirar
qualquer sombra de discernimento e bom senso. Quando a realidade para
Tio Bóris era tão simplesmente um peso em ouro que permitiria, este sim,
recomeçar sua vida. Quando o desafio para o Brasil de hoje é
simplesmente resgatar os valores morais de sua cidadania e superar a
doença infantil do voluntarismo esquerdista de seus governantes.
EXTRAÍDA DO ROTA2014





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