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06:49
ANDRADEJRJOR
Merval Pereira O GLOBO

As
últimas 24 horas demonstraram com rigor a crise profunda em que o
governo Dilma está mergulhado, agregando uma série de problemas criados
por seu próprio entorno aos que já estão sobre a mesa desde a reeleição.
Dois fatos especialmente aumentaram a pressão sobre o governo: um
documento atribuído à Secretaria de Comunicação (Secom) com sugestões
absurdas da tática a ser usada para tentar reverter a popularidade
negativa do governo; e a crise criada por um comentário do ministro Cid
Gomes, repetindo como farsa uma frase de Lula em 1989 sobre a quantidade
de picaretas e achacadores que o Congresso abriga.
Não
bastassem os problemas que o governo tem que enfrentar sem apoio da
base aliada, que continua dividida entre seus próprios interesses e a
tentativa de fazer populismo num momento de grave crise econômica, vem o
ministro Cid Gomes levar para dentro do Palácio do Planalto uma crise
política que seria dispensável nesse momento.
Lula
já dissera, quando terminou seu mandato de deputado constituinte, que
havia 300 picaretas no Congresso. Essa sua frase não foi obstáculo a
que, anos mais tarde, fizesse acordos políticos com a maioria desses
picaretas, e mais alguns que surgiram pelo caminho.
Já
Cid Gomes, depois de ter dito coisa similar, saiu ontem do Congresso
debaixo de críticas contundentes, que recebiam aplausos dos
“achacadores” de plantão. Para o ex-governador do Ceará, há no Congresso
entre 300 e 400 deputados que vivem do quanto pior, melhor. Seriam os
“achacadores” do governo, que, disse ele na fala em que supostamente
pediria desculpas, deveriam “largar o osso”.
Sua
maneira arrogante de se dirigir ao Congresso, até mesmo apontando o
dedo para o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, dizendo que
preferia ser chamado de mal educado a ser acusado de achacador como
Cunha o fora pelo Ministério Público, só fez piorar a situação, embora
possa ter tido sucesso em setores do Palácio do Planalto que pensam como
ele e não podem explicitar esse sentimento.
Não
está aqui em questão se o ministro da Educação tem ou não razão, ou se
ele é a pessoa mais adequada para fazer essa acusação. Cid Gomes
simplesmente atravessou a calçada para escorregar em uma casca de
banana, e o pedido de demissão é uma consequência lógica da pressão do
PMDB, mas o que importa é que governo vai agonizando em praça pública.
Só
um governo destrambelhado, sem comando e sem rumo como esse, não
resolve esse problema com a demissão do ministro no momento exato em que
a frase foi divulgada, não importa se o conteúdo é verdadeiro ou não.
E
também só em um governo que está em seus estertores acontece o
vazamento de um documento como o da Secom. E só num governo incompetente
alguém coloca no papel propostas tão absurdamente ilegais como se
fossem naturais. Como, por exemplo, reconhecer que há uma simbiose entre
o aparato oficial de comunicação do governo e os do PT, além de
elementos externos, como os chamados “blogueiros sujos”, classificados
de “soldados” de fora do governo, pagos para fazer uma “guerrilha” de
informação:
“As
responsabilidades da comunicação oficial do governo federal e as do
PT/Instituto Lula/bancada/blogueiros são distintas. As ações das páginas
do governo e das forças políticas que apóiam Dilma precisam ser muito
melhor coordenadas e com missões claras.
É
natural que o governo (este ou qualquer outro) tenha uma comunicação
mais conservadora, centrada na divulgação de conteúdos e dados oficiais.
A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo,
mas ser disparada por soldados fora dele.”
Diz
também o documento atribuído à Secom e não desautorizado, que “a
publicidade oficial em 2015 deve ser focada em São Paulo, reforçando as
parcerias com a Prefeitura. Não há como recuperar a imagem do governo
Dilma em São Paulo sem ajudar a levantar a popularidade do Haddad. Há
uma relação direta entre um e outro.”
Não
é com propaganda que os governos, o de Dilma e o do prefeito Fernando
Haddad, recuperarão a popularidade perdida devido à incompetência no
trato das questões do dia a dia do cidadão-eleitor. Só fatos, decisões
concretas, reconhecimento de erros, farão com que seja possível pensar
em uma recuperação de imagem. E assim mesmo sem garantia de sucesso.
A
proposta só demonstra claramente como o governo Dilma se confunde com o
PT e não tem uma visão global, nem dos problemas nem das soluções.
Um governo para todos, balela da propaganda oficial.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014
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