por Raquel Landim FOLHA DE SÃO PAULO
Até pouco tempo atrás, uma pergunta como essa não teria o menor
cabimento. A Petrobras ocupava o posto de maior empresa brasileira, dona
das bilionárias reservas do pré-sal, com um faturamento de mais de R$
300 bilhões –em resumo, era o orgulho nacional. Uma empresa como essa
era inquebrável, inabalável, inatingível.
O problema é que o governo, que é o acionista controlador, acreditou
nisso. A lógica das administrações Lula e Dilma é que a força da
Petrobras está no tamanho de suas reservas e no mercado consumidor
cativo. "A Petrobras está bem por duas razões: volume de petróleo e um
mercado fabuloso em que o consumo cresce", disse Graça Foster,
ex-presidente da estatal, em entrevista a blogueiros "amigos" em meados
do ano passado.
Com esse discurso nacionalista, a Petrobras gastou bilhões de reais
construindo projetos que agradavam políticos aliados, bancando obras
superfaturadas por empreiteiros, e, é claro, pagando propina a
funcionários, doleiros, deputados, senadores etc.
O governo, no entanto, parece ter esquecido dois chavões da economia:
dinheiro não aceita desaforo e não existe almoço grátis. Extrair
petróleo do fundo do mar ou da terra é uma atividade caríssima. Com um
volume enorme de investimentos previstos, a Petrobras contraiu uma
dívida gigantesca.
Quando as investigações da Operação Lava Jato expuseram o esquema de
corrupção estatal, as ações da Petrobras desabaram. Mas o mau humor do
mercado não é apenas porque a empresa ainda não conseguiu sequer
publicar seu balanço. Os investidores também começaram a cobrar caro
pelos anos de má gestão.
A Petrobras hoje gasta mais do que ganha. De janeiro a setembro de 2014,
último dado disponível, a empresa gerou R$ 47,3 bilhões de caixa, mas
aplicou em suas obras R$ 56,4 bilhões. As contas só fecharam porque a
companhia foi a mercado e pediu emprestados R$ 41,3 bilhões.
É normal que as empresas se alavanquem para crescer. Mas se esse
investimento não é revertido em receita no médio prazo, o mecanismo cria
um círculo vicioso.
Em setembro do ano passado, a dívida da Petrobras estava em espantosos
R$ 331,7 bilhões e deve ter aumentando significativamente já que 70%
desse montante é devido em dólares.
Uma empresa está quebrada quando não tem dinheiro para honrar seus
compromissos. É bem provável que a Petrobras disponha de recursos para
pagar suas dívidas neste ano. Mas e em 2016? As contas podem não fechar.
Não é à toa que a nova direção da estatal adotou uma política típica de
empresas com problemas: negociar com os credores e vender tudo que
puder.
Dilma Rousseff não seu deu conta do tamanho do problema e continua
insistindo no mesmo blá, blá, blá. Quando a companhia perdeu o selo de
boa pagadora da agência Moody's, a presidente vociferou que era uma
"falta de conhecimento do que está acontecendo na Petrobras" e que "a
empresa tem capacidade de se recuperar disso, sem grandes
consequências".
Alguém em Brasília precisa avisá-la de que a situação é tenebrosa e que
ela pode entrar para a história como a presidente que quebrou a
Petrobras. A não ser, é claro, que mude radicalmente a gestão ou resolva
salvar a estatal com dinheiro dos bancos públicos, criando outro
problema. E, não, isso não é alarmismo. Só não vê quem não sabe fazer
conta ou deixa a política turvar seu raciocínio.
EXTRAÍDADOBLOGROTA2014





0 comments:
Postar um comentário