por Maurício Stycer Folha de São Paulo
Um casal acorda de madrugada com barulhos na casa vizinha, em um
condomínio de luxo, no Rio. Pelo binóculo, a mulher vê um homem negro
dentro da piscina.
"É ladrão! Você acha que esse cara pode ser dono disso tudo?" O marido olha e responde: "Não!".
Acionado na sequência, o chefe da segurança do condomínio chega ao local
e pede ao casal para sair da piscina. Logo, porém, os reconhece e o
mal-entendido é desfeito. "Sou muito seu fã", diz. "Eles são muito
famosos", explica aos vizinhos.
Ele é Brau, um músico de muito sucesso, e ela é Michele, sua empresária e
mulher. Diante da cara de pasmo dos vizinhos, o cantor pergunta: "Vocês
realmente não sabem quem nós somos? Onde vocês moram?".
A sequência toda toma cinco minutos e apresenta para o público, da forma
mais didática possível, não apenas os personagens-chave de "Mr. Brau",
como o pano de fundo da minissérie que a Globo estreou no final de
setembro.
Impactado com o que viu, o jornalista inglês Bruce Douglas escreveu no
diário "The Guardian", no início de outubro: "Para o Brasil, um programa
de televisão apresentar um casal negro rico como protagonista não tem
precedentes".
Criada por Jorge Furtado, com direção de Maurício Farias, a série tem
explorado este tema em todos os episódios (terças, às 22h30), mas vai
além. "Mr. Brau" trata também, sempre com humor e ironia, de meandros da
indústria musical e do mundo das celebridades.
Nos papéis principais, Lázaro Ramos e Taís Araújo estão se esbaldando.
"Quando vejo comentários de que sou exemplo de mulher negra, que o
Lázaro e eu somos um exemplo de casal negro, além de achar importante de
existir isso, fico superorgulhosa. Não acho que é peso, não. É uma
alegria, de verdade", disse a atriz à revista "Cosmopolitan".
Apesar da temática, seria um erro enxergar "Mr. Brau" como série
militante. Ao contrário, o programa está proporcionando ótimo
entretenimento. Exibidos sete episódios, tem conseguido apresentar de
forma natural, sem levantar a voz, as questões mais polêmicas que
discute.
Mesmo assim, não é possível dissociar "Mr. Brau" das ofensas racistas
que a atriz Taís Araújo sofreu na semana passada, em sua página no
Facebook. "Sei que meu caso não é isolado e é exatamente o que acontece
com milhares de outros negros no país", disse ela depois de prestar
depoimento à polícia, que busca identificar os autores dos comentários.
A série de Jorge Furtado é a terceira obra de ficção da Globo a colocar o
dedo na questão racial em 2015. A primeira tentativa se deu em
"Babilônia", de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga.
Infelizmente, como tudo o mais nessa novela, a história de Paula (Sheron
Menezzes), criada na favela e formada em direito graças à política de
cotas, foi esvaziada e ficou sem sentido.
Já em "I Love Paraisópolis", de Alcides Nogueira e Mário Teixeira, o
assunto mereceu tratamento mais digno. A dondoca Soraya (Leticia
Spiller) foi processada depois de ofender sua terapeuta, Patricia (Lucy
Ramos), no restaurante: "Tinha que ser preta". Condenada, prestou
serviços comunitários na favela que deu nome à novela.
A Globo dá sinais, enfim, de estar convencida de que a melhor maneira de
combater o racismo é reconhecer a existência do problema.
extraídaderota2014blogspot





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