por Carlos Heitor Cony Folha de São Paulo
Depois de ter feito o Sol e a Lua, os mares, os céus, as aves e o homem,
o Senhor achou que tinha obrado muito, e obrado bem. Daí se deu (quem
mais poderia dar a Ele?) um dia de repouso.
Não estou em concorrência com ninguém, muito menos com Deus, mas,
levando em conta minhas potencialidades, sinto que trabalhei mais do que
ele. Bem verdade que não cometi a façanha e o exagero de criar Sol e
estrelas. E jamais teria criado o homem. Dentro das minhas limitações, o
duro que venho dando pela vida afora é desproporcional a minhas forças.
Para não morrer de fome nas sarjetas (profecia de uma cigana que me
anunciou péssimo destino), tenho feito o diabo para sobreviver. A
profissão é mais complexa do que a do Criador. Sempre pinta algum
trabalho. Deus pode descansar realmente. Pensando bem, não havia mais
nada a fazer, a não ser deixar que o mundo e suas leis (feitas também
por Ele) trabalhassem sozinhos e para nossa desgraça.
No caso do jornalismo, a tarefa nunca está cumprida. No tempo da
criação, Deus fez o que quis. Não havia pesquisas de opinião, o que o
senhor acha do Sol, dos mares, dos pássaros? Já o jornalista está sempre
na corda bamba: qualquer comentário pode dar bode. E sua tarefa nunca
acaba. Quando morreu John Kennedy, fiz uma edição extra no jornal em que
trabalhava. Foram horas de faina rude.
Quando saíram os primeiros exemplares, ouvi no rádio que tudo estava superado.
O assassino fora preso, isso exigiria uma nova edição, e por que mais uma apenas?
A notícia quando é verdadeiramente notícia parece que nunca acaba.
extraídaderota2014blogspot





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