Publicado no Estadão FERNANDO GABEIRA
Outro dia, escrevendo sobre o comício das
diretas em Caruaru, lembrei-me de que no palanque estavam Collor e Lula,
entre outros. Naquele momento não poderia prever ainda a importância
que ambos teriam no processo democrático. Collor, o caçador de marajás,
preparava sua cruzada contra a corrupção. Lula, encarnando a esquerda,
falava de ética na política. Ambos os projetos, destinados a combater a
corrupção, foram tragados por ela, sem distinção ideológica.
Leio no New York Times
que dois políticos do Estado de Albany serão julgados nos próximos
dias: Dean Skelos e Sheldon Silver. As acusações soam familiares:
enriquecimento ilícito, propinas mascaradas em doações legais, parentes
envolvidos. A matéria diz que a cultura da corrupção em Albany será
julgada com os dois políticos. Acredito que sim, mas acho difícil
suprimir uma cultura apenas com um veredicto.
Albany ainda tem uma pressão corretiva
nacional. No caso brasileiro, não se trata apenas da cultura de um
Estado da Federação: é de todo um país.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
conseguiu administrar a corrupção em seu governo, no sentido de que não
evitou os escândalos; mas realizou seus objetivos. Ele próprio, porém,
admite um problema sistêmico, a julgar pela sugestão que fez a Dilma e
Lula numa viagem à África do Sul. Argumentando com a rejeição popular ao
processo político tradicional, propôs uma urgente mudança.
Hoje, confrontados com todo o material que a
Operação Lava Jato e outras investigações revelaram, estamos diante de
uma situação singular: corrupção alarmante e grave crise econômica.
Diante da inflação e do desemprego crescente,
que afetam todos nós, os políticos responsáveis acham que é preciso
conversar, buscar uma saída antes que tudo seja engolfado por uma crise
social. No entanto, nenhuma conversa, por mais produtiva que seja, pode
deixar de lado que a cultura da corrupção está sendo julgada no Brasil. O
veredicto final não resolverá o problema, mas certamente será um passo
decisivo, tão importante para completar a democracia brasileira como foi
aquele momento na década de 1980, quando lutávamos por eleições
presidenciais diretas.
Embora a corrupção fosse tema de Collor em
1988 e de Lula em 2002, a revolução nas comunicações, a presença da
internet, o avanço dos órgãos investigativos, a cooperação
internacional, tudo isso converge agora para fortalecer a transparência.
E enfraquecer os salvadores.
Diante da experiência fracassada de Collor e
do PT, talvez fosse oportuno refletir sobre a frase de Cioran: a certeza
de que não existe salvação é uma forma de salvação, é mesmo a salvação.
As pesquisas, todavia, indicam um ângulo favorável aos salvadores. O PT
é naturalmente rejeitado pela maioria, mas os opositores também
registram altos índices negativos. Uma terceira força, vinda de fora,
teoricamente, poderia derrotar a todos.
Na minha opinião, os políticos estão sendo
julgados por todos esses anos de democratização, mas também, e
sobretudo, por como se comportam no momento em que escândalos e crise
econômica se entrelaçam.
Um exemplo da luta contra a cultura da
corrupção se dá em torno de um instrumento legal, a delação premiada. É
apenas uma lei que reduz penas se a pessoa disser a verdade e reparar
seu crime, no caso, devolvendo o dinheiro.
Dilma combateu a delação premiada com uma
emoção de esquerda. Lembrou-se dos que delataram os militantes nos anos
de chumbo. Suprimiu um pequeno detalhe: que foram torturados para dizer a
verdade.
Lula chamou a delação premiada de mentira
premiada. Responde com uma piada nervosa diante de tantas evidências de
que os depoimentos são verdadeiros. Ignorou que a Lava Jato, com 33
delações premiadas e três acordos de leniência, devolveu R$ 2,4 bilhões
ao país.
Existe nas ruas uma certa hesitação em
colaborar com a polícia. As expressões alcaguete e dedo-duro têm uma
conotação negativa. Tiradentes, com a figura parecida com a de Cristo,
teve seu Judas em Joaquim Silvério dos Reis. Para quem vê a democracia
apenas como uma etapa é fácil confundir a polícia com repressão
política; afinal, todas as instituições visam a preservar o sistema.
Com um viés de esquerda, foi possível
transitar de uma luta pela ética na política para defesa da cultura da
corrupção. Os empresários querem business as usual, as figuras que
sobraram do palanque das diretas ainda devem ter conversas necessárias e
a própria crise econômica pode ser superada num par de anos. Mas a
sociedade, além das aflições da crise econômica, sente-se lesada por um
governo quadrilheiro, desapontada com uma oposição hesitante.
A fratura não se fechará enquanto o problema
em torno do crime e castigo não for resolvido. Isso pode consolidar os
laços da sociedade com as instituições e, quem sabe, capacitá-la a
empurrar os políticos para a frente, apesar deles.
Das diretas para cá o clima se degradou. Hoje
vemos Lula movimentando fortunas na conta bancária, casa de campo,
tríplex, exigindo menu de travesseiro. Ninguém imagina que tudo aquilo
daria tanto dinheiro aos salvadores: Collor com seus carros de luxo,
Lula faturando milhões com suas aulas magnas e, no fundo, a sirene do
camburão.
Collor e o PT são dois momentos do processo.
Seu fracasso precisa ser levado em conta na tentativa de recomeçar. Mais
do que discursos e promessas e uma certa ingenuidade diante da fraqueza
humana, será importante a transparência, apoiada em novas leis e no
fortalecimento das instituições que investigam o poder político.
O governo elegeu-se com verba de corrupção,
descumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal, manteve um esquema de
rapina na Petrobras. Enquanto estiver no poder, o relógio do recomeço
está desligado. Não adianta tocar para a frente, como se não tivesse
acontecido. Nem mantê-lo desligado até 2018. Não se para o tempo. No
máximo, é possível ganhar horas com o fuso horário, como o deputado do
PT que virou dono de um apartamento em Miami.
extraídadecolunadeaugustonunesopiniaoveja





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