Opinião Roberto DaMatta:
Passei a semana acompanhando a CPI da
Petrobras, lendo os jornais mais importantes do Brasil e seguindo
pessoalmente as manifestações. Não fui ao Rio, mas fiquei numa Niterói
ilhada por obras que, espero, venham a melhorar a minha vida: a vida de
um homem comum que, durante décadas, tem trabalhado no Rio e em todo
lugar. Sujeito que subiu em ônibus, tomou barca, lotação e foi do tempo
do andar de bicicleta e a pé.
Dizer que há uma guerra entre ricos e pobres
ou afirmar, como fazem os áulicos da presidente Dilma, que “o contra” é
mais motivador do que o “a favor” é ficar no mais imbecil dos sofismas.
Pois quem é a favor é contra e quem é contra é
a favor. De alguém, de alguma causa ou coisa. No caso: o povo
manifestou-se contra um governo paralisado por sua mendacidade, mas a
favor da punição dos ladrões do mais pornográfico sistema de corrupção
jamais montado no Brasil. Um sistema que vem do centro do poder e chega à
periferia da sociedade É claro que as pessoas estão contra o governo
Dilma, mas estão a favor daquilo que move todo povo trivial e idiota: a
honestidade, a dor de consciência, a vergonha de testemunhar o furto
daquilo que faria o progresso e o bem-estar de um Brasil que eles não
acham que é atraso ou babaquice amar.
Do mesmo modo, todo rico tem quem seja mais
rico e todo pobre conhece alguém mais pobre. Trata-se de uma oposição
segmentar, como diziam os antigos sociólogos ou, como dizem os mais
jovens, é um fractal. Como acontece com a oposição entre a casa e a rua
na sociedade e, na política, entre direita e esquerda. Não é preciso
pensar muito para descobrir que a casa tem uma rua (e vice-versa) e que
cada direita tem a sua esquerda. Ou o velho Trotsky não foi assassinado?
Quem o matou foi a direita ou a esquerda do stalinismo?
Quando eu fiz uma pesquisa num bairro
periférico de São Paulo com pessoas que se definiam como “pobres”,
fiquei parvo ao descobrir que todos, rigorosamente todos, se diziam
pobres. Assim como os porta-vozes de Dilma que dizem querer um “diálogo”
que termine por calar a nossa boca: a boca que foi calada por tanto
tempo do cidadão comum. O tal povo que, neste movimento histórico, sai
das asas dos partidos. Seja porque eles são todos falidos, mentirosos,
malandros — maquinas de enricar seus membros; seja porque ninguém atura
mais os Lulas, as Dilmas, as Gleises, os Cardozos (com z), os Dirceus (o
“capitão do time”) os seus mensaleiros-jogadores, os Mantegas e as
Rosemarys com suas pachorras e bebês.
O homem e a mulher comum se cansaram de pagar a
conta da bomba de hidrogênio que foi o roubo ordenado, calculado, com
um óbvio viés político-ideológico-partidário na maior e mais querida
empresa do país.
Ouvir o Sérgio Gabrielli na CPI foi uma aula e
um insulto. Ouvir novamente as reuniões do Supremo ou dos outros
tribunais não pode mais ser um outro ato de autoflagelação. Ou mais uma
aula de douta malandragem. O povo se cansou de testemunhar que o crime
compensa quando o roubo é feito por agentes públicos graduados, eleitos
para redimir e não sacanear o Brasil. Pois cada oitiva não termina numa
lição de justiça, mas numa pedagogia de corrupção. Numa demonstração dos
dotes necessários para bem roubar o Brasil: ter cara de pau, cinismo,
frieza, ousadia, ausência absoluta de espírito publico, de patriotismo
e, acima de tudo, de gosto pela malandragem que não dá em nada!
O outro aprendizado tenebroso é o seguinte:
para roubar nesta escala e com tanta legitimidade, é preciso ser
governo. Quem rouba não é o partido, nem as empresas, nem o papel de
deputado, governador, prefeito, senador ou presidente. Quem rouba é a
urdidura partidária relacional que mete na cabeça uma utopia ou um ideal
revolucionário, o qual vai tirar a sociedade de sua miséria de pessoas
comuns que trabalham, casam e fazem filhos misturados, que comem arroz
com feijão e adoram carne-seca, samba e cerveja. Aceita a ideologia e
implementado o partido como governo, começa a ação de “cuidar” ou
revolucionar a sociedade. E, já que não se pode acabar com o mercado e a
eleição, por que não comprá-los?
A nobreza das utopias — alimentar os famintos,
vestir os nus, dar abrigo aos sem-teto — são as palavras mágicas dessa
cosmologia política pervertida, segundo a qual o governo, sabendo tudo e
tudo possuindo, sabe mais e melhor do que a sociedade.
Mas eis que, depois uma década no poder, nada
disso ocorre, exceto a utopia de enricar sem fazer nada — apenas
governando e politicando: vendo onde, quando e quanto se pode tirar sem
dolo, culpa ou remorso porque o dinheiro era do lucro e o lucro, como na
Idade Média, é roubo e pecado. E quem rouba o ladrão tem mil anos de
perdão…
Assusta, neste glorioso 15 de março, essas
manifestações não encarnadas pelo falso vermelho, e marcadas pelo
verde-amarelo. O verde-esperança e o ouro sem mácula que pintam o
coração de milhares de brasileiros. Esses cidadãos comuns. Essa gente
miúda. Esse povinho sem ideologia ou utopia, mas com a moralidade,
apesar de tudo, intacta!
extraídadoblogdoaugustonunesdiretoaoponto





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