Jornalista Andrade Junior

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O que houve em Bento Rodrigues não foi um acidente. Foi crime

REYNALDO ROCHA

Minas Gerais. O nome diz tudo. Existem 200 minas espalhadas pelo território.
Décadas atrás, criou-se uma campanha: “Olhe bem as montanhas!” Elas estavam desaparecendo. Mesmo a Serra do Curral – moldura de Belo Horizonte – parece continuar existindo quando vista da cidade. Mas do outro lado, na face invisível da montanha, vales e campos foram tragados por imensas crateras.

Em 2001, uma barragem se rompeu no município de Nova Lima, a 5 quilômetros de Belo Horizonte. É uma área ambiental, com distritos como Macacos e Rio Acima e dezenas de condomínios horizontais cujos moradores lutam para manter o que o poder público ignora.
Foram cinco mortos, mais de um ano de acessos interrompidos e um imenso mar de lama – hoje seco e estéril – que deveria servir de exemplo e advertência.
Em 2014, outra barragem foi rompida em Itabirito. Três trabalhadores morreram em mais um acidente ecológico irreparável. Foram inúmeros os “pequenos” acidentes que devastam a natureza e matam muitos.
Neste novembro. ainda contamos os mortos em meio a poucas certezas. Uma delas: Bento Rodrigues morreu. Outra: não houve um acidente.
Não chovia. Não houve inundação. Mesmo um sismo de 2.9 graus (a desculpa a que se agarram os defensores do indefensável) jamais provocaria o rompimento da barragem. Foi crime. A negligência – para ficar na tipificação mais leve – está comprovada.
Em 2013, o Instituto Pristino – grupo ambientalista sem fins lucrativos, composto por professores da UFMG – produziu a pedido do Ministério Público um  estudo detalhado sobre as barragens de Minas Gerais, especialmente as de Mariana que se mostravam especialmente perigosas.
Segundo a SAMARCO, a empresa nunca recebeu eo estudo que lhe foi entregue em mãos. Uma cópia foi encaminhada ao governo estadual. Em julho deste ano, já na gestão de Fernando Pimentel, uma “auditoria independente” foi contratada. O veredito informou que não havia nada de errado. Tudo normal, tudo estável. Como em 2013, a licença foi renovada.
Entre 2014 e 2015, a produção aumentou 15% e chegou a 25 milhões de toneladas de minério de ferro. O colosso de rejeitos somou 22 milhões de toneladas. Para armazená-los existem as barragens assassinas. A meta da VALE e da BHP era era atingir 35 milhões de toneladas até o fim do ano.
Em vez de construir uma nova barragem de contenção, a Samarco optou por “reforçar” as paredes das existentes. As que se romperam. Fatalidade? É claro que não.
Os governos de Minas se contentam com qualquer lucro resultante da mineração. O governo federal se dispensa de qualquer ação além de arrecadar o que puder. Tira-se de Minas o que não é renovável. As mineradoras são historicamente donas do solo mineiro. A fiscalização é pouca ou nenhuma.
Afinal, o que vale Bento para quem fatura bilhões de dólares por ano? Que força pode ter uma comunidade de pequenos sitiantes que sobrevivem do trabalho e ganham quantias insuficientes para pagar o salário mensal de alguns engenheiros da Samarco ou de burocratas do governo?
As discussões sobre mineração se concentram em royalties e impostos. A vida humana é algo secundário. Os donos do dinheiro não têm tempo a perder com a cultura de vilarejos centenários ou a preservação do meio ambiente.
O governo estadual suspendeu a licença da Samarco. Não era necessário. As correias transportadoras foram afetadas. Não serão recuperadas tão cedo, para retomarem o despejo da lama que inunda Bento e se espalha por Minas e pelo Espírito Santo.
A BHP está revendo previsões de lucros para 2016. E já comunicou aos mercados internacionais que estuda “medidas alternativas” para impedir a queda da produção. Os moradores de Bento não têm nada a rever.
Quem conhecia Bento dividia o medo com a gente de lá. Uma imensa lagoa fétida recebia uma carga diária de rejeitos produzidos pelo minério destinado à exportação. Os impostos sempre passaram longe do lugarejo marcado para morrer.
Para quem não conheceu Bento, é difícil avaliar a extensão da tragédia. Vidas, histórias, lembranças, vivências, tudo se foi. Tudo isso jaz sob a lama. Há responsáveis com nome e sobrenome. Não foi fatalidade. Foi crime.
Em nome de Bento, o vilarejo enterrado na lama, há que se ter JUSTIÇA.
A lama de Bento não é somente rejeito criminoso. É a lama do descaso histórico com uma nação. Mesmo que seja com a menor comunidade que insistia em ser digna. Ou até mais por ela.







EXTRAÍDADECOLUNADEAUGUSTONUNESOPINIÃOVEJA

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