Jornalista Andrade Junior

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

"Lava-Jato e a crônica de uma crise",

por Eduardo Coutinho Folha de São Paulo

Apesar das ineficiências típicas de qualquer monopólio, desde sua criação em 1953, a Petrobras se desenvolveu e virou realidade. O ápice foi alcançado em 2007 com a descoberta do pré-sal. A empresa, inclusive, figurou em oitavo lugar entre as maiores empresas do mundo em 2011 no ranking da revista "Forbes".
Porém, mais recentemente, a empresa se viu em uma sucessão de escândalos descobertos pela Operação Lava-Jato. Até aqui cerca de R$51 bilhões em prejuízos foram reconhecidos entre corrupção e má gestão. Na conta da má gestão estão ativos que foram adquiridos a preços superiores aos de mercado, obras com custo acima do esperado e unidades de negócio de baixo desempenho.
Porém, os indícios de má gestão já eram detectáveis antes disso. O valor de mercado da empresa no final do mês de março de 2014, mês em que teve início a fase ostensiva da Operação Lava-Jato, estava 45,6% menor em relação a novembro de 2009, momento em que a empresa atingiu maior valor após a crise nos EUA. No mesmo período o Ibovespa caiu 24,8%.
Os problemas da empresa podem ser explicados a partir de alguns indicadores que já mostravam a perda de dinamismo operacional entre 2000 e 2013. Nesse período, o seu imobilizado (instalações, máquinas e equipamentos) cresceu 860%, já descontada a inflação no período.
Os investimentos no imobilizado visam ampliar as atividades da empresa desde que, claro, aumentem o volume de vendas. Porém, as receitas líquidas operacionais deflacionadas da Petrobrás cresceram bem menos: 170% no mesmo período.
A baixa eficiência da Petrobras também pode ser observada no Giro do Ativo. O Giro do Ativo indica quantos Reais em Receita Operacional a empresa obtém por cada Real investido em seu Ativo. Entre 2000 e 2013, o melhor momento foi em 2001 com R$0,80 e de lá para cá declinou até chegar em R$0,40 em 2013.
Isso pode ser creditado tanto à elevação dos ativos de maneira açodada, com superfaturamento em obras e investimentos ruins, quanto no controle de preços dos combustíveis para segurar a inflação.
Se olharmos a Margem de Ebtida temos mais um indício de que as coisas não iam bem. O Ebtida demonstra a capacidade de geração de caixa da empresa com suas atividades considerando Receitas e Despesas ligadas à atividade operacional. A Margem de Ebtida é a divisão entre o Ebtida e a Receita Operacional Líquida e, no caso da Petrobras, ela vem se reduzindo sistematicamente desde 2000 caindo de 34% para 20,8% em 2013.
Esses dados nos mostram que os problemas da Petrobrás vão muito além dos efeitos da Operação Lava-Jato. Para reverter essa situação a empresa precisa atacar pelo menos três frentes: melhorar seu processo decisório a fim de evitar a seleção adversa de investimentos e desvios de recursos, avaliar cuidadosamente seus ativos e colocar a venda aqueles com baixo rendimento e concentrar esforços naquilo que é foco principal do negócio e racionalizar custos e despesas operacionais a fim de recuperar as margens para fazer frente aos pesados compromissos financeiros resultantes de seu elevado endividamento e para retomar sua capacidade de investimento.
Não podemos esquecer que a empresa ainda vai enfrentar uma batalha pesada nos próximos meses envolvendo as ações movidas junto aos órgãos reguladores e a justiça nos Estados Unidos, que podem resultar em severas penalidades pecuniárias envolvendo multas e indenizações a investidores. O que agrava ainda mais as dificuldades para a recuperação da empresa.
EDUARDO COUTINHO, 46, doutor em administração, é professor e coordenador de curso do Ibmec/MG
extraídaderota2014blogspot

0 comments:

Postar um comentário

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More