editorial de O Globo
Há figuras de linguagem que são chavões, desgastados pelo uso. Como
afirmar que uma determinada imagem “vale mais que mil palavras”. Cabe,
porém, recorrer ao artifício para registrar que a confusão criada pelo
governo federal com o incompetente lançamento do sistema eletrônico de
emissão de guia para o recolhimento do FGTS e encargos cobrados sobre o
rendimento do empregado doméstico vale mais do que teses de doutorado
acerca da opressão exercida sobre a sociedade por um Estado obeso, caro e
inoperante.
A história da emissão da guia de recolhimento pelo sistema do eSocial,
onde estão reunidos serviços da Receita Federal, da Caixa Econômica, do
Ministério do Trabalho e da Previdência (INSS), funciona como um emblema
do descaso do Estado para com o cidadão.
Alguém em Brasília poderia ter tido a iniciativa de já convocar as áreas
envolvidas no tema para começar a trabalhar no sistema de emissão de
guias. Mas mesmo quando isso acontece, não se pode garantir que tudo
funcione de forma minimamente aceitável.
Quem é forçado a navegar no site da Receita para pessoas físicas, por
exemplo, conhece as dificuldades: páginas que avisam não ser seguras
para o internauta, lentidão, labirintos digitais que precisam ser
percorridos pelo contribuinte, quase sempre sem êxito, e assim por
diante.
Por ilustrativa coincidência, a confusão no eSocial ocorre não muito
depois do lançamento da versão de 2016 da “Doing Business”, do Banco
Mundial, pesquisa que avalia as condições de vários mercados para o
funcionamento das empresas. E o Brasil frequenta os piores lugares neste
ranking, devido a este Estado avantajado, com grande capacidade de
criar normas, impostos, toda sorte de obstáculos para pessoas e
empresas.
Entre 189 economias, a brasileira está em 116º lugar, muito distante do
Chile (48º), Colômbia (54º) e México (38º), para citar vizinhos de
continente. Há várias explicações para tão pobre desempenho — como muito
tempo, muita gente e muito dinheiro exigidos para as empresas pagarem
uma quantidade excessiva de impostos.
Além do tamanho e custo do Estado, há o agravante de uma cultura da
impunidade, porque os servidores, estáveis, nunca são avaliados pelo
mérito. Por isso, têm a reação arrogante de aconselhar as pessoas que
não conseguem emitir a tal guia a “tentar de madrugada". Ora, a
burocracia pública que trate de resolver o problema que ela mesma criou.
Mas é pedir demais a um aparato que absorve 40% do PIB, gasta mais do
que deveria e ostenta enorme incompetência sem risco de punição.
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