BERNARDO MELLO FRANCO - FOLHA DE SÃO PAULO
Quando Dilma Rousseff anunciou a escalação de seu novo ministério
repleto de nulidades, os aliados mais diligentes se apressaram para
defendê-la das críticas. O que parecia um insulto aos eleitores seria,
na verdade, fruto de um sofisticado cálculo político.
Mais experiente, a presidente teria decidido nomear aliados incômodos
para ampliar sua base no Congresso e assegurar a chamada
governabilidade. A manobra garantiria sossego em um ano difícil, com os
desdobramentos da crise econômica e do escândalo da Petrobras.
Dilma teria entregue os anéis para preservar os dedos, repetiam os
sábios do palácio. O discurso foi desmoralizado no domingo com a eleição
do novo presidente da Câmara, o peemedebista Eduardo Cunha.
O resultado é mais que uma derrota humilhante do Planalto, que jogou
pesado para tentar eleger o petista Arlindo Chinaglia. Também demonstra
que o fisiologismo é um círculo vicioso: quanto mais o governo oferece
em troca de apoio, mais os políticos fisiológicos cobram para continuar a
apoiá-lo.
Cunha foi eleito por uma massa de deputados que Dilma pensava ter
saciado com a reforma ministerial. Os votos que garantiram sua vitória
no primeiro turno saíram de siglas como o PP, dono do Ministério da
Integração Nacional, e o PTB, premiado com o Desenvolvimento.
Até o PRB, que conseguiu emplacar o bispo George Hilton no Ministério do
Esporte, reforçou a aliança que humilhou o governo. Os anéis já se
foram. Agora Dilma deve se preparar para entregar os dedos.
"Vamos conversar amanhã." "A gente vai encontrar uma saída para aquele
problema." "Você não vai ficar na mão, isso não é da nossa natureza." As
frases, cochichadas por Eduardo Cunha a aliados na porta das cabines de
votação, indicam o estilo das negociações que dominarão a Câmara até
2017.
FONTE ROTA2014





0 comments:
Postar um comentário