Por FERNANDO GABEIRA - Via Diário do Poder -
Na
última semana fui a Santa Catarina para documentário sobre a morte do
surfista Ricardo dos Santos, assassinado com dois tiros nas costas por
um soldado da PM embriagado. Constatei que o soldado respondeu a quatro
inquéritos, um por tortura. O Ministério Público pediu sua retirada das
ruas. Ele não só continuava trabalhando normalmente, como usava a arma
oficial, uma ponto 40. Tentei falar com o governador Raimundo Colombo e
com o comandante da PM, eles se esquivaram. Não foram ao enterro, não
viram a família, só se eclipsaram.
Por
que as pessoas do governo não dão as caras nessas circunstâncias? Ao
fazer essa pergunta, lembrei-me de Dilma, que também se refugiou no
Palácio do Planalto e não apareceu para falar francamente das medidas
econômicas e da crise hídrica que já atinge 45 milhões de brasileiros.
Nem mesmo para nos consolar pela situação energética (é uma
especialista) e dizer quais são os rumos do País nesse campo. Dilma, na
sua fase Greta Garbo, quem diria, acabou no Planalto Central.
Não
me estou referindo a essas aparições programadas, com blindagem à prova
de perguntas elementares. Com os ministros, foi como se aparecesse de
chapéu e óculos escuros, se escondendo. Era preciso não apresentar como
sua a nova política econômica. Era preciso explicar por que não a
mencionou na campanha. Ao contrário, atribuiu as medidas de austeridade
aos adversários, caracterizando-as como um saco de maldades.
Sabe-se
ainda que o governo pretendia mudar as regras de seguro-desemprego e
pensões de viúvas antes das eleições. Mas não teve coragem de
mencioná-las. De novo, atribuiu aos adversários conservadores e
neoliberais que não gostam dos pobres.
Ainda
na Guarda do Embaú, no pé da Serra do Tabuleiro, navegando no Rio da
Madre, tentei me colocar a pergunta essencial para mim: por que a esfera
da política se descolou da sociedade e os governantes não se sentem
responsáveis em reconhecer erros, apontar rumos?
À
noite vi pela TV o ministro de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri,
numa mesa-redonda em Davos defender a política de Dilma. Segundo ele, o
País retomou o caminho do meio, entre consumo e investimento, é um
movimento normal. O que acontece, na verdade, é o fracasso de uma
política econômica que, em certos casos, como o da energia, estimulou o
aumento de consumo de forma equivocada, econômica e socialmente.
É
no processo eleitoral que encontramos algumas respostas para o
descolamento da esfera do governo, permitindo que a presidente paire no
limbo dos corredores do palácio enquanto o País espera respostas
urgentes. Numa campanha comandada pelo marketing, o governo criou uma
novela de quinta categoria em que a heroína, Coração Valente, enfrentava
banqueiros que tiravam a comida da mesa dos pobres. Em 2018, criam
outro script e, assim, esperam, vencem as eleições de novo. A propósito:
o roteirista que imaginou Lula vestido de laranja na frente da
Petrobrás deveria ser mandado para a Sibéria.
É
simplesmente impossível que Dilma não apareça para comentar a questão
da água. Vamos passar tempos difíceis, precisamos de uma política, de
curto e de longo prazos, para equacionar o uso desse recurso, muitas
vezes mais valioso que o petróleo. Isso se não nos detivermos só no
preço do litro, embora em muitos pontos do País o litro da água mineral
bata o petróleo também nesse quesito.
É
possível que Dilma esteja esperando o fim da temporada das chuvas. O
ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse que contava com Deus,
que é brasileiro. Deus está vivo e bem em São Gabriel da Cachoeira, usa
barba, camisa vermelha e aceita uma graninha. Vamos pôr Deus entre
parênteses e enfrentar sozinhos o desafio pela frente. O mundo moderno é
precisamente marcado por esta realidade: estamos sós e somos nós os
responsáveis pelo nosso caminho. Também por isso os radicais islâmicos
nos combatem.
De
que adianta argumentar se as esferas se descolaram, o universo da
política se tornou opaco e inalcançável? A única saída é recolher as
evidências que possam ser um antídoto para o enredo da próxima novela,
em 2018.
Nas
eleições de 2008 já era um tema importante o registro no tribunal
eleitoral do programa de governo. Por esse processo era possível
qualificar o estelionato eleitoral. O problema é que os candidatos
registram qualquer coisa, às vezes nem registram com antecedência, o que
impossibilita o debate.
Uma
grande fonte de financiamento, os desvios na Petrobrás, deve secar.
Certamente a corrupção vai buscar novas brechas, mas a tendência é um
enxugamento das campanhas milionárias. É apenas mais uma das chances que
o Brasil tem de se livrar da presença calamitosa do PT, evitar que as
campanhas políticas se transformem em panfletos de quinta categoria.
Segunda-feira
a oposição volta do recesso. É um verão quente, mas ela devia ter-se
reunido mais, falado mais, cobrado mais. Enfim, tudo mais, como nos
versos da canção popular. Ainda tem uma chance de desmontar peça por
peça a novela marqueteira. Isso será pedagógico.
Por
que a Coração Valente apareceu para os ministros, e não para nós,
pagadores de impostos, desempregados, os que têm pouca ou nenhuma água,
os que acendem vela nos apagões? Dilma prometeu que não haveria mais
apagões. Mas já houve um na energia. Há outro, pois o modelo Greta Garbo
é, na verdade, um apagão no diálogo com a sociedade.
Tudo
isso ocorre num processo crescente de violência nas grandes e médias
cidades e até em balneários para descanso e relaxamento. Onde está mesmo
aquele plano de integração dos órgãos de segurança, todos conectados,
todos online, sabendo até a cor do sapato do assaltante? No Rio, 14
pessoas foram alvejadas por balas perdidas, duas crianças morreram. Todo
esse aparato foi comprado para Copa do Mundo e Olimpíada. Por que não
funciona, por que a insistência na desconexão, diante de um cenário tão
complexo?
Governantes
são de Marte. O pouco que sei dos habitantes desse planeta: costumam
ser sensíveis ao cheiro de fumaça e acionam o instinto de sobrevivência,
desde que devidamente estimulados.
FONTETRIBUNADAIMPRENSAONLINE





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